GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade.


Data de publicação: 10 de set de 2019

GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, v. 92, n. 93, p. 69-82, (jan./jun.), 1988b, p. 69-82.

Em meio à crise político-econômica que assola o Brasil, com a democracia sendo, colocada em xeque e se acirrando cada vez mais os debates sobre o esgotamento desse sistema em todo o mundo, é crescente o grau de questionamentos sobre qual seria o modelo político capaz de garantir governabilidade no Brasil e na América Latina.

Sabemos que sob a égide desse sistema político o país foi forjado na escravidão do povo negro e do povo indígena, que nós amefricanos/as vivemos processos sistemáticos de exclusão justificado por esse ideal de humanidade, igualdade e liberdade. Com isso, muitas têm sido as teses que, seguindo abordagens e experiências desse continente, tentam abrir caminhos e perspectivas em busca de cenários mais favoráveis para os Amefricanos/as que, assim como os que nos antecederam, marcaram fortemente a nossa presença nas Américas.

É neste cenário que apresentamos o texto de Lélia Gonzalez, escrito no final dos anos 80, mas extremamente contemporâneo, por problematizar as teses defendidas envolvendo a formação histórico cultural do Brasil que, por questões de ordem geográfica, linguística ideológica e, sobretudo, do inconsciente tem denegado a nossa ladinoamefricanidade.

assim, me parece da maior atualidade esta categoria político-cultural proposta por Lélia. mais do que nunca, Num momento É um a população negra e indígena nos inserimos nesse debate argumentado que,

Este trabalho aponta certas similaridades na formação histórico-cultural do continente americano, presentes não apenas na língua falada no Brasil, que ela chamou de “pretoguês”, mas também, as músicas, as danças, os sistemas de crenças, que lembram e muito as nossas aqui no Brasil.  Similaridades estas encobertas “pelo véu ideológico do branqueamento”, “recalcado por classificações eurocêntricas do tipo “cultura popular”, “folclore nacional”, etc”, que minimizam a importância da contribuição negra” (p. 70) nessa região, mais especificamente, no Brasil.

Graças ao amplo contato com manifestações culturais negras de vários outros países Lélia criticou duramente o lusotropicalismo, o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento. Argumenta ainda que a “Amefricanidade esteve manifesta nas revoltas, nas estratégias de resistência cultural, no desenvolvimento de formas alternativas de organização social livre, cuja expressão concreta se encontra nos quilombos, cimarrones, cumbres, palenques, marronages e maroon societies, espraiadas pelas mais diferentes paragens de todo o continente (p. 79).

Partindo da observação da influência negra no continente sobre os falares do colonizador, especialmente na costa Atlântica da América Central e no norte da América do Sul afirmou que tais manifestações resultaram, inclusive, na troca do t pelo d, na afirmação de uma Améfrica Ladina, assumindo a partir daí que de fato trata-se de uma região fortemente marcada pela presença e influências indígena americana e negra africana, ao contrário das afirmações fundadas no inconsciente branco europeu.

Fala um pouco sobre esses ocultamentos explicando que, em grande medida, tais manifestações estão atreladas as questões do inconsciente. A partir da categoria objeto parcial desenvolvida por Freud, a autora vai explicar como partes do corpo de uma pessoa, e não o seu conjunto, são tomadas como objeto de amor, chamando a atenção “não só para toda uma literatura (Jorge Amado, por exemplo) como para as manifestações das fantasias sexuais brasileiras” (70), que se concentram no objeto parcial por excelência: a bunda.

Por tudo isso, Lélia se alia a autora que como M. K. Asante e Abdias do Nascimento defendem a ideia de que “uma ideologia de libertação deve encontrar sua experiência em nós mesmos; ela não pode ser externa a nós e imposta por outros que não nós próprios; deve ser derivada da nossa experiência histórica e cultural particular (M.K. Asante, 1988, p. 31, apud Gonzalez 1988)”. Assim, assumindo uma postura que identificamos como de decolonialidade Lélia nos fará uma convite para abandonarmos as reproduções de um imperialismo que massacra não só os povos do continente americano, mas de muitas outras parte do mundo e reafirmar a particularidade da nossa experiência na América como um todo.

Boa leitura

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