#OpiniãoOdara: 477 anos de Salvador: Uma cidade que não protege crianças negras nem nas ruas, nem nas escolas

Cidade convive com escolas precarizadas, educação em queda e uma política de segurança que segue vitimando crianças e jovens negros
Por Redação Odara
Neste domingo, 29 de março, Salvador completa 477 anos. Mais de quatro séculos de história, resistência, cultura, e de povo negro que construiu essa cidade com suor e sangue. Mas também mais de quatro séculos de genocídio, pautado na ideologia colonial escravocrata. E enquanto a Prefs mobiliza a cidade com mais um festival, a pergunta que não quer calar é: comemorar o quê, exatamente?
A SEGURANÇA PÚBLICA QUE MATA
Enquanto a gente fala em “progresso” e “desenvolvimento”, a Polícia Militar segue seu trabalho de morte em Salvador, e a Prefeitura de Bruno Reis segue omissa, sem dialogar com o estado sobre as operações policiais que cercam as escolas, sem garantir que o caminho para a sala de aula seja seguro, sem reconhecer sua responsabilidade com as crianças que morrem nos arredores das escolas municipais.
Nove em cada dez jovens assassinados em Salvador são negros. E repetimos: “NÃO É BALA PERDIDA”, “NÃO É CASO ISOLADO”. São balas com GPS, com endereço, com identificador de cor de pele. É seletividade. É racismo institucionalizado, com farda e licença para matar.
A EDUCAÇÃO QUE FALHA
Enquanto isso, os professores de Salvador saem às ruas pedindo o básico: escolas com ar-condicionado, merenda para as crianças e salários em dia. Na última quarta-feira, 25 de março, a rede municipal de ensino foi paralisada. Os educadores cobram o cumprimento de acordos que o prefeito Bruno Reis fez em 2025 e nunca cumpriu. Promessas de climatização? Não saíram do papel. Reajuste salarial? Nem pensar. Merenda escolar? Inadequada. Funcionários terceirizados com salários atrasados? Realidade diária.
E não é só isso. Salvador despencou 31 posições em um único ano no ranking nacional de qualidade da educação. De 312ª para 343ª colocação entre 418 municípios. Agora, a capital está entre as três piores capitais do país em educação, ao lado de Macapá e Natal. Salas superlotadas, estrutura precária, falta de material escolar, falta de fardamento, falta de tudo. Esse é o cenário que o prefeito Bruno Reis construiu para a educação pública de Salvador.
Mas a falha da educação não é só interna, nas escolas. É também no entorno. A violência armada é parte do cotidiano das escolas públicas soteropolitanas. Segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado e da Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, dos 200 dias que devem compor o ano letivo, em média, em 161 deles foi registrado ao menos um tiroteio no entorno de uma unidade escolar de Salvador. Isso quer dizer que, em 81% do ano letivo, as crianças e adolescentes matriculadas em escolas estaduais ou municipais da cidade convivem com a violência armada no entorno de suas escolas.
O relatório revela que 1 em cada 4 tiroteios mapeados na capital baiana ocorre em horário letivo e a até 300 metros de distância de escolas públicas. 43% dos tiroteios ocorreram durante ações ou operações policiais. Isso significa que a polícia, que deveria proteger, é responsável por quase metade da violência armada que cerca as escolas.
E a Prefeitura? Segue omissa. Não se mobiliza para garantir segurança no entorno das escolas. Não estabelece diálogo efetivo com o Estado para que as operações policiais não se aproximem das unidades municipais. O resultado? Crianças traumatizadas. Aulas canceladas. Faltas que comprometem a aprendizagem. Um ciclo de violência e abandono que a Prefeitura permite ao não agir.
E quando essas crianças chegam em casa, voltam para quê? Para ruas sem calçada. Para espaços sem infraestrutura. Como brincar na rua, na própria porta de casa, quando Salvador está no ranking das capitais “sem calçadas”? Onde 7 a cada 10 habitantes moram em vias onde não existem passeios. Áreas verdes? Para quem? Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 8 em cada 10 pessoas que vivem nas periferias de Salvador moram em vias onde não existe uma árvore sequer no espaço público. Sem calçada, sem árvore, sem segurança.
477 ANOS DE QUÊ?
Então não. Não tem nada para comemorar. Não há progresso enquanto Mirella está morta. Não há desenvolvimento enquanto Micael não volta para casa. Não há segurança pública enquanto Geovanna e Joel são nomes que estão em uma lista que cresce todos os dias. Um Estado que abandona a educação é o mesmo que financia a morte. Um Estado que nega merenda é o mesmo que aperta o gatilho. Um Estado que não cumpre acordos com professores é o mesmo que executa crianças nas ruas.
Como podemos ter algo para celebrar quando seguimos enterrando corpos de crianças? Como Salvador completa 477 anos com alegria enquanto mata sua juventude negra? Como o prefeito Bruno Reis fala em progresso enquanto o ano letivo das crianças segue comprometido? Como a Prefeitura não dialoga com o Estado sobre as operações policiais que cercam as unidades municipais?
E sim, a gente repete. Repete os mesmos números, os mesmos nomes, as mesmas denúncias. Porque, para nós, mulheres negras, silenciar não é uma escolha quando se trata de defender nosso futuro. Repete porque Mirella, Micael, Geovanna e Joel merecem ser lembrados todos os dias. Repetimos porque há casos como o de Thamires dos Santos, que a gente ainda está tentando entender o que aconteceu, em quecada dia mais um fato aparece e as investigações não ganham a notoriedade que deveriam. Repete porque há muitas outras crianças negras que o Estado não protegeu.
Como podemos ter algo para celebrar se Salvador é uma cidade que não protege crianças?

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