Entre Nós – Quem ensina quando ninguém fala sobre sexo? Juventudes negras discutem saúde sexual

Por Núcleo de Juventudes Negras Odara*
É comum que as experiências das juventudes sejam atravessadas por fantasias construídas a partir da oralidade e da escuta muito antes de iniciarmos a vida sexual. A gente ouve nos corredores da escola, muitas vezes em casa, nas conversas entre amigas e amigos, nas músicas que tocam na rua, no rádio, no trio elétrico e por aí vai.
Mas educação sexual ainda é um assunto não discutido dentro das salas de aulas ou com nossas famílias e por isso muitos jovens não conseguem ter o entendimento sobre sexo e sua sexualidade. Os dados Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE – 2024) mostram que, embora adolescentes tenham acesso a informações sobre saúde sexual, esse conhecimento nem sempre se transforma em práticas de prevenção: entre os estudantes de 13 a 17 anos que já haviam iniciado a vida sexual, 38,3% não usaram preservativo na primeira relação.
Com tantos tabus ao redor do tema, fica parecendo que não falar sobre sexo, vai fazer com que adolescentes e jovens não vivenciem seus desejos e afetos, mas a gente bem sabe que não é bem assim. A falta de educação sexual e a forma como muitas famílias são conservadoras sobre o tema, faz com que essas pessoas iniciam suas vidas sexuais sem compreensão de limites, prevenção e cuidado.
Além disso, raça e gênero são dimensões centrais para compreender como as juventudes vivenciam a sexualidade, acessam informações e constroem relações com seus corpos e desejos.
Trazemos a reflexão de dois lugares opostos que são construídos e difundidos a partir das expectativas de raça e gênero. O que acompanhamos são os reforços de masculinidade construído a partir da ideia de posse, controle e de dominação dos corpos femininos, acompanhamos a hipersexualização de corpos de meninas negras e diversos outros atravessamentos pautados em raça e gênero que, junto às narrativas de heteronormatividade, vão construindo imaginários sociais movidos por lógicas sexistas que separam meninos e meninas entre predadores e caças. Junto a isso, a exposição a pornografia desde muito cedo faz com que meninos aprendam a se relacionar de forma nada saudável, enquanto os corpos feminilizados são podados, conservados no silêncio e no não acesso a informações e cuidados.
E sabemos bem que o silêncio defende a violência, o abuso e a exploração.
Falar sobre educação sexual é centralizar a prevenção, o cuidado e o respeito, é também falar sobre prazer, sem que isso se torne tabu. Educação sexual ajuda a ampliar o entendimento de adolescentes e jovens sobre consentimento, limites. Como identificar violências quando não se fala sobre isso? Defender a educação sexual é defender que meninas jovens sejam capazes de compreender e decidir sobre seus corpos, sobre suas relações, sobre como suas vidas sexuais começam e quando. Fortalecer autonomia e possibilidades de escolha deve ser um compromisso coletivo, do Estado, da escola, da comunidade e da família.
Falar sobre sexo não devia ser vergonhoso, nem vulgar, falar sobre sexo não deveria nos chocar, o que realmente deveria nos chocar são os abusos que meninas sofrem em todo Brasil, o que realmente é vulgar é a impossibilidade de evoluir com o debate sobre a descriminalização do aborto no Brasil.
Se bem sabemos que o silêncio não nos defende, é hora de nos armar com a comunicação e a educação para que possamos criar meios de proteção real.
*O Núcleo de Juventudes Negras Odara fortalece a autonomia, a organização e a incidência política das juventudes negras na construção coletiva do Bem Viver. Esse texto faz parte da campanha “Entre Nós – Juventudes negras discutem saúde sexual”

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