EP 6: GAL & LINHO – FAMÍLIA BRASILEIRA E O CORONAVÍRUS EM: “Lôro Pivete” – Desejo de menino, preocupação de mãe



Publicado em: 31 de jul de 2020

EP 6: GAL & LINHO – FAMÍLIA BRASILEIRA E O CORONAVÍRUS EM:

“Lôro Pivete” – Desejo de menino, preocupação de mãe

No episódio de hoje o clima tá tenso na casa dos nossos dois personagens preferidos da quarentena.

Linho tá insistindo pra Gal pintar novamente seu cabelo no bom estilo “Lôro Pivete”. Gal, que já andava meio invocada com o cabelo de Linho, tá decidida a não deixar mais o filho pintar o cabelo desde que viu a notícia do assassinato de Miacael Silva, criança de 11 anos morto por policiais militares no Nordeste de Amaralina, periferia de Salvador (Ba).

Micael Silva foi morto no último dia 14 de junho durante uma ação da PM. O menino e toda sua família são vítimas da ação brutal da polícia militar nas periferias do país. Gal, como uma mãe negra que é, sabe que a polícia e os aparelhos da mídia hegemônica inventam subterfúgios da estética como cabelo e roupa para justificar a morte de nossos meninos.

Gal tá assustada. Linho tá inconformado.

Vem conferir como se desenrolou o dilema da vez.

Ilustração: Rayssa Molinari | Roteiro: Alane Reis e Naiara Leite

#FamiliaBrasileira #DoisContraOmundo #VidasNegrasImportam #CriancasNegrasImportam

 

BAIXE A HQ COMPLETA EM PDF


Julho das Pretas na Região Nordeste – Continente das Mulheres Negras



Publicado em: 23 de jul de 2020

Por Alane Reis e Laila Oliveira

 

Somos a Rede de Mulheres Negras da Região Nordeste, uma rede de organizações de mulheres negras, espalhada pelos 9 estados da região, organizada desde 2013 pelo enfretamento ao racismo e o sexismo, e pelo fortalecimento das organizações de mulheres negras do Nordeste. Brincamos que a nossa região é o “continente das mulheres negras”, pois além de sermos a região populacionalmente e culturalmente mais preta do Brasil, cada estado que compõe o Nordeste possui características identitárias, culturais, sociais, ambientais, que às vezes são comuns, mas tantas outras vezes são tão específicas. E o Julho das Pretas é o mês que esbanjamos a força e a beleza da arte das mulheres negras produzir política em nosso continente.

Em sua 8ª edição, o Julho das Pretas é uma estratégia de incidência política organizada através de uma agenda coletiva que reúne ações de diversos movimentos de mulheres negras do Brasil, alusiva ao 25 de Julho (Dia Internacional da Mulher Afro-Latina Americana e Caribenha e Dia Nacional da Mulher Negra). Esta edição chega em um cenário de pandemia mundial, momento que tem exigido de nós cada vez mais força, disposição e criatividade para reconfigurar nossas formas de fazer luta e estar no mundo.

Criado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, o Julho das Pretas ganhou a Região Nordeste através da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, e tem se multiplicado em cores, sotaques, arte e política, mostrando que são as mulheres negras que dão a tônica das transformações sociais.

Ao longo dos últimos 8 anos, o Julho das Pretas pautou temas essenciais para o enfrentamento ao racismo, machismo, sexismo, lesbitransfobia e outras opressões correlatas, e este ano traz o tema “Em defesa das vidas negras, pelo Bem Viver”, entendendo que precisamos seguir em marcha em defesa de todas as vidas negras, e em sintonia com toda a irmandade que segue lutando e denunciando as práticas racistas no mundo todo.

O Bem Viver vem neste Julho reforça o projeto político do movimento de mulheres negras para a sociedade Brasileira. Queremos uma sociedade que: valorize às vidas negras e indígenas; garanta direitos universais; defenda a natureza e o meio ambiente; respeite à cultura e auto determinação dos povos que habitam o Brasil. E ainda que avance na ousadia de pautar o Estado e construir uma democracia pluri-racial e com equidade de gênero.

