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Dois anos sem Jhonatan: Pai de três crianças, morto atropelado pela PM-BA no Nordeste de Amaralina

Caso expõe a morosidade das investigações e a dor contínua de uma família que segue sem respostas

Redação Odara

Jhonatam Guimarães Conceição era jovem negro de 25 anos, trabalhava como cordeiro no carvaval, pai de duas meninas gêmeas e estava à espera do terceiro filho. No dia 12 de maio de 2024, no bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador (BA), Jhonatan levou sua mãe ao mercado, foi à barbearia e depois saiu de moto pelo bairro. No final da tarde, quando voltava para casa, foi surpreendido pela polícia, que o atingiu com a viatura.

Cerca de alguns minutos depois, sua mãe, Joseane Conceição Guimarães, chegou ao local onde aconteceu o atropelamento (próximo da sua casa) e o encontrou jogado no chão, com muitas dores no corpo, com os policiais apontando a arma para Jhonatam e mesmo se apresentando como mãe, não foi escutada: “Disseram que ele era ladrão, que a moto era roubada. Eu dizia que a moto era minha, mas não me ouviram”, relata dona Joseane.

Os policiais colocaram Jhonatan dentro da mala da viatura e levaram para o hospital. Não deixaram a família ir junto e nem seguir o carro da polícia. A família chegou primeiro ao Hospital Geral do Estado (HGE) e, depois de algumas horas, Jhonatan foi internado como indigente, sendo privado da presença da sua mãe. Ainda neste mesmo dia, Dona Joseane recebeu a notícia do falecimento do seu filho. O laudo médico destaca politraumatismo decorrente de acidente de moto.

A Morosidade da Justiça e a Dor da Perda

Dois anos depois, o caso segue sem respostas concretas e com um inquérito marcado pela lentidão e pela ausência de encaminhamentos fundamentais. A mãe de Jonathan denuncia que nunca foi oficialmente ouvida ao longo do processo. “Até hoje, nunca me chamaram para depor. Nunca quiseram ouvir a minha versão”, afirma. Para ela, a morosidade da justiça não é apenas burocrática, é mais uma forma de violência. “Quem tá com a dor sou eu. É uma dor que não passa.”

O caso está sendo acompanhado pela assessoria jurídica do Odara – Instituto da Mulher Negra, que aponta falhas na condução do inquérito. Segundo a advogada Lorena Pacheco, as testemunhas não foram ouvidas ainda e os documentos requeridos não foram juntados aos autos. “Nosso objetivo é assegurar a manutenção das testemunhas e a inclusão de todas as provas solicitadas, visando dar prosseguimento ao caso”, afirma a advogada.

Jonathan é mais um entre os vários casos de jovens negros mortos vítimas da violência policial em Salvador, especialmente no Nordeste de Amaralina. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, a Bahia lidera, há três anos consecutivos, o ranking de mortes por intervenção policial no Brasil. Em 2023, foram registradas 1.701 mortes; em 2024, 1.556 pessoas foram mortas por ações policiais; e, em 2025, o estado voltou a registrar números alarmantes, com 1.569 mortes. 

A falta de responsabilização pela morte de Jhonatan reforça a sensação de impunidade e escancara o projeto sistemático do genocídio da população negra promovido pelo Estado. Em meio a esse cenário, Dona Joseane segue resistindo, sustentando a memória do filho e exigindo justiça. “Eu só quero que reconheçam o que fizeram com meu filho. Que a história dele não seja apagada.”

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