Chacina de Cajazeiras: Operação da Polícia Militar deixou nove homens negros mortos em Salvador (BA)

*Por Redação Odara
Sem registro de policiais feridos, caso exige investigação independente sobre as circunstâncias das mortes e a atuação dos agentes envolvidos.
Nove homens negros foram mortos na tarde de 15 de setembro (quarta-feira) durante uma operação do Batalhão de Patrulhamento Tático Móvel (BPATAMO), da Polícia Militar da Bahia, em Cajazeiras, bairro periférico de Salvador. Segundo a versão oficial, todos foram atingidos durante um confronto, socorridos ao Hospital Eládio Lasserre e não resistiram aos ferimentos. Nenhum policial ficou ferido.
O que aconteceu em Cajazeiras não pode ser tratada como mais uma ocorrência policial encerrada sob a justificativa genérica de “confronto” ou “combate ao crime organizado”, uma operação onde nove pessoas são mortas tem nome: é uma chacina. A dimensão da operação, o número de mortos e a ausência de qualquer policial ferido exigem investigação independente, transparência e responsabilização,.
A versão apresentada pelas forças de segurança não responde a uma questão central: se, segundo a própria polícia, os homens estavam fortemente armados e houve troca de tiros, como nove pessoas foram atingidas de forma fatal sem que um único agente do Estado tenha sido ferido? É realmente exitoso que todos os policiais tenham tido suas vidas e integridade física preservadas, mas chama a atenção que, num cenário em que ambas as partes estavam fortemente armadas e em confronto, só um lado tenha atingidos pelos disparos supostamente trocados. A completa assimetria entre nove mortos e nenhuma baixa policial não pode ser naturalizada. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, a proporção nacional de baixas em confronto foi de 47 civis mortos para cada policial assassinado. Na Bahia, estado com a maior disparidade, a relação atingiu 523 vítimas civis por agente morto. É preciso romper com a lógica que transforma a narrativa do confronto em justificativa automática para mortes provocadas por agentes do Estado, especialmente em territórios negros e periféricos.
As circunstâncias das mortes, a atuação dos agentes envolvidos e a cadeia de comando responsável pela operação precisam ser investigadas com rigor, para que seja apurados indícios de execução, considerando que o Estado brasileiro não tem pena de morte para civis “em tempos de paz”. A versão policial não pode, por si só, encerrar a apuração de uma ação que terminou com nove pessoas mortas.
DE ONDE VÊM AS ARMAS?
Outro elemento agrava o caso. Entre os materiais apreendidos durante a operação está uma placa de colete balístico que, segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, pode ter sido desviada do Exército Brasileiro. O episódio ocorre poucos dias depois da divulgação de uma investigação envolvendo um cabo do Exército, lotado em Salvador, suspeito de negociar armas, granadas e munições de fuzil com organizações criminosas.
A proximidade entre os casos coloca uma pergunta que precisa estar no centro do debate sobre segurança pública: de onde vêm as armas de alto calibre e os equipamentos de uso restrito que abastecem os conflitos armados entre organizações faccionadas nos territórios?
Não é possível continuar tratando as periferias como origem exclusiva da violência enquanto investigações, conduzidas pela Polícia Civil, Ministério Público e STF, indicam desvios de parte relevante de armas e munições dentro das corporações armadas do próprio Estado.
É preciso investigar quem vende, quem fornece, quem desvia e quais caminhos permitem que armamentos e equipamentos de uso restrito às instituições militares cheguem às mãos de organizações criminosas. Sem enfrentar essa cadeia, o Estado atua apenas na ponta do problema e, repetidamente, essa atuação termina com corpos negros no chão.
SEGURANÇA PÚBLICA NÃO PODE SER POLÍTICA DE MORTE
A Chacina de Cajazeiras expõe, mais uma vez, os limites de uma política de segurança pública baseada na militarização, no confronto e na produção reiterada de mortes em territórios negros e periféricos.
Quando operações policiais terminam com múltiplas mortes e essas mortes são imediatamente apresentadas como resultado inevitável de confrontos, a letalidade policial passa a ser naturalizada como resposta legítima do Estado.
O direito à segurança não pode significar autorização para matar. É necessária a abertura de uma investigação independente sobre a operação em Cajazeiras, com perícia isenta, preservação das provas e apuração da cadeia de comando. A Secretaria da Segurança Pública da Bahia também deve dar transparência aos laudos periciais e esclarecer publicamente a origem da placa de colete balístico apreendida.
As investigações sobre possíveis desvios de armamentos e munições de instituições militares também precisam avançar com transparência e responsabilização.
Os nove homens mortos foram identificados como Aldemir Júnior Teixeira do Amaral, André Luís Santos de Jesus, Eduardo Santos de Alcântara, Ronald Batista Reis da Silva, Wesley da Silva Pimentel, William Couto Neves, Marcos Vinícius dos Santos Barbosa, Adalberto de Jesus Neto e Yuri dos Santos Dias.
Seus nomes não podem desaparecer sob uma estatística ou ser reduzidos ao rótulo de “suspeitos” como justificativa para suas mortes. Cabe ao Estado investigar, produzir provas e garantir o devido processo legal.
A Chacina de Cajazeiras exige respostas. Exige esclarecer como nove homens foram mortos em uma única operação sem que nenhum policial tenha sido ferido e isso não configure execução. Exige investigar a origem dos armamentos apreendidos e enfrentar as redes que permitem sua circulação. E exige colocar em debate uma política de segurança que continua produzindo morte nos territórios negros e periféricos.

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