Esse e-book é um conjunto de nossas vozes reunidas, conta nossa história e a diversidade da nossa luta ao longo dos últimos 8 anos. Este documento é um pequeno guardião da nossa memória, da luta das mulheres negras da Região Nordeste. Narrativas reunidas sobre a resistência das mulheres negras da nossa região, nosso continente Nordeste que possui importância histórica nas lutas por democracia e direitos humanos no Brasil. Nós, mulheres negras, somos as senhoras desta memória. E hoje, mais que nunca, informamos para o Brasil, não haverá nada sobre nós sem nós!

O Julho das Pretas deste ano traz uma programação totalmente virtual, porém, igualmente potente às outras edições, com recorde de inscrições, mostra mais uma vez que sabemos resistir as intempéries com a firmeza, sabedoria e perspicácia que nossas ancestrais nos legaram. Estamos amparadas pelas nossas ancestrais, Dandara de Palmares, Nzinga, Teresa de Benguela, Aqualtune, Luiza Mahin e tantas outras, sob a proteção das nossas Ayabás, mergulhamos irmanadas nessa grande ebó coletivo que o Julho das Pretas é para todas nós, momento de cuidado, de afeto, de renovação de energias, de força e conexão com a nossa ancestralidade.

 

BAIXE O E-BOOK E CONHEÇA A HISTÓRIA E MEMÓRIA DO JULHO DAS PRETAS NA REGIÃO NORDESTE


Live do Odara na 8ª Edição do Julho das Pretas



Publicado em: 21 de jul de 2020

O tema da nossa conversa vem incendiário: Diálogos Transnacionais – Mulheres Negras construindo o Bem Viver

Se programe: Dia 23 de Julho, às 19h. No canal do Youtube do Instituto Odara

Olha esse time de peso para refletir sobre o nosso projeto político transnacional do Bem Viver:

Benilda Brito, a mineira das palavras educadoras é pedagoga, coordenadora do programa de Direitos Humanos do Odara – Instituto da Mulher Negra, e integrante da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e do Fórum Permanente de Igualdade Racial (FOPIR);

Janvieve Williams Comrie –  Diretora Executiva da ONG AfroResistance

Luiza Cavalcante, pernambucana que como o canto de um Sankofa nos lembra constantemente de nossas práticas ancestrais com a comida e o meio ambiente. Ela é Feminista Negra, agricultura agroecológica, educadora popular, e gestora do Sítio Ágatha.

Maria Abade é herdeira do legado dos povos que primeiro constituiu Estado e Nação no território brasileiro. Ela é Quilombola, historiadora, coordenadora da Frente Quilombola do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), presidenta da Associação da Comunidade Quilombola do Engenho da Ponte, articuladora geral da Articulação de Mulheres Negras no Quilombo Engenho da Ponte, e militante da Rede de Mulheres Negras da Bahia;

 

Nilma Bentes, a anunciadora do Bem Viver, guerreira amazônica, uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA e uma das criadoras da Rede Fulanas NAB – Negras da Amazônia Brasileira;

Paola Yañez-Inofuentes é uma ativista afroboliviana, feminista, engenheira civil,  Coordenadora Geral da Rede de Mulheres Afrolatinoamericanas, Afrocaribenhas e da Diáspora e integrante do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres para América Latina e Caribe;

Rosa Marques, a guerreira negra do país Pernambuco é socióloga, militante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e uma das coordenadoras da Rede de Mulheres Negras do Nordeste.

 

Thiffany Odara, certeira, direta e sagaz, como nossas ancestrais, ela é pedagoga especialista em Gênero, Raça, e Sexualidade, educadora social, redutora de danos e ativista do movimento de mulheres e LGBT.

