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#OpiniãoOdara – O executor do crime, Alô Juca, a Escola ou a polícia: Quem têm mais culpa na morte e revitimização da menina Thamiris dos Santos?

Adolescente de 14 anos foi morta em Salvador (BA), após seis dias desaparecida em um contexto de lentidão policial, silêncio da escola e ganância da mídia

Por Redação Odara

Eram apenas 14 anos de vida e uma rotina comum de estudante. No dia 12 de março de 2026, Thamiris dos Santos Pereira saiu da escola no bairro Jardim das Margaridas, em Salvador (BA). Câmeras de segurança registraram seus últimos passos conhecidos: caminhava com uma amiga e, em seguida, prosseguiu sozinha rumo a sua casa. Ela nunca chegou. Pouco tempo depois, sua mochila foi encontrada abandonada na rua, trazendo dias de angústia, buscas desesperadas por parte de familiares e moradores, e protestos que exigiam respostas.

O desfecho trágico veio uma semana depois. No dia 19 de março, o corpo de Thamiris foi encontrado em uma área de mata no bairro do Cassange. O cenário da descoberta revelou a brutalidade do crime: peças de roupa e objetos pessoais, como a farda escolar, sapatos e um relógio, estavam espalhados ao lado do corpo sem roupa, elementos que constituiam fortes indícios de violência sexual.

O caso ganhou contornos ainda mais assustadores com a identificação dos suspeitos. Rodrigo Faria Sena dos Santos, de 37 anos, vizinho da família que dizia ajudar nas buscas, foi apontado como responsável por atrair Thamiris para o local do crime. Já Davi de Jesus Ferreira, de 32 anos, preso desde 20 de fevereiro no Conjunto Penal da Mata Escura, em Salvador, por violência doméstica e ameaça, é apontado como mandante do crime.

Segundo a investigação do delegado Moisés Damasceno, diretor do Departamento de Polícia Metropolitana, Davi teria agido por vingança, acreditando que Thamiris foi a autora da denúncia que o levou à prisão. No entanto, a vítima da agressão que desencadeou a prisão de Davi nega que Thamiris tenha sido a autora da denúncia. Segundo ela, a menina nem estava no ambiente no momento da violência e ela mesma chamou a polícia quando estava trancada em casa com os filhos enquanto o ex-companheiro a gritava e ameaçava do lado de fora. O que sugere que a versão oficial da polícia para a motivação do crime é frágil, pode estar negligenciando outras linhas investigativas e gera  efeitos nocivos ao enfrentamento à violência contra mulher, uma vez que relaciona uma denúncia a uma grave retaliação.

Já Rodrigo, apontado pela polícia como responsável pela execução de Thamiris, e que esteve junto aos familiares e vizinhos durante os dias de procura, caso tenha sua participação no crime confirmada, evidencia a repetição da lógica: o colapso simbólico da comunidade como espaço de proteção para crianças e adolescentes – visto que estes, quando vítimas de violências sexuais, em 68% dos casos são violados por familiares ou pessoas do convívio íntimo.

Contudo, a tragédia de Thamiris não se encerra na crueldade de seu assassinato. Ela se desdobra em um roteiro conhecido de racismo institucional. A investigação conduzida pelas polícias se mostrou lenta e marcada por furos, construindo uma linha narrativa que tenta forçar a relação do feminicídio com organizações criminosas. Essa estratégia parece ter um objetivo claro: desresponsabilizar o Estado. Uma investigação lenta e com resposta frágil que demonstra que nem todas as vidas importam igualmente. Isso fica ainda mais evidente se compararmos com o caso das três mulheres brancas de classe média que foram sequestradas em um shopping de Salvador e localizadas em 12 horas.

A falência das redes de proteção e o silêncio da escola

A comoção pública, manifestações,  e as buscas coletivas, mostram a potência da comunidade diante da dor. Mas também,  escancaram o quanto essas mobilizações acontecem quando algo irreversível já se instalou. As perguntas que permanecem são incômodas: o que poderia ter sido feito antes? Que sinais foram ignorados? Que estruturas falharam? E, sobretudo, por que seguimos vivendo em uma sociedade onde meninas negras precisam desenvolver estratégias de autoproteção antes mesmo de compreender plenamente o mundo?

A morte de Thamiris escancara o quanto a vida de meninas negras é atravessada pela insegurança crônica. Enquanto a liberdade de ir e vir é celebrada como direito básico, para essas meninas, cada passo precisa ser calculado: a roupa, o caminho, o horário, as companhias. Aspectos que tentam blindá-las de um mundo que não foi desenhado para protegê-las, pelo contrário, as vêem como vítimas preferenciais.

Essa desproteção sistêmica levanta questões sobre as redes de proteção infanto-juvenil. A continuidade das atividades escolares durante o desaparecimento e após a confirmação da morte de Thamiris mostra uma falha grave no papel da escola. A Escola é, ou deveria ser, um espaço de proteção, escuta e cuidado. A ausência de suspensão das aulas e a tentativa de “manter a normalidade” produzem uma narrativa violenta que destaca que a interrupção da vida de uma estudante negra não é suficiente para alterar a rotina institucional.

