Carta para Mulheres Negras: Qual futuro que queremos?


Data de publicação: 29 de ago de 2016

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Por Luciana Brito

O feminismo negro surgiu para mim como resposta a um vazio, que era provocado por um não lugar. A sofisticação do debate das mulheres negras feministas foi a resposta que faltava para que eu entendesse que as minhas peculiaridades não envolviam, por exemplo, o direito ao mercado de trabalho.

A experiência das mulheres negras nas Américas perpassa pela exploração dos nossos corpos em todos os níveis. Como bem mostrou Angela Davis em Mulher, Raça e Classe, as mulheres negras nas Américas, desde sempre foram trabalhadoras escravizadas ou libertas. Em relação às noções de trabalho apropriado “para uma mulher”, devido ao corpo feminino ser supostamente mais frágil, tais convenções de gênero não se aplicavam a nós. Mulheres negras trabalharam nas lavouras, no trabalho pesado das cidades, pouco importa se doentes, se grávidas ou se eram meninas.

Como mulher negra, jovem e trabalhadora, o desemprego, ou o trabalho precário, era um problema. A nossa experiência no mundo do trabalho é marcado por condições desiguais de pagamento de salário, direitos e equiparação salarial em relação aos homens brancos, mulheres brancas e homens negros. Ainda tomando Angela Davis como referência, foi através do feminismo negro que entendi o imaginário da sociedade sobre o corpo negro e feminino em outra dimensão da exploração, que é a sexual. Ao mesmo tempo que desempenhamos o “trabalho pesado”, ainda hoje, recai sobre nós uma ideia de corpo que não é nosso e sexualmente explorável. Isso não significa obviamente dizer que, quando nossos corpos estão em movimento,  tenhamos direito a expressar nossas subjetividades, sexualidade e autonomia.

Esta condição, que muitas vezes nos faz sentir ora tão distante da experiência dos homens negros, ora tão distante da experiências das mulheres brancas, dada as nossas especificidades, foram iluminadas pela minha primeira leitura do feminismo negro, a obra de Bell Hooks, Ain’t I a Woman, ou, Não sou eu uma mulher? Nesta obra, Bell Hooks fez uma avaliação primorosa da condição das mulheres negras tomando como metodologia o princípio da insterseccionalidade,  que é o cruzamento das condições raciais e de gênero. A interseccionalidade serve para revelar como ser negra e ser mulher, além de ser trabalhadora, são categorias que tornam nossas experiência tão específicas a ponto de nos permitir perceber que estamos numa posição de maior vulnerabilidade. A solidão, além do imaginário social carregado de estereótipos sobre o que viria a ser uma mulher negra, também são minuciosamente debatidos por esta autora.

Mulheres, sabemos que debates como este não são somente debates teóricos. Sabemos da sua fundamental importância não só para entender o nosso lugar na sociedade, mas também porque sustentam nossa bandeira de luta contra o racismo, o sexismo, a lesbofobia e a violência (feminicídio).

Lélia Gonzalez, a partir de um referencial intelectual, mas também das ruas, da sua atividade militante ao lado de homens e mulheres negras das periferias, nos revelou minuciosamente as armadilhas do racismo “à brasileira” e também a riqueza cultural e política da experiência do povo negro nas Américas, aquilo que chamou de Amefricanidade.

Luiza Bairros, nossa ancestral recente, que dedicou sua vida à luta contra o racismo no Brasil, assim como Lélia, ao longo da sua trajetória afirmou o “nosso feminismo”, belo, combatente,  específico, negro como nós. Luiza negou-se a, sob uma capa de homogeneidade, ocultar o lugar que nós, mulheres negras, desempenhamos numa condição de protagonistas, não só no combate ao racismo e ao sexismo, mas também no caminho de uma sociedade mais justa.

Portanto, a partir das casas, das ruas, das universidades, das periferias, em qualquer lugar que estejamos, estamos produzindo, nas letras, na escrita, nas artes e no combate, as alternativas de luta contra o feminicídio, o racismo institucional, o controle dos nossos direitos reprodutivos e da violência física e psicológica que nos mata todos as dias. A primeira Marcha Nacional das Mulheres Negras, que aconteceu em Brasília em 2014, é a amostra da nossa força e certeza do que queremos.

Protagonistas do legado de luta do povo negro no Brasil, quando afirmamos que “nossos passos vem de longe”, queremos dizer que a luta é por tantas e tantos que vieram antes de nós. Além disso, essa luta também é por nós e pelas que virão. Queremos que as mulheres negras vivam numa sociedade mais democrática, menos desigual e que respeite plenamente seus direitos, sobretudo, o direito à vida.

Como essa carta é também uma carta de amor, acredito que lutamos hoje para que as mulheres negras do futuro tenham menos lutas, mas a mesma força. Enfim, que no futuro tenhamos mais liberdade.

Com amor,

Luciana Brito

Historiadora

Militante do grupo de Mulheres do Movimento Negro Unificado

Integrante da Rede de Mulheres Negras da Bahia

Integrante da Campanha #paremdenosmatar

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