Yane Mendes, jovem negra do bonde que se orgulha de ser quem é e por isso não veio ao mundo passar pano pra violência nenhuma. Ela é cineasta periférica da favela do Totó, em Recife (Pe). Constrói a Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas, Mulheres do Audiovisual de Pernambuco (MAPE), Movimento pela vida de nossas mães, e Rede Tumulto.

A mediação fica por conta dela, das palavras afiadas, a que arrasta o bonde que acredita que pra toda hipocrisia do racismo, teremos sempre uma palavra vraaaw na ponta da língua: Valdecir Nascimento, Coordenadora Executiva do Instituto Odara, da AMNB e do FOPIR, ela também compõe a coordenação da Red de Mujeres Afrolatinoamericana, Caribenha e da Diáspora.

Então estamos entendidas, encontro marcado Dia 23 de Julho, às 19h. No canal do Youtube do Instituto Odara

 

#JulhoDasPretas2020 #VidasNegras #BemViver #JulhoDasPretas #MulheresNegrasMovemOmundo


CARTILHA PARA REALIZAÇÃO DE LIVES: Ocupação virtual das Pretas | 25 de Julho



Publicado em: 21 de jul de 2020

Diante da pandemia do novo Coronavírus, o Julho das Pretas se reinventa no ambiente virtual. Nos anos anteriores, marcado por marchas pela cidade de Salvador e de outros estados do Brasil, o dia 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Afrolatina, Americana e Caribenha.

Este ano, em sua 8ª edição, a ação coletiva do Julho das Pretas será celebrada com uma OCUPAÇÃO VIRTUAL DAS PRETAS! Uma parceria do movimento de mulheres negras da Bahia e a Rede de Mulheres Negras da Região Nordeste. Faremos uma ocupação com 24h de atividades nas principais redes sociais, com conteúdos variados – e você ou seu coletivo pode participar prestigiando ou realizando uma atividade.

Para auxiliar nesse processo as marinheiras de primeira viagem ou com pouca experiência com lives, preparamos esta cartilha abaixo. Baixa ai no link e bom 25 de Julho pra vocês!!!

 


8ª Edição do Julho das Pretas | Agenda da Rede de Mulheres Negras do Nordeste



Publicado em: 13 de jul de 2020

A defesa do Bem Viver e a valorização do direito à vida para a população negra impulsionam a organização política da Rede de Mulheres Negras do Nordeste em mais uma edição do Julho das Pretas.

Desta vez em modo on, virtualmente, organizamos diversas atividades para refletir os impactos do racismo e do sexismo na sociedade brasileira. O nosso Julho mais uma vez está antenado com o momento político internacional e o tema geral da nossa ação política reforça o clamor mundial: Vidas Negras Importam!

A “valorização das vidas negras” indica o caminho do projeto político que estamos rascunhando para a sociedade brasileira: o Bem Viver. Nossa utopia de desmonte desta sociedade para a construção de uma nova em que os seres humanos vivam em igualdade, e que se acabem as violências estruturais decorrentes dos processos de colonização.

O Bem Viver valoriza a pluralidade humana, discurso e prática do movimento de mulheres negras do Brasil desde a Marcha das Mulheres Negras, Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver, em 2015.

O Julho das Pretas é uma estratégia de incidência política desenvolvida a partir de uma agenda conjunta e propositiva com movimentos de mulheres negras da Região Nordeste, e mais alguns estados do país, voltada para o fortalecimento das organizações e pautas políticas das mulheres negras. Idealizado em 2013, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, o Julho das Pretas celebra o 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina-americana e Caribenha, e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

 

Confira a agenda completa.


AGENDA COLETIVA: 8ª Edição do Julho das Pretas – Em Defesa das Vidas Negras, pelo Bem Viver



Publicado em: 07 de jul de 2020

O Julho das Pretas é uma estratégia de incidência política desenvolvida a partir de uma agenda conjunta e propositiva com movimentos de mulheres negras da Bahia, Região Nordeste, e mais alguns estados do país, tais como Paraná, Pará, Amapá, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, e Distrito Federal, voltada para o fortalecimento das agendas e organizações de mulheres negras.

