Um ano sem Kaíque Reis: Adolescente de 16 anos foi morto durante uma ação da Polícia Militar no bairro de São Marcos, em Salvador (BA)

Três policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público da Bahia, que aponta que adolescente foi morto sem possibilidade de defesa
Por Redação Odara
Nesta segunda-feira, 28 de setembro, completa-se um ano da morte de Kaíque Reis Santos, de 16 anos, morto durante uma ação da Polícia Militar no bairro de São Marcos, em Salvador (BA). Um ano depois do acontecimento, três policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), que aponta que não houve confronto e que o adolescente foi morto sem possibilidade de defesa.
Na manhã de 28 de setembro de 2025, Kaíque havia saído para comprar pão quando encontrou policiais militares que realizavam uma ação na região. Segundo as investigações, ao perceber os agentes armados, o adolescente levantou as mãos e ficou de costas, em sinal de rendição. Mesmo assim, teria recebido uma ordem para correr.
Kaíque foi atingido por três disparos. O primeiro atingiu sua perna enquanto corria. Já ferido, ele foi atingido por outros dois tiros em um beco. Laudos periciais e depoimentos reunidos na investigação indicaram que não houve troca de tiros. Na mesma ação, Mateus Daniel Chagas da Silva, de 21 anos, também foi morto.
Após as mortes, os policiais afirmaram que as vítimas haviam sido atingidas durante um intenso confronto. As investigações, porém, apontaram indícios de alteração da cena do crime para sustentar essa versão.
Os avanços nas investigações também são resultado da mobilização e da pressão da família e da comunidade, que se organizaram desde o início para reunir vídeos, fotografias e testemunhos que contribuíram para contestar a versão apresentada pelos policiais e para a produção de provas sobre o que aconteceu naquele dia.
A cobrança por uma investigação rigorosa também mobilizou organizações de defesa dos direitos de crianças, adolescentes e jovens negros e alcançou entidades internacionais, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que se posicionou publicamente cobrando a apuração do caso. Na noite desta segunda-feira (28), familiares, amigos e ativistas realizaram um ato relembrando o caso.
Em julho de 2026, a Operação Vinculum cumpriu mandados contra policiais investigados pelo caso. Em 10 de setembro, o MP-BA denunciou formalmente os policiais Jamile Maiara Reis dos Santos, Arailton Climerio Ferreira Junior e Tiago Costa Oliveira por homicídio qualificado. Também foi apurada suspeita de fraude processual. A denúncia representa um avanço na busca por responsabilização, mas não encerra a luta por justiça. Kaíque tinha 16 anos. Saiu de casa para comprar pão e não voltou.
Um ano depois, sua morte expõe mais uma vez as consequências de uma política de segurança pública que coloca jovens negros e moradores das periferias sob constante risco da violência de Estado. O caso também evidencia a necessidade de questionar quando as mortes causadas pelos policiais são sempre justificadas por “confronto” dentro da comunidade, mesmo que as provas não comprovem a ação.
O enfrentamento à violência de Estado exige mais do que respostas depois das mortes. Exige uma transformação profunda da política de segurança pública da Bahia, com controle da atividade policial, investigações independentes e rigorosas, responsabilização quando comprovados crimes e políticas que tenham a preservação da vida, principalmente da juventude negra.

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