Instituto Odara lança série de quadrinhos: EP 1. Gal e Linho – Família brasileira e o coronavírus



Publicado em: 06 de abr de 2020

Pensando em criar novos formatos e linguagens narrativas para debater os aspectos que a pandemia do Coronavírus (covid-19) afeta a população negra, nasceram Gal e Linho – personagens Odara pra entreter e fazer geral refletir. Eles são uma família brasileira bem comum, do tipo dois contra o mundo – cantada pelos rappers poetas Racionais MCs.
Gal tem 45 anos, nasceu em Candeias, mas mora em Salvador, em um bairro de periferia, com seu filho Wesley (Linho). É trabalhadora doméstica e não foi liberada pra passar a quarentena em casa. Esses dias ela se divide entre o trabalho, a preocupação com sua própria saúde e a de Linho, e as conversas de labuta das amigas diaristas, lavadeiras, catadoras de materiais recicláveis, desempregadas…
Linho tem 12 anos, só é chamado de Wesley nos momentos de reclamação da mãe, ou na escola. Ele está no 7º ano, estuda em um colégio estadual e está em casa, sem aulas. Ele ama jogar bola, ficar no celular, funk e pagode; Quer ser jogador de futebol ou bombeiro quando crescer. Faz piada de tudo e ama lasanha!
Confira e compartilhe o primeiro episódio das vivência na pandemia de Gal e Linho, e suas chegadas e chegados. Publicaremos os próximos episódios em breve!
Ilustração e arte gráfica: Raíssa Molinari | Roteirização: Alane Reis e Naiara Leite


Organizações da Sociedade Civil na Bahia lançam campanha para enfrentar os impactos do Covid-19 e apoiar famílias vulneráveis



Publicado em: 05 de abr de 2020

Na Bahia população negra é mais atingida pela Pandemia

O coronavírus tem alterado drasticamente o modo de vida social de todo mundo e gerado uma crise global no capitalismo. Dentro de um sistema desigual às pessoas mais pobres são as que mais irão sofrer com a quebra da economia e com as medidas de distanciamento social. É o que tem acontecido com os catadores e catadoras de materiais recicláveis, com as mães negras dos jovens assassinados, com as trabalhadoras domésticas, marisqueiras e pescadores, agricultores e agricultoras familiares e integrantes dos empreendimentos econômicos solidários da costura e da alimentação da Bahia.

Pensando nisso o Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA), o Odara – Instituto da Mulher Negra e a Vida Brasil, organizações da sociedade civil que atuam pelo enfrentamento ao racismo, às desigualdades e pela promoção dos direitos humanos para todas as populações, principalmente, para as populações negras mais afetadas pelas opressões sociais lançam a campanha: Justiça e Solidariedade para os grupos vulneráveis ao Covid-19 na Bahia.

Os recursos arrecadados serão investidos para a compra de cesta básica que beneficiaram as famílias dos grupos mencionados acima. A compra dos produtos que vão compor a cesta básica será feita diretamente com cooperativas da agricultura familiar para assegurar apoio direto a esses trabalhadores e trabalhadoras. Os produtos serão entregues em sacolas produzidas por empreendimentos da economia solidaria da costura.

A idéia é criar uma rede de solidariedade que envolva doadores (as) e beneficiários (as). Ou seja, além do apoio com a distribuição da cesta básica para as famílias vulneráveis, a campanha vai ajudar os empreendimentos a se manterem ativos durante a crise da pandemia no país.

A campanha tem como objetivo pensar estratégias de curto, médio e longo prazo. Por isso, estará ativa até a mudança da conjuntura imposta pelo Covid-19 e vai atender cerca de 5.000 famílias de Salvador, Região Metropolitana e outros municípios da Bahia. As cestas serão entregues para pessoas negras, sobretudo mulheres, que já atuam com as organizações proponentes da campanha.

 

Entenda melhor como vai funcionar nossa rede de solidariedade: o CAMA estará em diálogo com as cooperativas de reciclagem da Bahia e dos empreendimentos da costura e alimentação, que tem realizado mapeamento dos casos de vulnarabilidade neste período. Já o Odara tem feito o mapeamento para a doação das mães negras que perderam seus filhos do Projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, das marisqueiras e pescadores e das trabalhadoras domésticas, faxineiras e diaristas. A Vida Brasil está comprometida com o diálogo com as cooperativas de agricultura familiar para produção dos alimentos que vai compor as cestas básicas.

 

Para fazer parte desta rede você pode poderá doar qualquer valor. As doações podem ser feitas por transferência online, depósitos bancários para as contas disponibilizadas abaixo ou via cartão de crédito e pagamento de boleto no link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/solidariedade-para-os-grupos-vulneraveis-ao-covid-19-na-bahia

 

Após confirmação das doações enviaremos email com informações sobre arrecadação e prestação de contas.

Informações para transferência ou deposito bancário:

Banco Bradesco

Agência: 3602

Conta corrente: 0059343-5

Centro de A. E M. Ambiente

CNPJ: 01.704.986/0001-43

 

Banco do Brasil

Agência: 2957-2

Conta corrente: 981699-2

Odara – Instituto da Mulher Negra

CNPJ: 17.589.472/0001-24

 

Para mais informações:

Tel: 71. 98894.4649

Email: justicasolidariedadecampanha@gmail.com

 

 


CORONAVÍRUS NO BRASIL: REFLEXÕES DE NEGRAS JOVENS



Publicado em: 26 de mar de 2020

CORONAVÍRUS NO BRASIL: REFLEXÕES DE NEGRAS JOVENS

Nota da Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF)

Quando sigo o meu caminho.

Já sei onde vou chegar

Mesmo quando vejo espinhos.

Não posso desanimar

Meu olhar segue a luz.

Energia que me conduz

E me faz contemplar.

Na certeza de alcançar

Dona Ivone Lara

Ser negra e jovem é refletir sobre o futuro todos os dias. Sonhamos com a possibilidade do projeto político do Bem Viver, do direito à vida, das realizações profissionais, afetivas, individuais e coletivas. Ousamos sonhar e ser Sonhos em uma sociedade marcada pelas estruturas racistas, sexistas e desiguais. Quando falamos de sonhos no contexto da pandemia do coronavírus lembramos quantas vezes os sonhos da nossa gente negra foram e continuam sendo interrompidos pela política de morte e exploração que funda o Brasil.