Idealizado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, o Julho das Pretas celebra o 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina-americana e Caribenha, e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Todos os anos, o movimento de mulheres negras da região Nordeste, a partir da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, se reúnem para escolha do tema do Julho na região, dialogando com os principais desafios políticos das mulheres negras naquele mês.

Este ano o Julho das Pretas terá como tema “Em Defesa das Vidas Negras, pelo Bem Viver”. Será uma edição virtual para atender as medidas de segurança sanitária, mas vem com toda força do nosso ódio ao racismo e aos racistas, e sanha da necropolítica que eles gestam. O Julho vem com a força ainda maior do nosso amor por nós mesmas, e às nossas culturas de matriz africana, e às nossas comunidades que nos inspiram diariamente a tecer utopias de um mundo melhor!

Entendemos que o momento político internacional tem clamado pela importância da defesa da vida das pessoas negras. O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) tem agregado força mundial ao lema que nós, movimento negro brasileiro, viemos há décadas pautando aqui como “genocídio da população negra”. Transpor a narrativa da “denuncia do genocídio” para a “valorização das vidas negras” dá um tom mais propositivo para a mobilização política, evita que o debate caia em dados e números frios, dá cara de gente e expande o sentido da defesa: todas as vidas negras importam. A defesa das Vidas Negras, assim, no feminino, universaliza o tom da humanidade negra e afirma a diversidade das agendas políticas encapadas pelas mulheres negras.

E o Bem Viver é o projeto político que apostamos desde a Marcha de Mulheres Negras, em Brasília, em 2015. O Bem Viver é nossa utopia de desmonte desta sociedade para a construção de uma nova em que os seres humanos vivam em igualdade, e que se acabem as violências estruturais decorrentes dos processos de colonização. E isso, em um momento de crise, ou melhor, de reorganização do capitalismo global, em que povos oprimidos do mundo inteiro se levantam para dizer que precisamos construir outro modelo civilizatório que quebre com os parâmetros eurocêntricos de monetização e banalização da vida.

O Bem Viver valoriza a pluralidade humana, e desde a Marcha das Mulheres Negras – 2015, insistimos na própria pluralidade das mulheres negras do Brasil. Somos plurais como nossas frentes de luta, demarcadas nas atividades desta agenda. Atuamos por uma infância sem racismo, machismo e violência, por isso construindo atividades como aniversário de bonecas e bonecos, rodas de contação de história e gincana de conhecimentos. Atuamos por uma adolescência segura e com possibilidades de futuro, e por isso temos nesta agenda atividades sobre direitos sexuais e reprodutivos, sexualidade e família, e educação pública de qualidade. Apostamos na juventude, a faixa etária mais numerosa da população brasileira, por isso defendemos o acesso e a permanência nas Universidades, acesso a emprego, a arte e a cultura. Queremos dignidade e felicidade para todas nós, por isso acreditamos na importância das políticas sociais. E acima de tudo, acreditamos no desmonte deste Estado e na construção de uma nação de Bem Viver, é este nosso recado nesta agenda e neste Julho.

 

Faça o download da agenda, confira e acompanhe as atividades!

 

#JulhoDasPretas #JulhoDasPretas2020 #8ªEdição


A candidata negra do PT à Prefeitura de Salvador e a continuidade de uma Disputa de Narrativa



Publicado em: 27 de jun de 2020

 

Por Alane Reis*

 

Na tarde da última sexta-feira (26), um evento na internet que diz muito sobre o atual contexto político da Bahia passou com pouco destaque pelas principais redes sociais. Era a coletiva virtual de imprensa do Partido dos Trabalhadores (PT) para apresentar a plataforma de campanha à prefeitura de Salvador, representada pela pré-candidata da Polícia Militar, Major Denice Santiago.

