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Postado por em 29/09 em Empoderamento | 0 comentários

Coletivo de Mulheres do Calafate: 25 anos de resistência e luta pelos direitos das mulheres

Por Redação Odara

capa e abertura

Este ano, o Coletivo de Mulheres do Calafate (CMC) completou 25 anos de resistência e luta pela garantia dos direitos das mulheres e do empoderamento comunitário.  Com atuação histórica no movimento feminista baiano e brasileiro, o CMC tem realizado ações importantes para o fortalecimento de um Estado democrático com participação efetiva das mulheres nas diferentes esferas, a partir do controle social permanente das políticas públicas direcionadas as mulheres, principalmente, no campo da saúde e dos Direitos Sexuais e Reprodutivos; do enfrentamento a violência; da economia solidária entre outras.

Confira na íntegra entrevista do Coletivo de Mulheres do Calafate concedida a equipe de comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra e conheça mais sobre a trajetória política e os desafios apresentados pelo Coletivo na atual conjuntura, no que diz respeito aos direitos e participação política das mulheres.

Leia entrevista completa!

Como e quando surgiu o Coletivo de Mulheres do Calafate?

CMC- O Coletivo de Mulheres do Calafate foi criado em 08 de outubro de 1992, por oito mulheres da comunidade do Calafate indignadas pelos casos de violência doméstica e pela situação de subordinação que viviam as mulheres da comunidade.

Qual era a conjuntura no momento de criação da organização?

CMC- Em nível nacional o cenário político era de pós-promulgação da Constituição Brasileira (1988), garantindo o exercício da cidadania e da democracia no país, depois de anos no regime de Ditadura Militar. No âmbito da comunidade do Calafate existia um forte movimento de moradia, que envolvia moradores/moradoras da comunidade em prol do desenvolvimento da comunidade e luta por direitos sociais.

Apesar do cenário favorável a mobilização e articulação comunitária, a situação da de vida das mulheres era de opressão e exploração, devido ao sistema capitalista racista-patriarcal. Situação que dificultava a participação política das mulheres.

Quantas e qual o perfil das ativistas que compõe o Coletivo?

CMC – O Coletivo de Mulheres do Calafate é atualmente composto por 38 integrantes. Na sua grande maioria mulheres negras e adultas. Somos aposentadas (ou beneficiada pelo BPC), trabalhadoras doméstica, beneficiada pela Bolsa Família e outras no mercado informal (sem proteção social). O número de mulheres no ensino superior vem crescendo, mas não chega a 50% do grupo.

(Imagem/Arquivo fotográfico Coletivo de Mulheres do Calafate)

(Imagem/Arquivo fotográfico Coletivo de Mulheres do Calafate)

Quais são as principais agendas de incidência da organização ao longo dos seus 25 anos?

CMC- O Coletivo tem atuado fortemente no enfrentamento à violência contra as mulheres; Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos; e da Economia Solidária.

(Imagem/Arquivo fotográfico do Coletivo de Mulheres do Calafate)

(Imagem/Arquivo fotográfico do Coletivo de Mulheres do Calafate)

Como tem sido o diálogo do Coletivo com a comunidade com relação à pauta dos direitos reprodutivos e do aborto?

CMC – Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos é a agenda de incidência política que enfrentamos maior desafio para se desenvolver dentro do Coletivo e na comunidade. Os desafios vêm aumentando devido ao crescimento das igrejas evangélicas (segundo os evangélicos tradicionais, o que seria a ‘nova onda de evangélicos’) e do próprio sistema patriarcal.

Os anos 90 foi o período que mais falamos sobre os Direitos Sexuais e Reprodutivos, devido ao surgimento da AIDS. Tínhamos projetos financiados pela Coordenação Nacionalde DST/HIV/AIDS, que apoiava projetos e contribuía com a atuação das mobilizadoras comunitárias.

Neste período, o Coletivo de Mulheres do Calafate contribuiu para a formação e criação do Grupo Homossexual do Calafate, que depois se tornou o Grupo Homossexual da Periferia, e realizou ações comunitárias e de rua marcando na comunidade do Calafate o dia 29 de Agosto – Dia da Visibilidade Lésbica.

Todos os projetos e ações eram realizados com muita mobilização comunitária. Apesar das críticas dos seguimentos conservadores da comunidade na época, no âmbito interno do grupo existia um consenso da importância da agenda política sobre os Direitos Sexuais e Reprodutivos, só que esse consenso tinha seu limite quando se tratava do tema Aborto. Apesar da resistência de se falar sobre aborto – muitas vezes por medo de ser presa – as mulheres faziam o aborto. Nas rodas de conversa sobre aborto eram relatadas as ‘dores’ e as opressões provocadas pelas concepções religiosas e patriarcais impostas às mulheres, geralmente vinculadas à maternidade, a vida do feto. A maternidade como a essência do ser mulher.