O coronavírus impõe para nós, negras jovens e população negra em geral,  a ocupação dos espaços de maiores riscos da conjuntura, por diferentes perspectivas: na saúde física e mental, emprego e renda, alimentação, moradia, violência – seremos nós as mais expostas a todo tipo de risco que esse momento irá gerar. Por isso queremos dizer a todas as negras jovens deste país, não é tempo de desespero ou tomada de decisão sem preparo, mas de cautela e cuidado extremo para com nós mesmas e as pessoas mais próximas de nós.

NÃO ACREDITEM NO QUE O PRESIDENTE DIZ !

Inspiradas na nossa ancestralidade e história de resistência, gostaríamos de dialogar com todas as negras jovens e suas famílias e comunidades: NÃO ACREDITEM NO QUE O PRESIDENTE DIZ! Esse homem já provou muitas vezes que atua com um projeto político genocida. Ele não é “louco”, nem “insano”, nem qualquer outro adjetivo do tipo.

Está muito evidente para nós, da ANJF, que a eleição do BIRULIRO é um projeto a serviço do grande capital, do lucro desenfreado e das grandes corporações, do valor mais extremo do dinheiro em detrimento da vida.

Não podemos deixar que nossas famílias e comunidades acreditem que é só “uma gripezinha” como ele mesmo disse. Não podemos deixar todo trabalho de conscientização, feito até agora, vá embora pelo ralo por conta desses discursos violentos e que simplesmente desrespeitam autoridades, especialistas e pessoas que estão no olho do furacão da pandemia do COVID19.
Os movimentos de mulheres negras, bem como nós da juventude, estamos propondo há muito tempo o aquilombamento das pessoas negras, a retomada de nossas ancestralidades, de nossos saberes culturais. Toda essa política de exterminar a população preta e pobre não vem de hoje, sabemos muito bem, no entanto, tem tomado contornos mais aprofundados conforme cada peça de xadrez é movimentada por Jair Bolsonaro e seus parceiros políticos.

É um projeto contra nós, população negra, periférica, pobre, que depende da nossa própria força de trabalho para continuar seguindo. Muitas de nossas famílias tiveram benefícios cortados, empregos e trabalhos precarizados cada vez mais, perspetiva de vida completamente amortizada pelas medidas que o governo atual vêm tomando.

Nossa mensagem aqui e agora é para que continuemos firmes e fortes na luta contra essa pandemia, enfatizando a necessidade de QUEM PUDER, fique em casa; QUEM PUDER, cumpra as medidas de isolamento; e QUEM NÃO PUDER, tenta cumprir todas as medidas de higiene recomendadas; Procure outras manas que tão na dureza para passar juntas esses dias.

Acreditamos na ancestralidade e na força da natureza, para seguir resistindo a este cenário. Forjadas nos passos que vem de longe, sempre vivemos em comunidade e a rua sempre foi o lugar do ganha pão das mulheres negras desde o execrável e nem tão distante tempo da escravidão; o contato e a troca sempre foram nossa maior força e nossa sobrevivência, estamos diante de um cenário que requer resgates históricos para atualização da estratégia que é aquilombar. Usaremos as tecnologias de aliada nessa missão.

Diante de um cenário de isolamento social que interrompe a máquina capitalista de funcionar, onde estamos nós, as mulheres negras? Onde estamos nós, negras jovens periféricas, pobres, estagiárias, diaristas, autônomas, empreendedoras, artistas? Em tempos de pandemia, temos que continuar  trabalhando para pagar as contas, cuidar dos nosses, conscientizar a nossa família, amigues, comunidade da importância de prevenção e traçar estratégias de manter a saúde mental e nossa fé erguida.

Numa quarentena que não acolhe a todes, não acolhe a população negra trabalhadora, pessoas em situação de rua, ambulantes, as trabalhadoras domésticas,  vendedores de pequenos negócios, as baianas de acarajé, ou seja, todas as pessoas, é medida de emergência exercer a solidariedade.

 

Brasil, 26 de março de 2020

Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF)


CARTA DAS MULHERES NEGRAS SOBRE O COVID-19 À SOCIEDADE BRASILEIRA



Publicado em: 25 de mar de 2020

Deixei o leito às 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (…)

Carolina Maria de Jesus

20 de Julho de 1955 –

Quarto de Despejo

 

Nós, mulheres negras brasileiras, apavoradas com o impacto que o Covid-19 (coronavírus) tem produzido na Europa e na China, provocamos a sociedade brasileira, governos e gestores públicos a pensar em implantar assistência emergencial para as pessoas mais vulneráveis da sociedade brasileira dos quais, nós, mulheres negras, urbanas, quilombolas, das águas, das florestas, marisqueiras, pescadoras, trabalhadoras domésticas, profissionais do sexo, portadoras de deficiência e LBTs, somos as mais afetadas. Este documento é uma denúncia e um apelo para criação e efetivação de políticas focalizadas diante da atual conjuntura.

Por isso, fazemos um alerta a partir deste documento e relembramos alguns desastres que acometeram o país nas últimas três décadas e que resistimos bravamente, porém com muitas sequelas: o césio – 137 (maior acidente radiológico do mundo); o desastre da dengue e da chikungunya – que dos cinco tipos existentes, o Brasil já apresentou quatro, atingindo majoritariamente as populações pobres e negras; o Zika Vírus no Brasil, ainda em curso, que impactou desproporcionalmente as mulheres e as meninas negras, principalmente, na região Nordeste e expôs antigos e graves problemas de direitos humanos, incluindo o acesso inadequado à água e ao saneamento básico, as desigualdades raciais e socioeconômicas no acesso à saúde e as restrições aos direitos sexuais e reprodutivos.

Vale ressaltar que a epidemia já era notada muito antes do governo confirmar a transmissão local do Zika Vírus. Destacando que o alarme nacional e internacional trouxeram atenção aos desafios de saúde pública e direitos humanos no Brasil, ainda assim, a maioria das gestantes que foram infectadas com o Zika Vírus ainda vivem uma realidade de extrema dificuldade com seus filho (as) nascido (as) com microcefalia.

