Existe “trégua” para o Nordeste de Amaralina?

Após a morte do policial Glauber Rosa Santos, ao menos doze pessoas já foram mortas no bairro Nordeste de Amaralina, em Salvador (BA)
Por Redação Odara
Na madrugada do dia 3 de fevereiro, após os festejos de Yemanjá, até o momento, doze pessoas foram ceifadas sumariamente no Complexo do Nordeste de Amaralina em uma nítida ação de represália à morte do policial militar, o cabo Glauber Rosa Santos, de 42 anos.
Moradores afirmam que, após a operação policial que originou o confronto armado e, consequentemente, a morte do PM, o Complexo tem sido palco de um policiamento ostensivo, tiros constantes, restrição da circulação de ônibus, escolas fechadas e serviço de saúde afetado. De acordo com informações divulgadas até o momento, doze pessoas foram mortas, sendo cinco adolescentes, com idades entre 16 e 17 anos, e três jovens adultos, na faixa etária de 18 a 32 anos.
A presença majoritária de adolescente entre as vítimas evidencia de forma incontornável a dimensão da violência praticada. A morte de adolescentes em operações policiais não pode ser naturalizada, trata-se de grave violação ao direito à vida e ao princípio da proteção integral assegurada pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O delegado-geral da Polícia Civil do estado da Bahia, André Vianna, anunciou de maneira explícita que “não haverá trégua até que todos sejam levados à justiça”, contudo, é o terceiro dia de operações sem que sequer uma pessoa seja presa e levada para averiguação das autoridades. Pelo contrário, o que o Complexo do Nordeste de Amaralina tem experimentado nos últimos dias é a lógica do estado de exceção permanente que mobiliza todo o aparato repressivo para executar uma retaliação que dispensa julgamento ou presunção de inocência, afinal de contas, o saldo da operação “de inteligência” segue sendo a contagem de mais e mais corpos.
Enquanto a morte de um policial comove autoridades e justifica operações de guerra, as oito vidas interrompidas não passam de estatísticas que naturalizam o genocídio: não possuem nome, direito de defesa ou memória. As pessoas que residem e circulam pelo Complexo também não são dignas de zelo, trégua ou de tranquilidade, o Estado opta por violar a comunidade, expondo todas as pessoas a um conflito armado e a uma série de restrições de direitos em nome de, segundo o próprio secretário de Segurança Pública da Bahia, Marcelo Werner, “dar a resposta e alcançar ‘esses’ criminosos”.
Essa não é a primeira e nem a última chacina produzida pela Polícia Militar da Bahia sob o comando dos governos petistas. O Odara – Instituto da Mulher Negra tem denunciado nos últimos anos uma série de violações letais aos territórios marginalizados de Salvador: Chacina da Valéria, Chacina de Fazenda Coutos, Chacina da Gamboa, Chacina do Cabula.
Neste país que se diz democrático, territórios negros e periféricos seguem sendo alvos de uma necropolítica que escolhe quem deve morrer e quem pode viver, ditando também sob quais condições essas pessoas devem viver. Aparentemente, o governo do estado da Bahia escolheu submeter toda uma comunidade ao medo, ao caos, ao terror e à morte.
Esta matéria está em atualização devido ao surgimento de novas informações sobre o caso.

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