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Caso Jônatas Bispo: Três anos depois, família enfrenta obstáculos para acompanhar investigação


Pai de dois filhos, Jônatas ajudava uma vizinha em uma mudança quando foi atingido durante uma ação policial no bairro de Narandiba, em Salvador

Por Redação Odara

No dia 11 de setembro de 2023, Jônatas Bispo dos Santos, de 30 anos, ajudava uma vizinha durante uma mudança, no bairro de  Narandiba, em Salvador, quando foi abordado por policiais militares do Esquadrão de Motociclistas Águia. Segundo relatos de familiares e testemunhas, Jônatas foi revistado e liberado, entretanto  minutos depois, os policiais teriam retornado e efetuado disparos contra ele.

Ferido, Jônatas pediu ajuda e moradores fizeram um protesto cobrando que os responsáveis pelos disparos prestassem socorro. Jônatas foi levado pela viatura da polícia militar para o Hospital Geral Roberto Santos, mas não resistiu. Três anos depois, a família ainda busca respostas e responsabilização. 

FALTA DE ACESSO ÀS INFORMAÇÕES DO INQUÉRITO E DIFICULDADE PARA ACOMPANHAR O INQUÉRITO

Desde abril de 2026, as advogadas da Assessoria Jurídica do projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, do Odara – Instituto da Mulher Negra, que passaram a acompanhar o caso este ano,   tentam acessar o inquérito conduzido pela Delegacia de Homicídios Múltiplos. Segundo a assessoria, mesmo após pedidos formalizados por escrito e presencialmente, com a devida apresentação de procuração, o acesso aos autos do procedimento ainda não foi garantido. A equipe jurídica também solicitou a coleta de depoimentos de duas testemunhas oculares do caso, o que viola as prerrogativas do exercício profisisonal da advocacia. Elas chegaram a ser intimadas, mas sem comunicação prévia com as advogadas acompanhassem a oitiva.

Para Bianca Souza, advogada da Assessoria Jurídica esses obstáculos não podem ser tratados apenas como entraves burocráticos. “Há mais de dois anos a família de Jônatas espera por Justiça e há mais de dois anos o que recebe é obstrução, lentidão e desinformação.”

A situação levou a assessoria jurídica a apresentar uma denúncia à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em relação à conduta do delegado responsável pelo caso. Segundo Bianca Souza, impedir ou dificultar o acesso da família e de sua assessoria jurídica à investigação também revela como o racismo atravessa o funcionamento das instituições. “Quando o acesso aos autos é negado às famílias negras que buscam responsabilização por mortes causadas pela própria polícia, o que se protege não é o sigilo do inquérito, é a impunidade.”

INVESTIGAÇÃO SÓ TEVE AVANÇO APÓS DENÚNCIA DA FAMÍLIA

As dificuldades, no entanto, começaram antes da atuação da atual assessoria jurídica. Em determinado momento, a família identificou que o procedimento não havia sido encaminhado ao Ministério Público da Bahia (MP-BA). Foi somente depois que Deslane Brito Cerqueira, a viúva de Jônatas, procurou a Ouvidoria do MP-BA e denunciou a falta de encaminhamentos do processo e somente depois disso que o caso retornou à delegacia para continuidade das diligências.

Mais recentemente, o Núcleo de Apoio às vítimas de Crimes Violentos e de Especial Vulnerabilidade  (NAVV), do MP-BA , informou à família que o caso também está sendo acompanhado pelo órgão e que um novo delegado teria assumido a condução do inquérito em fevereiro de 2026. 

Segundo as informações repassadas pelo Ministério Público, ainda existiriam documentos e laudos pendentes. A assessoria jurídica, porém, afirma que não consegue confirmar ou detalhar essas informações porque continua sem acesso aos autos. Para Bianca Souza, cada obstáculo encontrado prolonga a violência vivida pela família.

“Cada entrave, cada prazo descumprido, cada ato realizado à revelia da assessoria jurídica da família  é também uma forma de violência, que se soma à primeira, a dos disparos, e prolonga o luto das famílias.”

Jônatas era trabalhador, dono de um lava-jato e pai de duas crianças. Desde setembro de 2023, sua família busca respostas sobre sua morte. Três anos depois, a luta é por Justiça, mas também pelo direito de acessar informações e acompanhar o caso com dignidade. Para a família, a dificuldade de obter informações sobre a investigação prolonga a violência e evidencia como o racismo também opera por meio do silenciamento, da falta de transparência e da negação do direito à verdade.

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