A live, mediada pelo jornalista Yuri Silva, e com a presença de mais seis jornalistas de veículos como Bahia.ba, A Tarde, Radar Bahia, Metro1 e Política Livre, seguiu na metodologia de sabatina e tinha como assunto principal o recente lançamento de uma plataforma virtual de campanha do partido. A plataforma, ainda em processo de consulta, registrou-se como o primeiro movimento público e oficial da oposição na disputa eleitoral à prefeitura de Salvador, a Roma Negra, cuja população formada em 82,1% de pessoas negras (PNAD 2017), nunca teve em seu executivo um representante político democraticamente eleito, que fosse negro, ou negra, como a cidade.

Pois então. Eis que o PT lança sua candidata ao desafio e teste de alçar o espaço de “primeira negra” – esta condição que entre outros adjetivos é tão desconfortável e profundamente conhecida por tanta(os) de nós, que por exemplo, viramos as primeiras da família a alcançar o diploma universitário, a carteira assinada, o emprego público, ou os intermináveis espaços que o racismo patriarcal nos alijou. Patrícia Hill Collins (2016)[1] ao escrever sobre este lugar desbravado pelas mulheres negras na academia chamou de Outsider Within – sem tradução em português, a expressão fala sobre presença, pertencimento e reconhecimento de pesquisadoras negras neste lugar dominado pelos poderes brancos.

A Major, esbanjando simpatia, começa falando sobre a importância de pensar o novo para a política soteropolitana e define sua pré-campanha como um movimento de paz e amor. Ao começar as arguições, ela cita a educação como agenda importante. Recusa-se a tecer críticas à gestão de ACM Neto, em seu segundo mandato como prefeito de Salvador. Brinca que seu principal diferencial em relação ao candidato do governo é seu belo sorriso. Elogia o colega de corporação Pastor Deputado Sargento Isidório ao ser questionada sobre a possibilidade deste também militar compor sua chapa como vice. Fala de sua amizade e confiança política no governador Rui Costa (PT-BA), largamente denunciado por suas falas racistas e seu alinhamento a políticas fascistas e conservadoras, sobretudo no campo da segurança pública.

Enquanto isso, em todas as redes em que a live foi exibida, fervilhavam comentários pedindo para que a candidata se posicionasse sobre a questão-problema da segurança, mas a metodologia escolhida para a coletiva não atendia às questões do público.

Por duas vezes questionada sobre sua condição de Outsider da política, a Major Denice Santiago fala de sua felicidade e privilégio de estar neste lugar, e consegue passar quase 1h de live sem mencionar a palavra racismo. Nesta minha jovem vida, experimentando alguns espaços como Outsider e bebendo no conceito de Collins, nunca tinha visto uma auto compreendida Outsider destacando seus sentimentos de felicidade, paz e amor pela condição. Muito pelo contrário, os relatos costumam ser de dor, pressão, angústia e responsabilidade pela escolha ou imposição de ser a “representante da raça”, deixando a tarefa mais complexa ao somar interseccionalidades (CRENSHAW, 2002).

E falando em interseccionalidade, como uma mulher preta, oriunda do subúrbio ferroviário de Salvador, que alcançou o cargo de major em uma instituição profundamente racista e machista como a PM, ela é diversa e propaga suas tantas experiências ao falar de si. Atenho-me a refletir sobre dois lugares ocupados por ela: o de Mãe, e o de Policial. O primeiro porque toda sua comunicação e discurso da pré-campanha estão centrados neste lugar; o segundo lugar, o de PM, é a narrativa inevitável, por onde a Major construiu vida pública.

