Jornada Quilomba percorre territórios da Bahia fortalecendo a participação política de mulheres quilombolas e a articulação para Marcha das Mulheres Negras

Encontros mobilizam comunidades quilombolas de Palmas de Monte Alto, Riacho de Santana, Bom Jesus da Lapa, Seabra e Boninal, para continuidade das ações impulsionadas a partir das audiências públicas realizadas em julho de 2024 nos municípios
Nos dias 8 e 9 de junho, a Jornada Quilomba – Pela Vida das Mulheres Negras passou por cidades dos territórios de identidade Velho Chico, Sertão Produtivo Chapada Diamantina, na Bahia, dialogado com lideranças negras, cobrando respostas do poder público e articulando apoio para a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras.
Os encontros realizados nos municípios de Riacho de Santana, Palmas de Monte Alto, Bom Jesus da Lapa, Boninal e Seabra, tiveram como foco a continuidade de ações relacionadas às audiências públicas municipais realizadas em julho de 2024 nos referidos município, com a sistematização de denúncias, atualização das cartas de reivindicações construídas em 2024 e o fortalecimento da mobilização e participação política de mulheres quilombolas.
A jornada teve início em Riacho de Santana, onde lideranças se reuniram com representantes das Secretarias de Assistência Social, Saúde, Agricultura e da Prefeitura. Embora a ausência dos vereadores tenha sido registrada, houve avanço na articulação para a Marcha das Mulheres Negras, com o compromisso de tramitação de ofícios para garantir dois ônibus para transporte das participantes do município.
Durante o encontro, Wilma Conceição agente de desenvolvimento territorial do Sertão Produtivo, ressaltou a importância da mobilização na sua comunidade:
“Estamos vivendo um momento riquíssimo de escuta e articulação. Essa audiência fala das mulheres quilombolas, de direitos historicamente negados, mas também das nossas lutas por permanência e novas conquistas. O Codesp (Conselho de Desenvolvimento do Sertão Produtivo) reconhece a importância de transformar políticas públicas em políticas de Estado, que garantam dignidade para quem trabalha, para quem está desempregado e para quem sobrevive nos territórios esquecidos. O papel do Odara aqui tem sido essencial para fortalecer essas vozes e ampliar o diálogo.”
Durante o encontro, foram levantadas pautas urgentes sobre saúde, educação e infraestrutura nas comunidades quilombolas, além da reivindicação por reuniões periódicas entre a Prefeitura e as lideranças comunitárias para garantir necessidades sociais básicas, como o funcionamento de unidades de saúde, transporte público e acesso a saneamento básico.
Em Palmas de Monte Alto, a mobilização comunitária se destacou, com a participação de todas as associações signatárias da carta, construída em 2024. No entanto, mais uma vez, o poder público se ausentou. Estiveram presentes apenas funcionárias da Secretaria de Saúde, de Assistência Social e da Rede de Educação do Município. Prefeito, secretários e vereadores, que poderiam responder às questões apresentadas, não compareceram nem justificaram ausência..
As lideranças relataram mudanças em rotas de transporte escolar que estão impedindo o acesso de crianças às escolas, agravando a evasão escolar. A educação, ao lado das políticas de assistência e saúde, foi tema central das discussões e atualizações da carta de reivindicações.
A jornada seguiu para a cidade de Bom Jesus da Lapa, onde as mulheres quilombolas fizeram denúncias alarmantes envolvendo a maternidade local. Lideranças relataram um aumento expressivo nas taxas de mortalidade materna e infantil, principalmente entre mulheres negras e quilombolas. Casos de descaso foram denunciados pelas participantes, que exigiam uma apuração imediata e ações concretas por parte do Estado.
Além disso, foi denunciada a desapropriação da comunidade quilombola de Lagoa Dourada, onde cerca de 10 famílias foram expulsas do território após a entrada de uma empresa privada. As lideranças exigem a retomada das terras e medidas contra a grilagem. Há dois anos que guardas ocupam a comunidade e limitam o acesso dos moradores às suas terras e casas, regulamentadas pelo INCRA. Liberam a entrada das famílias de segunda a quinta.
O encontro ocorreu na Câmara de Vereadores de Bom Jesus da Lapa e contou com a participação da vereadora Juliana Vaz, desde a produção e mobilização. A candidatura de Juliana foi fortalecida pelo projeto Pretas no Poder, do Instituto Odara, em 2024, e tornou-se a primeira vereadora negra quilombola do município que é referência no processo de resistência e articulação em prol do reconhecimento e titulação dos povos quilombolas no Brasil.
A reunião em Boninal aconteceu na Câmara Municipal, com participação de três vereadores, do secretário de Administração e lideranças das comunidades de Olhos da Aguinha, Cutia e Mulungu. As lideranças revisaram ponto a ponto da carta construída e apresentada na Audiência Pública realizada em julho de 2024, apontando os avanços e denunciando o que ainda não foi cumprido. Houve queixas em relação à atuação da assistência social, especialmente no funcionamento do CRAS Quilombola, e debate sobre a participação política das lideranças negras nas decisões do município. Também foi entregue ao poder público municipal o ofício de apoio à Marcha das Mulheres Negras, com solicitação de transporte e alimentação para as participantes.
No dia 9 de junho, em Seabra, o encontro foi realizado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais e contou com a presença de lideranças das comunidades de Vazante, Serra do Queimadão, Basílio, Baixão Velho, Agreste, Vão das Palmeiras, Cachoeira e Cambo. Estiveram presentes representantes das Secretarias de Assistência Social, Saúde, Obras e Administração Pública. Do poder legislativo, participou o vereador João Batista, representante das comunidades quilombolas na Câmara Municipal.
A atividade se concentrou na revisão das demandas apresentadas na audiência pública de julho de 2024. As lideranças relataram o que já foi cumprido e o que segue pendente, obtendo encaminhamentos objetivos, como prazos para obras de escolas, reformas de postos de saúde e pequenas intervenções de infraestrutura.
O encontro também teve caráter de mobilização para a Marcha, com entrega de ofício de solicitação de apoio ao poder público municipal. Os secretários assinaram o documento e iniciaram o diálogo para garantir transporte e apoio logístico às mulheres quilombolas que marcharão por reparação e justiça.
Cleonice Santos, do Quilombo Cachoeira e Mucambo, em Seabra – Chapada Diamantina, reforçou o impacto desses encontros para a autoestima e a força coletiva das mulheres negras:
“Esses encontros são momentos valiosos onde nossas vozes finalmente encontram espaço para serem ouvidas. Durante anos falamos dos mesmos problemas sem resposta. Agora conseguimos reunir os quilombos, trocar experiências, expor as dores e lutar por soluções. A luta é grande, as conquistas ainda são poucas, mas não podemos desistir. A Marcha é mais um passo na nossa caminhada. Agradeço ao Odara pelo apoio que nos dá força para continuar correndo atrás dos nossos direitos. A luta continua.”
MOBILIZAÇÃO MARCHA DAS MULHERES NEGRAS 2025
A Jornada das Mulheres Quilombolas é uma importante ferramenta de incidência política, escuta e denúncia, que tem fortalecido a mobilização de mulheres negras dos territórios como Velho Chico,Sertão Produtivo e Chapada Diamantina na luta por saúde, educação, território, segurança e dignidade. Os encontros revelam tanto avanços, quanto a persistência da omissão estatal, reforçando a urgência de reparação histórica para os povos quilombolas.
A construção da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras segue viva e potente, impulsionada por vozes que não se calam diante da violência e da negligência. Nos territórios, a luta é todo dia, e ela segue.
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