Assine o Boletim Odara:



Projeto Alumiar fortalece alfabetização e identidade quilombola em Boninal (BA) e Alagoa Grande (PB)

Iniciativa do Instituto Odara articula alfabetização, formação crítica e valorização dos saberes quilombolas em escolas municipais da Bahia e da Paraíba

*Por Brenda Gomes | Redação Odara

A alfabetização de crianças quilombolas ganha novas ferramentas de aprendizagem e de fortalecimento da identidade nos municípios de Boninal, na Chapada Diamantina (BA), e Alagoa Grande, no Brejo paraibano. Nesses territórios, o Projeto Alumiar – Saberes Aquilombados na Educação, do Instituto Odara, desenvolve ações voltadas a estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, combinando acompanhamento pedagógico, formação de educadoras quilombolas e práticas de educação para as relações étnico-raciais. 

Os dados mais recentes disponíveis no Censo Escolar ajudam a dimensionar a importância dessa agenda. Na Bahia, estado onde está localizado o município de Boninal, o número de matrículas em comunidades quilombolas passou de 84.693, em 2023, para 88.035, em 2024. O total representa 32% das matrículas registradas no país nessa modalidade, segundo dados do Censo Escolar 2024 divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), com base em informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 

A proposta parte do reconhecimento de que alfabetizar também significa fortalecer a autoestima, a autoconfiança, o pertencimento e a relação das crianças com seus territórios. O projeto busca contribuir para trajetórias escolares mais protegidas e para a construção de uma educação comprometida com a equidade racial, o enfrentamento ao racismo e a construção do Pacto do Bem Viver.

“O Alumiar caminhos aquilombados na educação é uma estratégia pedagógica baseada nas metodologias dos projetos de educação do Instituto Odara e voltada especialmente para crianças que vivem em territórios quilombolas. A proposta articula processos educativos e formativos que buscam fortalecer trajetórias escolares, promovendo o desenvolvimento da identidade, da autoestima e da autoconfiança”, explica Iasmin Gonçalves, coordenadora do Programa de Educação do Instituto Odara.

EDUCAÇÃO CONECTADA AO TERRITÓRIO

Em Alagoa Grande, o projeto atende crianças das comunidades quilombolas de Caiana dos Crioulos e da Vila São João. A iniciativa chegou ao município a partir do diálogo com a comunidade, realizado inicialmente na associação de moradores. Para Luciene Tavares, coordenadora territorial do Alumiar, em Alagoa Grande, a adesão das famílias e das lideranças comunitárias foi imediata.

“Percebíamos que as nossas crianças precisavam de um projeto de alfabetização que fosse pensado nas especificidades da população quilombola”, afirma.

A realidade territorial impõe desafios que interferem diretamente no acesso à educação. Caiana dos Crioulos está localizada em uma área rural, distante do centro urbano. Durante o período de chuvas, as estradas ficam comprometidas pela lama, dificultando o deslocamento de estudantes, professores e demais profissionais da educação. Como parte dos docentes vem de fora da comunidade, o transporte interrompido também pode significar a suspensão das aulas.

Nesse contexto, a presença de alfabetizadoras e auxiliares da própria comunidade representa uma possibilidade de continuidade do processo educativo. Essas profissionais conhecem a realidade local, compartilham experiências com as crianças e contribuem para uma aprendizagem conectada à vida no quilombo.

“Com o Alumiar chegando, os alfabetizadores e os auxiliares são daqui da própria comunidade. Isso faz com que a criança possa ter um processo de alfabetização continuado, visto que são pessoas que conhecem a realidade e também têm essa vivência”, destaca Luciene.

Para ela, a iniciativa também produz representatividade e amplia as expectativas das famílias em relação ao futuro das crianças. “O projeto veio fortalecer ainda mais e trazer esperança para a nossa comunidade, para vermos os nossos crescendo cada vez mais, de forma continuada e com uma alfabetização de qualidade”, afirma.

FORMAÇÃO CRÍTICA E IDENTIDADE QUILOMBOLA

O Alumiar combina ferramentas de alfabetização com atividades voltadas ao fortalecimento da identidade individual, comunitária e territorial. A proposta considera que a educação escolar quilombola deve reconhecer os saberes, as histórias e as formas de organização presentes nas comunidades, além de enfrentar os efeitos do racismo sobre as trajetórias escolares.

As ações são realizadas nas próprias escolas frequentadas pelas crianças, em uma perspectiva de educação integral. O trabalho inclui acompanhamento pedagógico e diagnóstico das aprendizagens, além de ciclos formativos temáticos para as educadoras.