Atualmente, os desafios estão sendo enfrentados dentro do grupo, a partir do número significativo de evangélicas. Algumas reconhecem o aborto como direito da mulher internamente no grupo, porém não sustentam o argumento fora do grupo. A comunidade tem um perfil conservador nos aspectos político e social, exigindo do Coletivo de Mulheres do Calafate criação de estratégias para garantir a pauta dos Direitos Sexuais e Reprodutivos e do Aborto.

No Brasil, a saúde pública é uma das áreas mais marcadas pelo racismo institucional. Cenas e práticas de controle da população negra brasileira são indicadores das desigualdades do país, com efeitos negativos, sobretudo no direito à maternidade para as mulheres negras. Qual a opinião e como o Coletivo tem enfrentado este tema?

CMC – Um desafio encontrado pelo Coletivo se refere à naturalização do sofrimento pela condição de pobreza e de ser mulher negra. As mulheres naturalizam a situação de sofrimento e de ‘que tudo tem que ser com dificuldade’. Outro desafio é do fazer entender que as mulheres negras têmdireitos. As mulheres não negras acessam a saúde pública com a convicção de que elas têm direito a saúde pública. Elas imaginam a dificuldade de ir aos serviços públicos de saúde, podem naturalizar que por ser mulher em situação de pobreza tudo é mais difícil, mas elas vão.

Para as mulheres negras o diálogo é praticamente inexistente, diante das situações provocadas pelo racismo. As mulheres negras muitas vezes são levadas a não acessar a saúde pública, já que não tem direito de romper com o pensamento “de não ter direito”, de ser ‘barrada’ pelo racismo institucional, como castigo de sua rebeldia, que nesse caso, seria o de se achar sujeitas com direito.

Esse cenário é enfrentado pelo Coletivo, sendo uma organização composta por mulheres negras e não negras, criando espaços de empoderamento para as mulheres negras.

Nós temos debatido e feito enfrentamento as práticas de controle da população negra brasileira como indicadores das desigualdades do país, com efeitos negativos, sobretudo, no direito à maternidade para as mulheres negras.

O Coletivo comemora seus 25 anos em um momento de conjuntura política desfavorável com relação aos direitos das mulheres no Brasil. Neste cenário, quais têm sido os principais desafios apontados pelo Coletivo?

CMC – Estamos enfrentando o desafio a cerca do descrédito das mulheres em relação à importância participação política diante do Golpe. A manutenção do golpe tem reforçado a naturalização de desesperança, deque a situação não tem jeito e que sempre foi assim. A atuação das forças conservadoras nas comunidades tem promovido ampla despolitização diante do desespero da população. Existe uma pressão atuando nesse caos para que esta mesma população acredite que para mediar ‘o caos do Brasil só Jesus na causa’.

São expressões que reforça a alienação e o afastamento das mulheres na possibilidade de mudanças. Como o Coletivo de Mulheres do Calafate tem sua atuação centrada na formação política feminista para o controle social sofre o impacto dessa conjuntura política na participação das mulheres e adesão nas lutas. Só nos resta a resistência!

(Imagem/Arquivo fotográfico Coletivo de Mulheres do Calafate)

(Imagem/Arquivo fotográfico Coletivo de Mulheres do Calafate)

A violência contra as mulheres e o feminicídio tem aumentado de forma significativa no estado da Bahia, o Coletivo atribui esse fenômeno a quais fatores?  Quais ações o Coletivo tem realizado para enfrentar este quadro?

CMC – Atribuímos esse fenômeno ao capitalismo patriarcal racista. Quando o governo consegue implementar políticas públicas no enfrentamento a violência contra as mulheres, por pressão dos movimentos sociais, não faz seus devidos investimentos orçamentários para que esse serviço tenha um atendimento que contemple a necessidade das mulheres, compreendendo a prevenção e a atenção. Com a atual conjuntura política desfavorável só se agravou mais o descaso do governo aos equipamentos de enfrentamento a violência contra as mulheres e a Lei Maria da Penha.

No âmbito ideológico, existe um ódio contra as mulheres, que só se agrava no cenário de ódio. É perceptível o incomodo com relação ao empoderamento das mulheres, o desprezo não basta só ]à execução. Como o feminismo representa esse caminho para o empoderamento, se agrava o ódio contra as feministas e as instituições feministas. Só basta a resistência!!!

 

 

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