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Acopamec realiza 5ª edição de Encontro de Mulheres e mobiliza territórios para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver

Por Brenda Gomes | Redação Odara 

Na última sexta-feira, 14 de agosto, o Teatro Artesão da Paz, no bairro da Mata Escura, em Salvador, foi tomado por vozes, saberes e afetos na 5ª edição do encontro “Mulheres Negras em Movimento”. Realizado pela Associação das Comunidades da Paróquia de Mata Escura e Calabetão (Acopamec) e apoiado por organizações como Odara – Instituto da Mulher Negra, CESE, Cáritas NE3 e CAMA, o evento reuniu mulheres dos territórios da Mata Escura, Calabetão, São Bartolomeu e Uruguai, reafirmando o papel central das mulheres negras na transformação da sociedade.

Inspirado na frase de Angela Davis que afirma que “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, o encontro foi um chamado para refletir sobre Reparação Histórica e Bem Viver, temas centrais da Marcha Global das Mulheres Negras, prevista para novembro, em Brasília (DF).

Foto: Ronaldy Oliveira

Ao longo do dia, participantes de diferentes idades se envolveram em palestras, debates e oficinas que reuniram ancestralidade, direitos e lutas contemporâneas. Segundo Joice Cristina, coordenadora do Centro de Qualificação Profissional da Acopamec, a programação buscou aprofundar o diálogo em torno da Marcha de 2025.

“Debatemos saúde, transporte público, o extermínio da juventude negra,  que toca muitas de nós, e outras pautas ligadas à reparação. As oficinas trouxeram vivências de turbante, dança afro, samba de cuidar, cura e cuidado com as folhas, capoeira e canto coral. A maioria do público era de mulheres acima de 60 anos, que enriqueceram as discussões com suas experiências”, destacou.

O Instituto Odara, parceiro desta e de outras edições do evento, foi representado pela ativista Erika Francisca, do Núcleo de Serviço Social do Odara, que trouxe uma análise política e histórica sobre a luta das mulheres negras no Brasil.

“Resgatamos a memória da Marcha de 2015, que levou 100 mil mulheres a Brasília, e homenageamos figuras centrais como Luiza Bairros e Luís Alberto. Refletimos sobre como, hoje, a construção da Marcha demanda parcerias e a mobilização de todas, independentemente de vínculos institucionais.”

A ativista também destacou que o debate incluiu temas como o extermínio da juventude negra, acesso à creche, violências obstétricas, saúde, educação, tecnologia e comunicação, com atenção especial ao etarismo.

“As idosas presentes compartilharam preocupações sobre o abandono por parte do Estado e da família, reforçando a urgência de políticas públicas para quem envelhece no Brasil”, ressaltou Erika.

Entre as participantes, Josenilda Rodrigues, 66 anos, moradora de São João do Cabrito, compartilhou a alegria de viver a experiência:

“Sou aposentada e, quando trabalhava, não tinha tempo de aproveitar nada. Esse foi um momento muito marcante para mim. Fiz o curso de turbante e já voltei para casa de turbante na cabeça. O que vi foi tudo muito bom, especialmente pela presença de tantas idosas, que muitas vezes não têm oportunidades de lazer. Se tivéssemos mais encontros assim, seria maravilhoso”, disse.

Oficina de Turbantes no Encontro de Mulheres da Acopamec | Foto: Ronaldy Oliveira

Sofia Rufino, de 18 anos, Jovem Aprendiz da Acopamec, ressaltou que o evento foi especial por trazer à tona temas muitas vezes invisibilizados, além de questões já conhecidas pelas comunidades, mas pouco presentes na mídia hegemônica. 

“A questão da invisibilidade da mulher negra é muito forte, inclusive dentro da própria comunidade. Aqui tem muitas pessoas com talento, com histórias importantes, mas que não têm espaço para mostrar. É por isso que momentos como esse são importantes: para colocar nossa voz para cima, para não deixar que a mídia dite a imagem da comunidade. Precisamos mostrar que ela é muito mais do que falam por aí. Aqui podem ter médicos, artistas… e tudo que as pessoas quiserem e ousarem ser.”

Entre reflexões políticas e práticas culturais, o encontro reafirmou a força coletiva das mulheres negras como motor de resistência e transformação. Foi um território de partilha, onde memória, luta e afeto se entrelaçaram para impulsionar mudanças profundas. Ao ecoar vozes e experiências de diferentes gerações, mostrou que a transformação social começa nos territórios e se projeta para o futuro, guiada pelo compromisso com a luta por Reparação Histórica e o Bem Viver.

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