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Carta das Comunicadoras Negras da Bahia – Rumo à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver 2025

Nós, comunicadoras negras, jornalistas, radialistas, produtoras, roteiristas, escritoras, fotógrafas, profissionais do audiovisual, relações públicas, publicitárias, designers, criadoras de conteúdo, ativistas da comunicação comunitária e estudantes de comunicação, unimo-nos para afirmar que nossa voz é força ancestral e ferramenta de denúncia das violências, além de instrumento de construção de novos imaginários e contranarrativas capazes de romper com os estereótipos racistas sobre a população negra propagados pelas mídias hegemônicas. 

Nossa comunicação é também eixo de resgate da memória, por justiça e por verdade. Saudamos todas aquelas que, antes de nós, ousaram comunicar, registrar e narrar a vida a partir de nossos olhares e corpos negros, e todas que hoje, na Bahia, no Nordeste, no Brasil e no mundo, seguem tecendo redes com palavras, imagens e sons que confrontam o racismo, o colonialismo, o cisheteropatriarcado e todas as formas de opressão e silenciamento que atingem diariamente nossas vidas. Saudamos também a luta e a força ancestral dos povos indígenas, das mulheres indígenas, que têm rompido com a comunicação aplastante. 

Apesar de múltiplas, somos as que menos recebem e as que mais trabalham. Mulheres negras recebem salários até 47,5% menores que homens não negros e ocupam menos cargos de liderança, mesmo sendo maioria no mercado de trabalho. Na Bahia, ganham 19,7% a menos que homens e 14,8% a menos que mulheres não negras. Carregamos a dupla ou tripla jornada porque somos mães das nossas crias, mãe de nossas mães, esposas, cuidadoras, trabalhadoras e comunicadoras, enquanto enfrentamos a discriminação estrutural e a lógica de dominação de raça, gênero e sexualidade dentro e fora dos nossos espaços de trabalho.

Somos minorias no mercado da Comunicação e, quando presentes, nos localizam  em cargos de menor remuneração e prestígio. No Brasil, 50 veículos de maior audiência estão nas mãos de apenas 26 grupos empresariais, com destaque para Globo, Bandeirantes, Record/IURD, RBS e Folha. Esses grupos controlam mais de 90% do conteúdo consumido pela população. A elevada concentração de propriedade e audiência restringe a pluralidade de vozes e a nossa participação nas narrativas públicas. Esse cenário reforça a invisibilidade, reprodução de estereótipos e a sub-representação das mulheres negras na comunicação.

Esta carta reafirma nosso compromisso coletivo e diário com a luta pela reparação e pelo Bem Viver. Queremos condições para comunicar as histórias do povo negro com acesso, liberdade e dignidade, ocupando os espaços de visibilidade, decisão e poder midiático.

Em 18 de novembro de 2015, mais de 100 mil mulheres negras tomaram as ruas de Brasília na histórica Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. Foi uma estratégia política de mobilização transnacional, construída por organizações, coletivos e lideranças negras em diálogo com movimentos da diáspora africana nas Américas, no Caribe e na África, que segue impulsionando até hoje a criação e mobilização de coletivos e organizações de mulheres negras Brasil adentro e afora.

Aprendemos que não basta ocupar somente as ruas, é preciso ocupar também a palavra e o direito de disseminar as propostas do projeto de nação que temos construído coletivamente. A Marcha de 2025 se estrutura  nesse legado por meio do resgate da memória e da criação de narrativas próprias que contemplem nossa pluralidade. Reafirmamos a comunicação como campo de disputa estratégica e criação de futuros possíveis, integrado à luta por reparação histórica e pelo Bem Viver.

Defendemos a valorização dos conhecimentos e culturas afro-brasileiras, especialmente das comunidades quilombolas e de matrizes africanas, a promoção de campanhas que eliminem a veiculação de estereótipos de raça/etnia, gênero, sexualidade, geracional nos meios de comunicação (públicos e privados) e nas produções, conteúdos, programas e materiais didáticos; criação de novos formatos de visibilidade da população negra, em particular das mulheres negras, apoiado em imaginários capazes de romper com os códigos racistas, sexistas, LGBTfóbicos e capacitistas que compõem os discursos circulantes; Estimular maior participação de profissionais negros, especialmente das mulheres negras, na mídia e nos espaços de entretenimento em cargos de decisão.

Queremos fortalecer as mídias populares e comunitárias; proibir o repasse de verbas públicas para veículos de comunicação que induzem ao racismo, sexismo, lesbofobia e transfobia. Garantir a todas as pessoas, independentemente da condição socioeconômica ou da localidade, acesso a um serviço de banda larga de qualidade, barato e rápido. Exigimos o fim dos oligopólios e monopólios de mídia, a transparência nas concessões de canais de rádio e televisão, o fortalecimento da comunicação pública e comunitária, e a diversidade e a pluralidade de conteúdo nos meios de comunicação do Brasil, a regulamentação da Internet, para reduzir o poder das bigthecs, principalmente das redes sociais, rompendo com o racismo algorítmico.

Nós, comunicadoras negras, queremos ver os rostos do nosso povo e nossas expressões culturais ocupando as telas e os espaços, para dizer que nas nossas escolas, instituições, quilombos, zonas rurais, becos e esquinas estamos produzindo comunicação, arte, cultura e educação. E que nossos corpos não sejam apenas visibilizados como vítimas do estado, apagados ou mortos sem nenhum escrúpulo. Queremos narrar a história de quem veio antes de nós sem enquadramentos que nos distorçam, sem filtros que nos silenciem, mas com a força e a verdade que herdamos. 

Convocamos todas as organizações, coletivos, sindicatos, associações e redes de comunicadoras negras para marchar conosco em 25 de novembro de 2025. Que estejamos lado a lado, nas ruas, nos veículos de comunicação e nas redes sociais, afinal, não há Bem Viver sem que sejamos donas de nossas próprias narrativas, dentro das nossas comunidades periféricas, ribeirinhas e quilombolas. Não haverá Bem Viver sem que o Estado, as instituições e as elites reparem tudo aquilo que nos deve historicamente. 

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