Os casos mencionados nos servem de referência para denunciar a proporção e o impacto do Covid-19 na população negra, considerado ainda sem alto poder de contágio.

Os meios de comunicação em massa insistem em apresentar orientações para o isolamento e quarentena, completamente dissociadas da realidade vivida pela população negra, de periferias e favelas deste país. Ignoram completamente que é na convivência diária, solidariedade e no apoio comunitário que, as vítimas da omissão do poder público, se sustentam. O apoio comunitário existe para essas pessoas como uma estratégia de enfretamento às condições de pobreza, de combate aos efeitos do racismo e às desigualdades raciais.

Cientes dessa realidade, sabemos que não será possível o isolamento dos infectados em milhares de famílias que vivem amontoadas dentro de espaços com tamanho inferior a 40m², com uma média de cinco a seis residentes.

Em 2020, no Brasil, muitas mulheres negras ainda vivem como Carolina Maria de Jesus, a escritora do “Quarto do Despejo” – obra literária brasileira mais vendida no mundo. Carolina, nascida em 1914, morava com seus 3 filhos num barraco na favela do Canindé, em São Paulo, trabalhava como catadora e vendedora de materiais recicláveis e registrou neste livro as vivências da maior parte da população negra brasileira. Continuamos vivendo em quartos de despejo – favelas e periferias urbanas e rurais do Brasil.

O que diria Carolina sobre a vida na favela em tempos de pandemia? Restrita da possibilidade de trabalhar com o que muitas vezes nos resta de trabalho? Os trabalhos informais, muitas vezes insalubres e arriscados.

Perguntamos à sociedade brasileira: quarenta para quem? As famílias brancas continuam obrigando as trabalhadoras domésticas a permanecer nos locais de trabalho. Não conseguem cuidar das suas casas e dos seus filhos.

A maioria da população vive nas piores condições; vivenciam os mais altos índices de violências; ocupam os postos de trabalho informais de maior vulnerabilidade; mais de 90% das trabalhadoras domésticas do Brasil são negras e elas não estão sendo liberadas. Ou a liberação é sem remuneração; as empresas de call center no Brasil também não se posicionaram, portanto, não liberaram seus funcionários; Os supermercados e postos de gasolina no Brasil ainda não estão em regime de escalonamento. Há muitas pessoas trabalhando sem proteção.

Portanto, não cessaremos de perguntar a sociedade brasileira, quarenta para quem? Para enfrentar tamanho desastre anunciado, e evitar em paralelo a violação de outros direitos humanos básicos, exigimos que imediatamente sejam tomadas as seguintes providências de emergência focada nas pessoas mais vulneráveis, durante a quarentena:

  • Acompanhamento sistemático da ação policial nos bairros periféricos e favelas;
  • Monitoramento dos casos de violência doméstica, sexual e feminicídio, visto que a violência poderá ampliar nas residências;
  • Acompanhamento e proteção redobradas as defensoras de direitos humanos que já vivem cotidianamente sob risco;
  • Acolhimento imediato da população em condição de rua, dignas de humanidade;
  • Divulgação pelos meios de comunicação dos laboratórios públicos e privados credenciados para realizar o teste de contaminação da doença;
  • Garantia da realização de testes para todas as pessoas que apresentem os sintomas compatíveis;
  • Mais atenção do poder público para os quadros confirmados oferecendo às vítimas melhores condições de assistência hospitalar e acesso aos medicamentos;
  • Paralisação de todas as atividades laborais na indústria, comércio, prestadoras de serviços terceirizados – merendeiras, serviços gerais, (entre outr@s), do trabalho informal (camelôs, autônom@s, ambulantes); desempregad@s; com acesso a renda mínima direta ofertada pelo Estado;
  • Manter a suspensão das aulas em toda a rede ensino com propostas didáticas efetivas para as perdas escolares e alternativas alimentares para as família dos\das alunos (as), com distribuição de cesta básica;
  • Mapeamento das residências com maior vulnerabilidade;
  • Deslocamento de famílias em situação de rua para locais seguros;
  • Liberação emergencial das trabalhadoras domésticas com sistema de fiscalização e salário garantido;
  • Aporte de recursos para dinamização do Sistema Único de Saúde (SUS);
  • Convocação imediata de profissionais da saúde, corpo de bombeiros locais e internacionais para contribuir na contenção da pandemia;
  • Investir em formas de identificação, criminalização e combate às fake news e medidas educativas à população em relação ao acesso à informação;
  • Manter a população diariamente informada sobre o processo de contenção ou expansão do covid-19;
  • Orientações sobre formas de proteção que levem em conta linguagem, classe, territórios e identidades para fortalecer a imunidade;

 

Só conseguiremos vencer este desafio singular se as medidas de prevenção e controle da pandemia forem inclusivas e verdadeiramente para todos e todas.

Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).


CARTA DA REDE DE MULHERES NEGRAS DO NORDESTE AOS GOVERNADOR@S, PREFEIT@S E SECRETÁRI@S DA REGIÃO



Publicado em: 24 de mar de 2020

Senhores governador@s, prefeit@s e secretári@s estaduais e municipais da Região Nordeste, nós, da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, atuantes em todos os nove estados da região, viemos através desta, cobrar dos seus respectivos programas de trabalho diante da Pademia do Coronavírus (covid-19), políticas de prevenção e cuidado que contemplem as populações negras e pobres de nossa região.

Previsões nacionais e internacionais de especialistas em Saúde apontam as populações negras e pobres como as que serão mais vitimadas com a pandemia; e o Brasil é apontado como um país onde seus impactos letais podem bater recordes. A própria velocidade do contágio comunitário, e o dado de 34 mortes confirmadas (até segunda, 23 de março), apontam que a grande maioria das vítimas letais são pobres, com destaque para as trabalhadoras domésticas que contraíram de patrões infectados.