Em Boninal, o acolhimento ao projeto envolveu a Secretaria Municipal de Educação, lideranças locais, gestoras das escolas quilombolas, famílias e estudantes. De acordo com Claudiana dos Reis, diretora pedagógica e articuladora territorial do Alumiar no município, a adesão das famílias foi fortalecida pela proposta de permanência das crianças na escola em período integral e pela abordagem metodológica centrada na autoestima, no amor-próprio e na valorização da identidade.

“Após o início das ações diretas com as crianças, só temos relatos positivos do envolvimento e da participação das crianças e das famílias”, relata Claudiana.

Professores das turmas regulares já identificam avanços nas atividades em sala de aula. Gestoras também relatam mudanças no comportamento de algumas crianças. A contratação de alfabetizadoras, por sua vez, movimenta a economia local e amplia o reconhecimento profissional de jovens mulheres negras, que passam a ser valorizadas pelo trabalho desenvolvido no território.

A permanência das crianças na escola em período integral também repercute na vida das famílias. Segundo Claudiana, algumas mulheres passaram a ter melhores condições para trabalhar enquanto suas crianças permanecem na escola em um ambiente de aprendizagem e cuidado.

INCIDÊNCIA POR POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS

Além do atendimento direto às crianças, o Alumiar pretende produzir aprendizados capazes de contribuir para a formulação e a implementação de políticas públicas educacionais orientadas pela equidade racial. A experiência dialoga com a educação escolar quilombola e com as políticas nacionais voltadas à promoção da equidade nas relações étnico-raciais.

A agenda também se relaciona à Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), lançada pelo Ministério da Educação em 2024. A política tem como objetivo superar desigualdades étnico-raciais e o racismo nos ambientes de ensino, além de promover ações educacionais para a população quilombola. Seu público prioritário inclui gestores, professores, funcionários e estudantes da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio. 

A iniciativa também fortalece a implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena na educação básica, e dialoga com a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), criada pelo Ministério da Educação em 2024. Ao aproximar a alfabetização das histórias, dos saberes e das experiências das comunidades, o projeto contribui para que a escola reconheça as crianças quilombolas como sujeitos de direitos e produtoras de conhecimento, fortalecendo práticas de uma educação antirracista e alinhada às políticas de equidade racial.

Para o secretário municipal de Educação de Boninal, Erivaldo Santos, o projeto tem produzido mudanças concretas nas escolas atendidas. “O Alumiar chega para nos dar esse suporte muito importante. A gente já está vendo a diferença na aprendizagem dos alunos. O Alumiar vem fortalecendo, de uma forma muito assertiva, a questão da identidade e todas essas questões que por muito tempo foram esquecidas ou não receberam a devida importância”, avalia.

SONHOS E DESAFIOS

Em Alagoa Grande, a expectativa é que o projeto seja ampliado para outras escolas e territórios quilombolas. A comunidade deseja que as crianças tenham uma trajetória escolar contínua, cheguem à universidade e ocupem espaços de decisão com mais autonomia e segurança.

“Nosso sonho é fazer com que as nossas crianças e os nossos adolescentes galguem espaços e tenham acesso aos espaços de poder por meio de uma educação de qualidade”, afirma Luciene. Para ela, a alfabetização deve contribuir para superar a distorção idade-série e garantir que as crianças possam avançar em suas trajetórias escolares em condições de igualdade.

Em Boninal, os desafios envolvem a melhoria dos espaços escolares, a ampliação de materiais didático-pedagógicos, o acesso a livros, o letramento digital e a oferta de apoio social e psicológico às famílias que enfrentam situações de vulnerabilidade. Ainda assim, Claudiana avalia que os resultados iniciais apontam para perspectivas positivas.

“O nosso sonho é que o projeto seja um sucesso no sentido da diminuição das desigualdades educacionais, principalmente aquelas produzidas por uma trajetória de racismo estrutural”, afirma. “Queremos que nossas crianças cresçam de forma potente e integral, lidando com mais segurança e autonomia com sua identidade, sua dimensão emocional e sua espiritualidade, ampliando as expectativas de vida e de Bem Viver.”

Ao atuar simultaneamente na alfabetização, na formação de educadoras e na valorização dos territórios quilombolas, o Projeto Alumiar afirma uma compreensão ampliada do direito à educação. A experiência desenvolvida em Boninal e Alagoa Grande mostra que garantir aprendizagem também significa enfrentar desigualdades históricas, reconhecer saberes comunitários e criar condições para que crianças negras e quilombolas construam seus futuros com pertencimento, dignidade e autonomia.

Assine o Boletim Odara:



Compartilhe:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *