Odara realiza encontros de fortalecimento de identidade e protagonismo de Meninas Negras na Bahia

*Por Brenda Gomes e Joanna Bennus | Redação Odara
O mês de maio marcou um reencontro especial para o projeto Ayomide Odara. Meninas, adolescentes e jovens acompanhadas pelo projeto do Odara – Instituto da Mulher Negra participaram de encontros presenciais em Salvador e em Seabra, transformando a rotina das telas em momentos de afeto e construção coletiva.
Os encontros, que acontecem semanalmente de forma virtual e dão espaço a trocas sobre as vivências das meninas em seus territórios, abriram caminho para abraços, sorrisos e conexões que vão muito além das fronteiras digitais. Neste primeiro ciclo presencial de formação, as participantes mergulharam em oficinas de teatro e comunicação, como ferramentas para o fortalecimento de suas trajetórias.
TERRITÓRIOS DE TROCA E APRENDIZADO
O encontro na capital baiana ocorreu no dia 30 de maio, reunindo as Ayomides de Salvador, Região Metropolitana e Recôncavo Baiano, na Casa das Histórias de Salvador. Iasmin Gonçalves, coordenadora da Escola de Ativismo e Formação Política Beatriz Nascimento, que também contribuí com a formação das Ayomides, comenta que o momento foi uma oportunidade única de expansão. “Juntas, a comunicação e o teatro funcionam como ferramentas de ampliação de mundo: criam espaços de experimentação, imaginação e pertencimento, nos quais as meninas e adolescentes negras podem sonhar e projetar futuros possíveis.
Já no território da Chapada Diamantina, o encontro aconteceu no Instituto Federal da Bahia (IFBA), campus Seabra, no dia 23 de maio. Tanto em Salvador, quanto em Seabra, este primeiro momento presencial do ano foi um exercício prático de cidadania e autorreconhecimento. A pedagogia do projeto utilizou a arte e a comunicação como porta de entrada para discussões profundas sobre direitos e identidade.
“As oficinas contribuem para o desenvolvimento, o autorreconhecimento e o fortalecimento da autoestima das meninas, em todos os âmbitos da vida. A partir do teatro e da comunicação, entendemos que há um caminho de abertura para os outros eixos e linguagens.”, destaca Débora Campelo, coordenadora do projeto Ayomide Odara.
O Ayomide Odara atua na base da formação política de meninas e adolescentes negras, compreendendo que suas infâncias e juventudes são atravessadas por desafios estruturais, mas também por uma imensa capacidade de reinvenção. O projeto se estrutura em eixos temáticos que conectam saúde, sexualidade, direitos e comunicação, sempre sob a luz da Lei 10.639/03, que combate o apagamento de identidades negras desde cedo.




TEATRO E COMUNICAÇÃO PARA A TRANSFORMAÇÃO
Durante a Oficina de Teatro, a professora Liz Novais ressaltou que o corpo é o maior acervo de memória que possuímos. Para ela, as dinâmicas teatrais permitem que as meninas ressignifiquem o amor, retirando-o apenas do campo romântico e colocando-o como um lugar de pertencimento e autoestima coletiva.
“As experiências com jogos, com as dinâmicas do teatro, criam outras camadas de percepção com as meninas, para além das narrativas, do discurso, de estar conectado com o nosso corpo e com nós mesmas, enquanto coletivo, a partir dos jogos teatrais, das dinâmicas de integração e liberação. A gente compreende, na linguagem teatral, que o corpo é importante também. O quanto o caminho de criação, mas também o caminho expressivo.”
Liz enfatiza que as aulas presenciais são espaços de expressividade onde o reconhecimento individual se funde ao agrupamento, criando uma rede de afeto e articulação política. “Precisamos estar juntas para ativar nossa capacidade de nos percebermos em afeto e nos reconhecermos como pessoas capazes de interferir na própria realidade e no local onde convivemos, especialmente diante de outras meninas e mulheres.”
Durante a Oficina de Comunicação, focada na apropriação de ferramentas audiovisuais, as Ayomide puderam aprender sobre planos e enquadramentos das imagens, além de serem provocadas a pensar em como seus corpos são atravessados pelo afeto e pela política. Jamile Novaes, jornalista e facilitadora da oficina, enfatizou que “trabalhar a comunicação em diálogo com os demais eixos do projeto permite que as meninas criem suas próprias narrativas sobre o que estão aprendendo. Isso ajuda a apreender a aplicação prática das técnicas, permitindo que elas expressem suas ideias para o mundo de forma consciente e politizada.”




VOZES DAS AYOMIDES
O impacto dessa formação ecoa nos depoimentos das participantes, que conectam os aprendizados técnicos às suas realidades ancestrais. Thainá Maria, 16 anos, da comunidade quilombola de Olhos da Aguinha, do município de Boninal, na Chapada Diamantina (BA), ressalta que “a memória nos faz lembrar o que nossos antepassados sofreram para nos dar coragem de lutar hoje”, vendo na imagem um registro fundamental dessa jornada.
Para Lohanny Silva, de 13 anos, da comunidade quilombola do Agreste, em Seabra (BA), que o projeto é um espaço de cura para dores como o bullying, permitindo que ela reflita sobre sua história com orgulho. “Pensar sobre a minha história, que meus antepassados já passaram por tudo isso, é uma coisa bem marcante.”
Em Salvador, o sentimento de renovação é compartilhado por Maria Eduarda Costa, de 15 anos, que já projeta uma carreira na comunicação. “Eu gosto muito do trabalho com fotos, com imagens, com redes sociais. Então foi muito gostosinho fazer isso, é o que eu pretendo seguir futuramente. E é sempre bom transmitir o que a gente sente, o que a gente pensa através da foto, para outras pessoas, para que o público veja. E fazer isso com outras meninas é maravilhoso, é muito gostoso porque as meninas são incríveis.”
Malika Correia, de 12 anos, enfatizou a importância de estar entre professoras e colegas negras para fortalecer sua autoimagem. “A oficina me fez pensar que a sua imagem deveria ser construída a partir do que você acha de você mesma, e não a partir do que os outros acham de você. E que antes de você tentar se moldar ao que as outras pessoas gostam, você deveria primeiro se moldar ao que você quer de você mesma”, conta.
Beatriz Oliveira, de 12 anos, resume o espírito do encontro. “O Ayomide me ensina sobre minhas antepassadas e me ajuda a me sentir melhor. Antes eu era muito insegura, mas agora tenho vontade de cuidar de mim, de me expressar e de elogiar as outras pessoas sem medo.”
Os encontros em Salvador e Seabra reafirmaram que o fortalecimento dos laços e o aprofundamento dos eixos temáticos garantem que essas meninas e adolescentes negras não sejam apenas espectadoras, mas as cineastas, atrizes e autoras de um futuro onde suas identidades são celebradas e seus direitos plenamente garantidos.

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