A realidade das condições sociais vividas pelas pessoas negras em todo país, agudizada em nossa região, é largamente conhecida e nos coloca na linha de frente do risco. Somos a maioria entre: os mais pobres; trabalhadores informais; população de rua; pessoas vivendo sem acesso à água potável e saneamento básico; consumindo uma dieta de insegurança alimentar, etc. Estas condições fizeram de nós, pessoas negras da Região Nordeste, sobretudo mulheres, as principais atingidas com as epidemias de dengue, Zika Virus e chingungunha – todas com efeito de letalidade muito menores que o Covid 19.

A recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) reiterada pelos senhores passa por seguir em quarentena, não sair de casa e ter o mínimo de contato físico com outras pessoas. Mas comunidades pobres que cotidianamente vivem a violação do acesso a direitos básicos, tais como direito a creche, ao emprego formal, a educação e sistema de saúde pública de qualidade, a alimentação saudável, entre outros; As pessoas destas comunidades cotidianamente sobrevivem através da solidariedade e vida comunitária e vivem o ineditismo de terem que viver em isolamento para não adoecerem e não proliferarem a doença.

A conjuntura política brasileira agrava a situação de dificuldade de combate à pandemia e a adesão da população mais vulnerável às medidas de segurança: A emenda constitucional de congelamento do investimento público em saúde vigente até 2036 (20 anos); Sucateamento do SUS; Pensamentos retrógrados sobre vacinação, universidades públicas e pesquisas científicas; Reforma trabalhista restringindo drasticamente a segurança dos trabalhadores; Falta de água em diversas periferias da região, com destaque a cidade de Recife (Pe).

Diante deste cenário, visando contribuir com a redução da proliferação do vírus na Região, recomendamos as seguintes medidas:

– Reforçar a estrutura das unidades de Saúde, hospitais e clínicas;

– Investimento em campanhas de comunicação educativas, para veiculação em TVs, Rádios e Internet, explicando quais os cuidados necessários; instituições de saúde atendendo para a realização do teste; combatendo fakenews, difundidas inclusive pelo próprio presidente, a fim de evitar o pânico, especialmente com as especulações de escassez de água e comida; 

– Investir em difundir informações nos bairros de periferias das grandes cidades e nas cidades do interior em carros de som pelas ruas – meio de comunicação ainda extremamente eficaz nestes territórios;

– Exigir liberação remunerada dos empregados e empregadas domésticas com carteira assinada;

– Exigir das empresas, patrões e garantir que os órgãos públicos que seguem funcionando disponibilizem obrigatoriamente equipamentos de proteção individual (EPIs), sobretudo máscaras, luvas e álcool em gel, aos trabalhadores que não foram liberados para a quarentena. Com destaque para: Call Centers, motoristas e entregadores de aplicativos, funcionários de mercados, profissionais da limpeza urbana e trabalhadoras domésticas;

– Reforçar cuidados e distribuição de material de higiene e alimentação nos centros sócio-educativos, instituições prisionais, abrigos de idosos, crianças e adolescentes, e pessoas em situação de rua;

– Cobrar do judiciário a liberação de mulheres e filhos que estão em situação de cárcere;

– Investimento de acesso a renda direta aos trabalhadores informais como camelôs, diaristas, etc;

– Oferecer assistência especial às comunidades tradicionais que vivem em sua maioria da venda de produtos da agricultura familiar e pescado;

– Exigir dos estados a isenção de cobrança das taxas e tarifas de luz e água para a população mais pobre, ou seja, que vivem com renda familiar inferior a três salários mínimos ou já são beneficiários de outros programas sociais tais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, etc;

 

É necessário reforçar os cuidados aos mais vulneráveis como medida de proteção à toda população.

 

Rede de Mulheres Negras do Nordeste.


8 de Março – Por políticas de combate ao feminicídio que protejam a vida das Mulheres Negras



Publicado em: 08 de mar de 2020

Neste 8 de março trazemos a #Memoria destas três mulheres negras militantes, vitimadas pelo feminicídio em diferentes tempos: – Beatriz Nascimento, 53 anos, professora, intelectual, cineasta e escritora, primeira pensadora brasileira a pensar Quilombos como projeto político de nação democrática e igualitária para o Brasil. Beatriz foi morta em 1995, no Rio de Janeiro, pelo ex companheiro violento de uma amiga, acolhida por Beatriz, que a aconselhava a terminar com a relação abusiva; – Helem Moreira, 28 anos, pedagoga, militante feminista negra, coordenava o Quilombo Ilha, curso pré-vestibular social que outrora estudou, foi morta a facadas em pelo ex que não aceitava o fim da relação, em 2017, na Ilha de Itaparica, na Bahia; – Elitânia de Souza, 25 anos, estudante de serviço social, liderança quilombola do Tabuleiro da Vitória (Cachoeira – Ba), foi morta com 3 tiros pelo ex namorado na porta da universidade em que estudava, em 2019.

A vulnerabilidade e descaso com a vida das mulheres negras vai para além da frieza dos números de feminicídio que apontam a redução das mortes de mulheres brancas e aumento da vitimização de mulheres negras. Os números tem caras de mulheres das mais diversas, inclusive de Beatriz, Helen e Elitânia, cujos perfis aparentemente cruzaram a linha de maior vulnerabilidade.

É preciso pensar políticas que garantam justiça pelos crimes de feminicídio, mas, principalmente, que eduquem mulheres e homens, a não aceitarem, naturalizarem e romantizarem a violência e a posse do corpo feminino. É responsabilidade de todos nós defender a vida das mulheres negras!

#8M #Mulheres #MulheresNegras #PelaVidaDasMulheresNegras #FeminismoNegro #BlackFeminism #NiumAmenos #VidasNegrasImportam #BlackLivesMatter


SÒRÒ – MULHERES NEGRAS DISPUTANDO NARRATIVAS E FORTALECENDO A COMUNICAÇÃO



Publicado em: 05 de mar de 2020

Instituto Odara lança curso de formação em comunicação para organizações negras e de mulheres negras

 

Okay, pretas, são tempos de formação e disputas!

E nas disputas de poder e combate ao racismo, sexismo e a LBTfobia, compreendemos que a comunicação é forte instrumento e arma de luta. Por isso, pensando em fortalecer as organizações de mulheres negras, e as organizações negras comprometidas com estas lutas, que estamos lançando o CURSO DE FORMAÇÃO SÒRÒ – Mulheres Negras disputando narrativas e fortalecendo a comunicação.

São 10 vagas que deverão ser preenchidas, através de chamada pública, para militantes negrxs, sobretudo mulheres, que atuam ou pretendem atuar na comunicação de suas organizações. As inscrições estarão abertas entre os dias 5 a 25 de março, e o curso acontecerá entre os meses de abril e julho.

O objetivo do curso é apresentar conteúdos teóricos e práticos destinados ao aprimoramento da comunicação das organizações e coletivos de mulheres negras e negros em geral. Abordaremos nas oficinas temas como: Direitos humanos; Racismo, sexismo e violências estruturais; Incidência política através da comunicação; Reconstrução de imaginários pelo combate ao racismo e sexismo; Segurança e autocuidado nas redes; Histórico da mídia e imprensa negra e feminista no Brasil; Produção de textos e conteúdos criativos; Designer gráfico básico; Fotografia básica; Gestão de Redes; Finalizando com uma ação coletiva de incidência política em comunicação no Julho das Pretas 2020.

As participantes não precisam ter formação acadêmica em comunicação, mas é aconselhável que possuam experiência com comunicação de movimentos sociais.

Não perca tempo, inscreva-se já! E divulgue para possíveis interessadxs.

Inscrições AQUI


2ª EDIÇÃO DO MARÇO DE LUTAS – Memória é senhora preta e velha



Publicado em: 03 de mar de 2020

Chegamos ao Março de Lutas, uma agenda de lutas de mulheres negras e da população negra em geral, realizada pelo 2º ano pelo Instituto Odara, com o intuito de cruzar as grandes agendas internacionais de luta contra o racismo e o sexismo, e celebrar as memórias de resistência protagonizadas pelas mulheres negras.

O mês de março é internacionalmente conhecido como o mês das mulheres na luta contra o patriarcado, celebrado oficialmente dia 8 de março. Um salve a greve internacional das mulheres encampando a campanha “Nem uma a Menos”, tão necessária para nós, mulheres negras brasileiras, 75% das vitimadas nas taxas de feminicídio.

Nossos passos vem de longe são palavras que definem a preta velha e viva Memória, que nos lembra que no dia 11 de março de 1822 nascia Maria Firmina dos Reis, preta maranhense, primeira romancista da história da literatura brasileira, com o romance Úrsula (1859).

Dia 14 de março de 2020 fazem dois anos que a militante negra parlamentar #MarielleFranco foi executada. Todos os indícios atestam a relação do crime com as milícias do Rio de Janeiro e diversos episódios sugerem a participação da família Bolsonaro nesta barbárie.

Também 14 de março fariam aniversário #CarolinaMariaDeJesus e #AbdiasNascimento

16 de março de 2019 fazem 6 anos que #CláudiaFerreira foi assassinada por PMs do Rio de Janeiro e arrastada do lado de fora da viatura.

É também em março, desde o ano de 1966, que celebramos o 21 como o dia internacional de luta pela eliminação da discriminação racial, em memória ao “Massacre de Shaperville”, em 21 de março de 1960. Nesta data, após de uma série de protestos em Joanesburgo, contra o Apartheid na África do Sul, tropas militares atacaram manifestantes e mataram 69 pessoas, além de ferir uma centena de outras.

E 27 de março celebramos também a memória de #LuizaBairros que faria aniversário.

 

#MarçoDeLutas #MulheresNegras #FogoNosRacistas #MariellePresente #ClaudiaPresente #ClaudiaFerreira #MariaFirminaDosReis #CarolinaMariaDeJesus #LuizaBairros #AbdiasNascimento #TodoCamburaoTemUmPoucoDeNavioNegreiro #NãoHaveraPazSemJustiça #MulheresNegrasMovemOmundo #8M #21deMarço #FeminismoNegro #BlackLivesMatter #VidasNegrasImportam #PelaVidaDasMulheresNegras


SALVADOR: No aquecimento para a corrida eleitoral, o útero tem superado o fígado



Publicado em: 28 de jan de 2020

Por Cleidiana Ramos

Para o MIDIA 4P

 

Conta uma das variações dos mitos sobre Oxum que foi ela quem ensinou sobre a necessidade das mulheres participarem dos governos. No período em que orixás e homens conviviam juntos, os primeiros decidiram formar um conselho. Mas apenas os deuses estavam inseridos. As divindades femininas foram deixadas de lado. Oxum não disse nada. Apenas se recolheu aos seus interesses. Logo tudo começou a dar errado. Não tinha chuva. As mulheres deixaram de parir; as frutas sumiram, assim como as flores. Os rios deixaram de correr. O conselho foi consultar Olorum, o Deus supremo, que está inatingível para as coisas da humanidade, deixando-as para os seus filhos, os orixás. Ao ouvir tudo atentamente fez apenas uma pergunta: “Oxum não está nesse conselho?”. Os deuses olharam um para o outro e não viram alternativa a não ser ir em busca da senhora das fontes e das cachoeiras, de mananciais tão extensos, como o baiano Paraguaçu. Só a muito custo e insistência, Oxum resolveu ceder passando a ser saudada por este pioneirismo como “aquela que é a primeira a se sentar no conselho”.

Eu gosto de ouvir estas narrativas, sobretudo quando contadas pelas mais velhas e pelos mais velhos do candomblé. A saudosa ebomi Cidália Soledade o fazia com maestria. O mesmo consegue ebomi Nanci Silva, carinhosamente chamada de Vovó Cici. Não é apenas a narrativa, mas o cadenciamento da voz, a imitação dos sons, uma cantiga que nos leva para além e adiante do que o mito quer ensinar. No caso do aqui apresentado é que não há sociedade sem lugar para as mulheres. Sem elas tudo é murcho, sem cor, sem vida e sem sabor. Oxum ensina isso como é do seu feitio: com tranquilidade e silêncio. Não recorre aos artifícios da beleza, da sedução, mas ao recurso da inteligência e desfere um soco forte com a suavidade de um tapa por quem enverga luvas de renda.

Essa narrativa vem bem a propósito do que move o campo progressista na preparação para a disputa pela Prefeitura de Salvador. Quatro mulheres, das quais três são oriundas dos movimentos negros com toda a sua diversidade, e uma do movimento feminista clássico, oferecem as suas vivências e experiências aos partidos onde militam.

É um acontecimento inédito em Salvador, a cidade cercada pelas águas que o cantor-poeta Gerônimo consagrou a Oxum, mas que também oferece uma festa única a Iemanjá;  que faz o Pelourinho tremer na homenagem que Iansã e Santa Bárbara compartilham; e que guarda um carinho especial por Nanã, afinal são tantas as avós, nesta capital baiana, que repetem a maternidade para que suas filhas mantenham a provisão das casas e da prole . É, portanto, a cidade das yabás, “das mulheres”, como chamou a antropóloga Ruth Landes, surpreendida na década de 1930 com a proeminência das sacerdotisas do candomblé como Mãe Menininha do Gantois, Tia Massi da Casa Branca e Flaviana de Oxum, do Terreiro do Cobre, governando, soberanas, as casas de santo sob a sua regência.

Era para ser, portanto, um momento de celebração. O PSB tem a sorte de contar com Lídice da Mata, ex-senadora, deputada federal, com experiência na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal e a única mulher a ter governado Salvador, no período de 1993 a 1996, como aspirante à indicação do partido para mais uma vez disputar a prefeitura. O PCdoB tem como pré-candidata Olívia Santana, ex-vereadora, com experiência na titularidade de secretarias como a de Educação do município, e as dedicadas às políticas para mulheres e  trabalho, emprego, renda e esporte no âmbito estadual, além de atualmente ocupar uma cadeira no legislativo da Bahia. Já o PT tem duas aspirantes: a atual secretária de Promoção da Igualdade Racial, Fabya Reis, e o fenômeno Vilma Reis: socióloga, ativista do movimento de mulheres negras e do movimento LGBTT, frequentemente citada com admiração por Angela Davis, nas suas vindas ao Brasil.

Mas ao se observar as narrativas nos círculos especializados sobre a política local, a potência deste movimento de mulheres é tratada superficialmente ou com desdém. Como Salvador ignora este fenômeno nunca antes visto? Como se cochicha nos encontros de militância dos movimentos sociais as sugestões para que algumas delas retirem suas candidaturas para não atrapalhar as articulações das cúpulas partidárias?  É impressionante como eleitores e membros da burocracia dos partidos continuam fazendo um discurso atravessado que parece querer traduzir que política não é lugar de mulheres. Aliás, pode ser. Desde que elas se contentem em aplainar a caminhada dos homens, das suas aspirações ou que apenas disputem as posições com menos visibilidade. Por que não uma vaga na Câmara de Vereadores para fazer uma base e, aí sim, brigar mais para frente como dizem alguns?

Há alguns meses estava próxima a uma pessoa que discutia uma destas candidaturas e o interlocutor da minha conhecida espumava e dizia que a teimosia da candidata era péssima para o partido e que não adiantava pois ela não teria a legenda de forma alguma. Eu, espantada, fiquei imaginando o quanto deve ser terrível resistir na militância destes partidos. Se o campo progressista não consegue compreender a importância de ter uma mulher protagonizando as discussões sobre o perfil de uma candidatura ideal imagino o que deve acontecer no centrão e na recém empoderada ultra direita.

Nunca fui filiada a partido  político mesmo sendo filha de Chico Preto (Pacífico Teixeira Ramos) que comandou um campo progressista na política de Iaçu por 40 anos. Um dia antes da sua morte, em 2004, fazia planos para a eleição municipal daquele ano. Em 2016 estive perto de me filiar a uma legenda, mas uma manobra de última hora desmontou qualquer tipo de possibilidade neste sentido. O diabo da política partidária mora aí: nas manobras. É um tal de acordo disso e para aquilo no altar em que se sacrifica ideologia, bons princípios e, em alguns casos, a admiração e amizades.

Esta minha frustrada experiência partidária em Iaçu e outras vivências no entorno dos bastidores da política de lá me transformaram em uma pessimista sobre o acerto que envolve o comando de partidos . Orgulhosa que estou da batalha de Lídice da Mata, Olívia Santana, Fábia Reys e Vilma Reis confesso que  tenho pouca esperança de assistir o vingar de uma destas candidaturas pra valer. A máquina burocrática dos homens é insensível, avassaladora e sem inteligência para enxergar além do umbigo.

Mas o pouco otimismo, que em mim persiste ou do contrário não respiro, torce para que essas  candidaturas resistam (no PT teria um embate entre Fábia e Vilma, pois só uma seria indicada para viabilizar uma aliança na posição de vice ). Sonho com a beleza e riqueza que seria o processo eleitoral com estas características. Imagino um plano de governo elaborado não com o fígado, mas com o útero. Os debates, com certeza, seriam altamente qualificados porque mulheres se respeitam até mesmo na divergência, especialmente estas a quem me refiro. O candidato já definido pelo campo conservador se veria em apuros ainda mais com o perfil e o peso que carrega do velho, desmoralizado e mofado MDB, que não tem nem um traço da ala dos autênticos que meu pai orgulhosamente integrou.

E quem sabe uma aliança? Imaginem a dobradinha Vilma-Lídice ou Olívia-Fábia ou outras combinações.  Salvador iria ao paraíso ao menos no processo eleitoral. Mas os homens dificilmente vão deixar. A maioria deles, como no mito, querem um conselho masculino. Não conseguem sequer incluir as mulheres no jogo. E é por aí que as nossas esperanças estão minguando, murchando, ficando sem cor e sabor como o mundo da narrativa antes do retorno de Oxum.

É pena porque numa eleição assim não valeria apenas o que saísse das urnas. Até aqui só a teimosia dessas mulheres em manter as pré-candidaturas provocou uma revolução. A candidatura de Vilma Reis, por exemplo, lançada não à toa no desfile do 2 de Julho, é assunto nacional, faz ferver grupos de whatsapp no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Rio Grande do Sul. E o seu partido? Ao menos para fora lamenta a desistência de um candidato estranho ao ninho, cogita dois nomes masculinos e faz de conta que as mulheres nem participam destes debates. Ao menos é o que se apresenta abertamente nos sites, nos artigos e reportagens das plataformas de mídias comerciais e no disse me disse das rodas dos partidos.

Mas deixemos então sob o comando das donas das águas, dos ventos, da lama criadora. De repente, a força delas, liderada por Oxum, opera o milagre de deixar que a cidade volte ao poder de quem é de direito. Ao menos para fazer pensar.

Cleidiana Ramos é jornalista, doutora em antropologia, publisher da Flor de Dendê e professora  na Uneb (Campus XIV-Conceição do Coité, Bahia) e na Faculdade 2 de Julho


Somos herdeir@s da resistência, da resiliência e do Esperançar



Publicado em: 23 de dez de 2019

Em 2020 continuaremos revolução para o Bem Viver

 

Não dá pra dizer que o ano de 2019 nos surpreendeu. O fim de 2018 desenhou um horizonte com expectativas de que as durezas se potencializariam para nós, gente negra e pobre, fruto da pilantragem golpista da branquitude brasileira. Sinais não faltaram: crescimento da onda fascista, racista, misógina, fundamentalista e cristã; intervenção do exercito nas favelas do Rio de Janeiro, uma forma de laboratório a ser estendida para as franjas das metrópoles brasileiras; indícios inquestionáveis da associação do assassinato de Marielle Franco às milícias próximas a família Bolsonaro.

Esse cenário foi cultivado com elementos que vêm ganhando força no tecido social, responsáveis por aprofundarem o estado de exceção e de sítio (iniciado desde o golpe de 2016) bem como a guerra civil em suas diversas dimensões: somente nos sete primeiros meses de 2018 48 pessoas foram mortas em sete chacinas no estado do Ceará; presenciamos a perda de mandatos da militância negra na última eleição; por razões amplamente conhecidas, o capoeirista e militante baiano Mestre Moa foi assassinado durante uma discussão sobre política no dia da eleição do 1º turno de 2018; Lula foi preso sem provas – escancarando a manipulação da branquitude conservadora nos sistemas judicial e prisional; as reformas trabalhistas, tributária e da previdência foram aprovadas, mostrando a face do neoliberalismo dos nossos tempos, que só vulnerabiliza os mais pobres; torturadores foram homenageados nas principais casas legislativas, sancionando uma prática que persiste nas topografias da crueldade.

Definitivamente, todos os quadrantes do território brasileiro em desacordo com esse estado de coisas estão sendo perseguidos e até dizimados. Em 2019 o Estado brasileiro bateu o recorde de assassinatos de lideranças indígenas: Cacique Francisco de Souza Pereira, Cacique Willames Machado Alencar, Emyra Waiãpi, Paulo Paulino Guajajara, Cacique Firmino Prexede Guajajara, Raimundo Benício Guajajara. Tudo isso vincula-se com uma política global que prega o avanço neoliberal em todas as esferas da vida.

 

Sintonia global, regional e local

Este quadro assombroso conecta-se com o crescimento da direita conservadora no mundo, o aumento da xenofobia e racismo na Europa e Estados Unidos, o fortalecimento do capitalismo de crise e a  desvalorização das vidas de sujeitos colonizados, fazendo da necropolítica um programa contemporâneo de vários Estados do planeta.

Desde os primeiros meses de 2019 as expressivas desigualdades do Brasil estiveram em evidência de maneira inquestionável, nos colocando no segundo lugar no ranking dos países mais desiguais do mundo.  Nós já sabíamos que o genocídio e as diversas formas de morte de pessoas negras se intensificariam num governo que se volta para muito poucos: ricos e privilegiados.

O país que já possui a 3ª maior população carcerária do mundo também ocupa o pódio no quesito violação dos direitos humanos em presídios. Em julho deste ano, 62 presos foram mortos em massacre no presídio de Altamira (PA), destes, 26 eram presos provisórios. Neste mesmo contexto, 408 deputados votaram a favor do “pacote anticrime” dos ministros Sergio Moro e Alexandre de Moraes, que restringe ainda mais o acesso à justiça e a garantia de direitos aos acusados de crimes no Brasil.

Das mais de 726 mil pessoas presas, a maioria é jovem, negra e de baixa escolaridade. Segundo o IBGE, em 2019 o Brasil ainda tem 11,3 milhões de pessoas analfabetas, destas, 65% são negras, e a maioria se concentra nos estados das regiões Amazônica (Norte) e Nordeste.

A facilitação da compra e o porte de armas para civis aprovada no Brasil ocorre no mesmo ano em que o Atlas da Violência 2019 aponta que 2017 bateu uma marca inédita de 65.602 pessoas assassinadas, sendo que 75% destas vítimas são negras, e 72,4% das vítimas gerais foram mortas por tiros. O assassinato de mulheres negras aumentou 63% nos últimos 10 anos. Houve também um crescimento do assassinato de pessoas LGBTQI+.

O que pode parecer apenas números para quem não se sensibiliza com o sangue negro derramado, para nós, essas mortes têm nomes e sobrenomes de crianças, adolescentes e jovens, como Jenifer Gomes (11), Kauan Peixoto (12), Kauã Rosário (11), Kauê dos Santos (12), Agatha Felix (8), Pedro Gonzaga (19), os irmãos Letícia (9) e Cristiano (6) Ferreira, Lauane Cristina (7), Luis Marcio Menezes (8); engrossam as fileiras das mortes prematuras os meninos de Paraisópolis: Gustavo Xavier (14), Denis Franco (16), Marcos dos Santos (16), Denis da Silva (16), Luara Oliveira (18), Gabriel de Moraes (20), Eduardo da Silva (21), Bruno dos Santos (22), Mateus Costa (23). Os 82 tiros disparados pelo exercito contra o carro da família do músico Edvaldo Rosa, único atingido e morto na mesma hora.

O ano também foi marcado por consecutivos crimes ambientais que atingiram majoritariamente as populações tradicionais, negras, indígenas, ribeirinhas e povos da floresta. Nesta atmosfera, os incêndios da Amazônia e o derramamento de óleo no litoral do Nordeste, que chegou até o Sudeste. As queimadas atingiram mais de 100 municípios na Região Norte e o vazamento de óleo recobriu mais de 150 praias,  impactando o ambiente de forma irreparável e  vulnerabilizando ainda mais os povos das águas, pescadoras e pescadores. Nos dois episódios, além da total negligência do governo federal, houve tentativa de criminalização e calúnia dos defensores de direitos humanos, com a acusação de Bolsonaro de que a responsabilidade das queimadas seriam de ONGs que atuam na Amazônia, e que o óleo no oceano teria sido jogado por um navio do Greenpeace.

 

Ainda assim nós nos levantamos: as contranarrativas em curso

Quando a nossa mestra Conceição Evaristo anunciou de que “eles combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”, quem teve sabedoria de ler entendeu que a velha poeta dizia que não morreríamos caladas. As disputas de narrativas estavam postas e nada nos autoriza a afirmar que elas cessarão.

As redes sociais foram palco de ataques odiosos aos nordestinos por serem a única região a votar em massa contra o projeto Fascista à brasileira nas eleições presidenciais. O clima de orgulho e auto estima nordestina pela coerência política brotaram da tag #NordesteNãoTeste, passando pelos memes de separação do Brasil à incidência política das mulheres negras dos nove estados da região que gritaram pro país no Julho das Pretas: “Mulheres Negras Por Um Nordeste Livre”, a fim de demarcar de onde vem as vanguardas de luta por liberdade.

Bolsonaro e os partidos da direita fundamentalista cristã, entendendo que emergia na política brasileira a disputa de signos e representações de negros e indígenas, fez de Hélio Lopes deputado federal, subalternizado como “Hélio Negão” e “Hélio Bolsonaro”, e escolheu Ysani Kalapalo, youtuber indígena do Alto do Xingu, como referência homenageada durante a abertura da 74ª Assembléia Geral da ONU. A representação de Ysani foi acionada por Bolsonaro para questionar a liderança histórica do Cacique Raoni, do povo Caiapó. Como se vê, as formas de cooptação dos grupos historicamente discriminados são variadas.

Como dissemos, as formas de insurgência estão tentando ganhar espaço, e sempre ganham, de uma maneira ou de outra. As candidaturas de mulheres negras estiveram em evidência no país inteiro, com resultado positivo nas eleições: Olivia Santana (Pc do B – Ba); Talíria Petrone, Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro (Psol – RJ); Aurea Carolina e Andreia de Jesus (Psol – MG); Erika Malunguinho (Psol – SP); reeleição de Cristina Almeida (PSB – AP), Benedita da Silva (PT – RJ) e Leci Brandão (Pc do B – SP). Tivemos ainda a eleição dos mandatos coletivos com representações de mulheres negras em Pernambuco, com As Juntas, e em São Paulo, com a Bancada Ativista. As mulheres indígenas também cresceram no cenário político nacional, com a vitória de Joênia Wapichana, primeira indígena eleita para a casa legislativa federal, e a eleição de Shirley Pankará, na citada Bancada Ativista. Destaca-se ainda a realização da primeira Marcha das Mulheres Indígenas no Brasil, em um contexto de extrema violência para os povos e comunidades tradicionais, conforme já mencionado – não é à toa que o governo de plantão transferiu a demarcação de terras indígenas e quilombolas para o Ministério da Agricultura, sob o comando da empresaria do agronegócio Tereza Cristina Correia da Costa.

As contranarrativas que põem em evidência a banalização das mortes negras e em periferias sob responsabilidade do Estado povoam as mídias negras e ativistas em geral, e ganham  espaço nos fóruns internacionais de direitos humanos – protagonismo puxado pelas mulheres negras e por grupos dos movimentos negros, das articulações de advogadxs e psicólogas negrxs, que têm constituído estratégias de cuidado e atenção às famílias de vitimas do Estado, o que reverbera também na atuação de parlamentares negrxs no Congresso Nacional.

Em contrapartida, as políticas afirmativas tem gerado efeitos de enegrecimento entre os estudantes de graduação e pós graduação. Segundo o IBGE, os negros são maioria dos estudantes das universidades públicas pela primeira vez no Brasil. A boa notícia reflete o óbvio do resultado de 17 anos de políticas afirmativas, mas precisa ser avaliada com cautela: o número de 50,3% representa em maioria pessoas negras que cursam áreas, sobretudo, da licenciatura, como história, matemática e pedagogia. Os cursos mais disputados como direito, medicina ou engenharias em geral ainda ostentam uma subrepresentação negra. O epistemicídio e a falta de políticas de permanência ainda são uma realidade que se mantém em 2019, agravando-se com os cortes e congelamentos de recursos da Educação básica e superior.

Em virtude desses cortes, que vêm ceifando o presente e o futuro da nossa educação, foram centenas de manifestações que mobilizaram milhões de brasileiros em defesa da educação nos 26 estados e Distrito Federal, em mais de 250 cidades entre maio e agosto deste ano. Os atos tiveram adesão de pelo menos 76 instituições federais, que paralisaram suas atividades nos dias das manifestações, e por escolas privadas no Brasil inteiro – 32 só em São Paulo.

A conjuntura que estamos vivendo, baseada nos contextos históricos de opressão, violência, violações e morte provocadas pelo racismo tem definido de maneira cruel a vida da população negra e pobre do Brasil. É preciso pensar e sonhar com um 2020 onde não desistiremos de construir um mundo, um país e uma cidade justos e equânimes, onde a vida e as formas de existência sejam respeitadas e garantidas.

Nós, mulheres negras, tivemos papel fundamental nas mudanças emancipatórias que obtivemos até aqui. Fortalecidas pelas energias ancestrais continuamos seguindo os passos das ancestrais e parafraseando Lazzo Matumbi, cantor e compositor baiano, “apesar de tanta dor que nos invade”, somos nós a resistência e o grito de esperança desse país, somos nós que forjamos alegrias, que propomos o Bem Viver como projeto civilizatório decolonial.  Juntas, permaneceremos na luta de hoje e de sempre!