O lugar de mãe de um jovem negro é sempre reforçado pela candidata em suas falas. Sabemos a importância que assume a maternidade em qualquer sociedade e fundamentalmente na nossa, tão repleta de aspectos culturais matrilineares, herdado das culturas africanas. Salvador é essa comunidade metrópole que atravessa a história na disputa interminável entre a resistência e os desejos de liberdade da gente descendente de tantas Áfricas sequestradas e saqueadas, e a ação minimamente planejada, articulada, cruel e genocida da branquitude baiana que se atualiza pelo controle de tantos corpos, mentes e culturas pretas.

A maternidade acionada pela Major é a aposta do PT para tentar alcançar pela primeira vez a prefeitura da “Cidade das Mulheres”, narrativa construída na antropologia de meados do século XX, sobre a influência das mulheres negras, sobretudo do Candomblé, na sociedade soteropolitana. E ao ouvir tanto apelo à sujeita “mãe”, que aparece inclusive no título da campanha, mencionando Salvador como a “mãe de todos”, é inevitável não me lembrar do rosto do pequeno Micael Silva, de 11 anos, com seus olhos tão vivos e seu cabelo platinado ao estilo “lôro pivete”, do tipo que quase todo menino nosso, hoje em dia, sonha em pintar. Lembro-me das palavras e do choro de sua mãe, dona Joselita, ao contar revoltada como o menino foi criminalizado, após ter sido assassinado por Policiais Militares, no último dia 14 de junho, no Vale das Pedrinhas, no Nordeste de Amaralina, nesta mesma Salvador.

Micael Silva, 11 anos, assassinado pela polícia no último dia 14 de junho, no Nordeste de Amaralina, em Salvador.

“Mãe de Todos”? Não foi mãe. Foi algoz de cada um dos jovens negros assassinados pela polícia ou em consequência da política de segurança pública do estado gestado pelo PT da Major. A mesma política de segurança pública da Bahia que concede aos seus agentes prêmios por número de mortes, e que no mês de março alcançou o 1º lugar dos estados Brasil em crimes de homicídio em 2020, segundo o Monitor da Violência[2]. A mesma política que gesta a polícia militar que há 10 anos protagoniza o ranking nacional de número de homicídios.

A entrevista seguia no tom paz e amor anti críticas, até que uma corajosa e polida pergunta de uma jornalista quebra o silêncio ao questionar sobre uma possível intenção da campanha de desvincular a Major Denice da sua imagem de militar, concluindo com uma segunda pergunta sobre como a Major pretende tratar a questão da violência contra a população negra. E já próximo do fim, a live chega em seu ponto alto.

Ao finalmente falar da polícia, a Major nega possível intenção da campanha inviabilizar sua relação com a corporação, visto que dos seus 49 anos de vida, 30 foram dedicados a esta instituição. Ela aciona seu projeto da Ronda Maria da Penha e os bons serviços públicos que esta ala da polícia desenvolve. Em suas palavras: “estes agentes batem na porta das mulheres, conversa sentados no sofá, e quando eles saem, elas sentem saudade que eles voltem, por se sentirem extremamente seguras pela existência daquela unidade”.

A questão é que essa polícia encantada narrada por Major Denice não dialoga com a realidade de 3º lugar nacional em número de feminicídios ocupado pela Bahia. Nem com os relatos de não acolhimento às mulheres vítimas de violência doméstica que procuram as DEAMs do estado durante a pandemia, ou antes desta. Nem com o número de óbitos de mulheres pós denúncia e sob a ação de medidas protetivas. Foi a última pergunta da coletiva.

Olhando de maneira mais ampla o contexto, o outro nome de candidato que já conhecemos vem do ecossistema de Netinho Grampinho, cuja complexidade da política é tradicionalmente de direita, propaga e defende a baianidade no entrelaçamento da também genocida herança coronelista, e o afeto pela cultura negra do estado, numa relação do chamado “duplo vínculo” na perspectiva que vem sendo analisada pelo querido professor Muniz Sodré (2018)[3]. Mas isso é assunto pra outro texto.