Quando a escola não se mobiliza diante de uma situação de violência como essa, ela reforça a prática do Estado de que algumas perdas são absorvíveis e o assassinato de uma menina negra não destabiliza a sociedade. Mas, é importante olhar essa dimensão da violência, como responsabilidade do Estado. Muitas escolas  passam por limitações institucionais, como ações de formação das comunidades escolares, poucos  profissionais psicossociais, ou seja, não se trata de apenas uma escolha, mas de um problema estrutural de políticas de cuidado e protocolos de emergências. 

Como nos ajuda a compreender Patricia Hill Collins, as opressões não atuam de forma isolada; elas se entrelaçam e produzem condições específicas de vulnerabilidade para mulheres negras. Nós aprendemos desde cedo com o racismo e o sexismo que estruturam a nossa sociedade quem é digno de proteção e quem pode ser descartado. Nesse contexto, a violência que atinge meninas negras não é algo que acontece por acaso, mas parte de uma lógica social branca, patriarcal e heteronormativa que alimenta ainda hoje a lógica da violência sexual contra meninas e mulheres negras como parte normativa do patriarcado e do genocidio da população negra.

O espetáculo midiático e o lucro sobre a dor

A cobertura do desaparecimento de Thamiris revelou o pior do jornalismo sensacionalista na Bahia. Programas televisivos locais exploraram a dor da família em busca de audiência, expondo informações extra oficiais, criando “furos” de reportagem que mais confundem do que esclarecem e têm como único objetivo lucrar em cima da tragédia da população negra. 

O ápice dessa irresponsabilidade foi o programa “Alô Juca” (exibido no SBT), apresentado por Marcelo Castro. Ele não apenas cobriu o caso, como assumiu o papel de investigador, colocando equipes nas ruas para fazer “investigações paralelas”. Ao vivo, expôs e acusou um rodoviário, vizinho de Thamiris, sugerindo seu envolvimento no crime. Tamanha irresponsabilidade quase resultou no linchamento de um homem negro sem qualquer relação com as investigações oficiais. Diante da veiculação da informação por Marcelo Castro, o delegado responsável pelo caso descartou a participação do rodoviário na morte de Thamiris, questionando: “Não sei por que estão associando ao crime”

Em outro momento deplorável, ao encontrarem o corpo de Thamiris antes da polícia, o apresentador comemorou como se tivesse ganhado um prêmio. E sua equipe tratou o cadáver de uma menina de 14 anos como um troféu. Marcelo chegou ao local do crime antes de qualquer nota oficial da investigação, contaminando a cena e desrespeitando a memória e a dor de Thamiris e de seus familiares.

Esse comportamento mostra como corpos negros são expostos, julgados e explorados sem qualquer responsabilidade. Um homem negro quase foi linchado. Uma menina negra teve seu corpo transformado em espetáculo. Uma família negra teve sua dor sugada até o limite. E tudo isso em nome da audiência, em um programa cujo apresentador é acusado de roubar dinheiro de doações feitas pelos telespectadores para ajudar pessoas em vulnerabilidade. 

Fazemos coro a defesa da manifestação no Ministério Público da Bahia, como o ajuizamento de ações e recomendações da suspensão do programa “Alô Juca”, que veicula diariamente conteúdos que exploram a violência, expressam métodos escusos de investigação jornalística e desrespeita direitos humanos, configurando conteúdo “tóxico” e racista.

Uma dor que não é nova, mas segue sendo ignorada

A história de Thamiris nos convoca a lembrar que, enquanto não pudermos caminhar pelas ruas sem medo, a promessa de liberdade continua incompleta para nós.  O caso reacende uma dor que, infelizmente, não é nova e que insiste em ser tratada como se fosse uma exceção. Quando uma menina some, especialmente quando é uma menina negra, o que está em jogo não é apenas uma tragédia individual, mas um retrato das desigualdades que dizem quem é procurado, quem mobiliza o Estado e quem permanece invisibilizada. 

A comoção pública não se distribui de forma igual, não há hashtags, nem há revolta, há uma hierarquia silenciosa de vidas que importam mais, que recebem mais cobertura, mais urgência, mais recursos. 

Historicamente, são as mulheres negras, mães, educadoras, ativistas, lideranças comunitárias que têm sustentado a luta pela proteção, visibilidade e dignidade das meninas negras. Somos nós que denunciamos a morte, o desaparecimento não só físico, mas também simbólico: o apagamento das infâncias negras, a naturalização da violência, o silêncio institucional. 

Falar desse caso não é apenas pedir justiça por uma menina específica, mas reconhecer um padrão que precisa ser rompido. E romper esse padrão exige escuta e centralidade para quem historicamente tem feito esse enfrentamento. Porque, no fim, é sobre a menina Thamiris, mas é também sobre construir um mundo onde nenhuma menina negra tenha seu direito de viver negado, ou seja facilmente perdida, esquecida, considerada “menos urgente”.

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