11 anos de silêncios na Vila Moisés: Chacina do Cabula deixou 12 jovens mortos e segue sem justiça

Operação da Polícia Militar da Bahia teve 143 disparos, 88 fatais, com indícios de execução de jovens rendidos
Por Redação Odara
No dia 6 de fevereiro de 2015, uma operação da Polícia Militar da Bahia transformou a Vila Moisés, no bairro do Cabula, em Salvador, em cenário de extermínio. Doze jovens negros, com idades entre 16 e 27 anos, foram mortos em uma ação marcada pela Polícia Militar da Bahia. Onze anos depois, a Chacina do Cabula permanece como um símbolo da violência de Estado, do racismo e da impunidade que sustenta o sistema de justiça brasileiro.
As vítimas: Caique Bastos dos Santos, 16; Natanael de Jesus Costa, 17; Rodrigo Martins de Oliveira, 17; Tiago Gomes das Virgens, 18; Bruno Pires do Nascimento, 19; Agenor Vitalino dos Santos Neto, 19; Vitor Amorim de Araújo, 19; Adriano de Souza Guimarães, 21; João Luis Pereira Rodrigues, 21; Jeferson Pereira dos Santos, 22; Evson Pereira dos Santos, 27; e Ricardo Vilas Boas Silva, 27.
Segundo investigações, a ação policial contou com 143 disparos, dos quais 88 atingiram fatalmente os jovens. Laudos apontaram que muitos tiros foram efetuados em ângulos compatíveis com vítimas rendidas, reforçando a tese de execução. Ainda assim, à época, a Polícia Militar alegou legítima defesa, sustentando que os jovens teriam reagido à abordagem.
A narrativa institucional foi reforçada publicamente pelo então governador da Bahia, Rui Costa (PT) hoje ministro da Casa Civil que comparou a ação policial à atuação de “um artilheiro em frente ao gol”, declaração que gerou forte reação de organizações do movimento negro e de direitos humanos.
O Ministério Público da Bahia chegou a reconhecer que a operação teria sido uma execução motivada por vingança, uma vez que, dez dias antes da chacina, um tenente da PM havia sido ferido durante uma operação no mesmo bairro. Ainda assim, em 2016, os nove policiais militares envolvidos foram absolvidos, com o Judiciário acolhendo a tese de legítima defesa.
Entre os agentes absolvidos estão: subtenente Júlio César Lopes Pitta; e os soldados: Robemar Campos de Oliveira, Antônio Correia Mendes, Sandoval Soares Silva, Marcelo Pereira dos Santos, Lázaro Alexandre Pereira de Andrade, Isac Eber Costa Carvalho de Jesus, Lúcio Ferreira de Jesus; e o Sargento Dick Rocha de Jesus.
Mesmo após as denúncias, Lázaro Alexandre Pereira de Andrade, conhecido como Alexandre Thaca, segue acumulando visibilidade pública. Com cerca de 169 mil seguidores nas redes sociais, utiliza esses espaços para difundir sua própria versão dos fatos, disputar narrativas e buscar legitimação social. Em 2024, chegou a disputar o cargo de vereador em Salvador, ampliando sua exposição pública.
No ano seguinte, foi preso na Operação Falsas Promessas, investigação que apura um esquema de rifas ilegais e lavagem de dinheiro envolvendo policiais e influenciadores digitais, evidenciando como agentes acusados de graves violações de direitos humanos seguem protegidos e circulando livremente no espaço público.
Apesar das provas, das marcas de tortura e das reiteradas denúncias, a Justiça baiana manteve a proteção aos policiais. O Ministério Público recorreu da decisão, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve o caso na esfera estadual, aprofundando o sentimento de abandono e revitimização das famílias.
Onze anos depois, a Chacina do Cabula permanece sem justiça. A absolvição dos policiais confirma que a violência policial contra jovens negros segue sendo legitimada pelo Estado. Justiça para a Chacina do Cabula! Justiça para a Vila Moisés!

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