Chamo atenção para refletirmos o significado de uma cidade como a nossa eleger uma mulher negra militar para prefeitura e sob a centralidade da supremacia branca do Partido dos Trabalhadores (PT), o maior da esquerda na América Latina, como foi bem lembrado pela Major na live. Em um contexto em que o mundo inteiro se levanta para denunciar a necropolítica e o descaso com as Vidas Negras, em confronto ideológico com o crescimento da direita fascista no mundo. Em um período de crescimento do militarismo na política brasileira, inaugurado pela extrema direita, que ao chegar à presidência e às tantas casas legislativas deu no que deu.

Na atual conjuntura baiana, a cultura militarista ganha força sob o protagonismo da militância petista que apoia ou silencia. E neste debate há silêncios ainda mais incômodos do que o da Major em relação a real situação da segurança pública no estado.

Referências de texto não faltam contando os tantos episódios de denúncia e tentativas de diálogos do Movimento de Mulheres Negras da Bahia com o Estado, denunciando a violência racial. O Julho das Pretas deste ano que tem como tema “Em Defesa das Vidas Negras, pelo Bem Viver” é o exemplo mais recente.

Aquela frase “Perguntar não tira pedaço”, que muitos de nós ouvimos das mulheres negras mais velhas de nossas famílias testando nossa sinceridade cai bem agora:

Quais narrativas os setores da esquerda da Bahia seguirão tecendo sobre o cenário político de Salvador?

E os movimentos negros e feministas do Brasil atentos e se posicionando sobre a situação da política na nossa cidade, desde meados do ano passado, quais narrativas seguirão tecendo?

E nós, profissionais da comunicação, cidadãos comprometidos com o acesso ao direito à informação, sobretudo os negros, da Mídia Negra e da Comunicação Antirracista, quais narrativas seguiremos tecendo?

Aprendemos que o silêncio também mata. E cá, em cada esquina, viela, em cada lar de periferia dessa meca negra do Atlântico Sul, tem Vidas Negras seguindo a teia das narrativas contra-hegemônicas, revoltadas, entristecidas e desesperadas.

Salva-dô.

 

* Jornalista, editora da Revista Afirmativa, militante do Odara Instituto da Mulher Negra.

 

REFERÊNCIAS:

 

[1] https://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0102-69922016000100099&script=sci_abstract&tlng=pt

[2] pesquisa realizada em parceria entre o Portal G1, o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública

[3] https://revistas.ufrj.br/index.php/eco_pos/article/view/22524


Instituto Odara inicia atividades do Sòró – Curso de Formação em Comunicação para organizações de Mulheres Negras



Publicado em: 18 de jun de 2020

A mídia é um importante território de disputa das lutas sociais. Comunicar nossas agendas políticas, sensibilizar aliadas e aliados, denunciar em grande escala o racismo e as demais violações de direitos humanos, tem sido estratégias dos movimentos sociais. Por isso, pensando em fortalecer as organizações de mulheres negras, e as organizações negras comprometidas com estas lutas, que estamos lançando o CURSO DE FORMAÇÃO SÒRÓ – Mulheres Negras disputando narrativas e fortalecendo a comunicação.

O projeto, realizado com o apoio do Fundo SAAP, da ONG Fase, “vem fortalecer a incidência das organizações de mulheres negras através da comunicação e vai potencializar as estratégias no processo de disputa de narrativas das mulheres negras”, afirma Naiara Leite, coordenadora do projeto e do Programa de Comunicação do Instituto Odara.

O Sòró foi pensando para ser presencial, mas o contexto da pandemia mundial do Covid-19 mudou os planos e o projeto será todo desenvolvido a partir de plataformas virtuais. “Fizemos muitas reflexões e análises para criar uma metodologia que possa garantir o resultado que esperamos, apostando na utilização de materiais com diversas linguagens e na interação e conexão entre os temas que serão trabalhados. Estabelecemos uma dinâmica de acolhimento e a interação. Teremos salas para trabalhar em grupos, com intervenções que tragam experiências reais a partir dos temas. Ou seja, estamos construindo uma proposta de sala de formação que nos permita não perder nada dos aprendizados e das trocas”, afirma Naiara.

O curso trará conteúdos teóricos e práticos destinados ao aprimoramento da comunicação das organizações e coletivos de mulheres negras. Abordaremos nas oficinas temas como: Direitos humanos; Racismo, sexismo e violências estruturais; Incidência política através da comunicação; Reconstrução de imaginários pelo combate ao racismo e sexismo; Segurança e autocuidado nas redes; Histórico da mídia e imprensa negra e feminista no Brasil; Produção de textos e conteúdos criativos; Designer gráfico básico; Fotografia básica; e Gestão de Redes.

“O Soró oferecerá opções de aprimoramento da comunicação dos coletivos de mulheres negras que participarão do curso. Ou abrirá as portas para fazer a organização começar a pensar na importância da comunicação. Mostraremos a importância de usar a criatividade, e que há opções simples e gratuitas para potencializar a sua organização através da comunicação” Jessica Ipólito, comunicadora e ativista que integra o quadro de professoras do curso.

Serão ao todo xx participantes que estarão em contato, reflexão e produção profunda entre os meses de julho e agosto. Para Aline Nascimento, integrante do coletivo Ocupação Sapatão, “há sempre uma necessidade grande de aprimorarmos a técnica de comunicar, principalmente nós que estamos organizadas nas periferias. É preciso ter sempre um cuidado especial em como a informação chegará em nossas comunidades, por isso me inscrevi no curso”. Nossa equipe segue animada e cheia de expectativas para mais este projeto.


LISTA DE SELECIONADAS: Sòrò – Mulheres Negras disputando narrativas e fortalecendo a Comunicação



Publicado em: 16 de jun de 2020

Pensando em fortalecer as organizações de mulheres negras, e as organizações negras comprometidas com estas lutas, que lançamos o CURSO DE FORMAÇÃO SÒRÒ – Mulheres Negras disputando narrativas e fortalecendo a comunicação. O curso tem por objetivo compartilhar conhecimentos teóricos e práticos destinados ao aprimoramento da comunicação das organizações e coletivos de mulheres negras e negros em geral. Quando lançamos o edital, a perspectiva era fazer um curso presencial com 10 participantes. Dadas as imposições da pandemia, faremos o curso no ambiente virtual, com 15 participantes. Entre inscritas e convidadas, segue a lista de selecionadas:

 

  • Elizabeth Lima da Silva
  • Clara Vitória Souza dos Santos
  • Aline Penha do Nascimento
  • Inara Kelly do Carmo Souza
  • Francileide Araujo
  • Luana de Brito
  • Márcia Nascimento
  • Jeane Oliveira
  • Patrícia Santana
  • Ana Carine Oliveira do Nascimento
  • Andréa Sena
  • Suly Caroline dos Santos Nascimento
  • Benivalda Morais
  • Janice de Sena Nicolin
  • Mariana Reis


EP 4: GAL & LINHO – FAMÍLIA BRASILEIRA E O CORONAVÍRUS EM: Para as mulheres, nem sempre o lar é o lugar de segurança e paz



Publicado em: 27 de maio de 2020

No episódio de hoje, Gal está preocupada com as notícias de violências contra as mulheres durante o isolamento social e lembrou da sobrinha, Gisele, que vivia um relacionamento abusivo.

Nossa querida personagem lembrou também de Elitânia de Souza, jovem quilombola, estudante universitária, morta pelo ex namorado Alexandre Passos Silva Góes, em novembro do ano passado, no município de Cachoeira (Ba).

Gal aproveitou as notícias para mais uma vez explicar pra Linho que violência é mais que porrada, e que há várias outras formas de violência que também precisam ser combatidas.

Ilustração e arte gráfica: Rayssa Molinaria | Roteirização: Alane Reis e Naiara Leite