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Da engrenagem de violência contra a mulher ao futuro sem medo

Como parar esta engrenagem de violência e morte? Como sensibilizar as famílias, as comunidades e o Estado para o compromisso prioritário de garantia da vida das mulheres? Como incidir para que os marcadores de raça, classe, idade, território e sexualidade deixem de atuar como sentenças de maiores vulnerabilidades?

POR ALANE REIS E JOYCE SOUZA LOPES

Texto escrito para o Le Monde Diplomatique Brasil

O padrão racista e patriarcal do mundo moderno instaurou nas sociedades uma lógica seletiva de comoção com a dor, a morte e a tragédia humana. O Brasil, que entre seus mitos de nacionalidade carrega o imaginário de um povo solidário, sensível e acolhedor, convive historicamente em quase silêncio com a violência que atinge desproporcionalmente os grupos minorizados – sobretudo a população negra, as mulheres, a comunidade LGBTQIAPN+, os povos tradicionais e todos os “Outros” do homem branco cis hétero adulto.

Nunca foi fácil ser mulher no Brasil, mas, no que tange às violências de gênero, há uma percepção coletiva de que vivemos um cenário a cada dia pior, e os dados atestam. No último mês de abril, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) registrou redução de 42,7% de homicídios dolosos no primeiro trimestre do ano, em comparação com o mesmo período de 2016. Porém, ao recortarmos o crime de feminicídio no montante, o fenômeno segue rota contrária: registrou-se em 2025 o maior número da última década; nos últimos cinco anos, o aumento foi de 14,5%, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2026).

Ao ampliarmos as lentes, podemos perceber que a violência letal é a ponta de um iceberg. Sofrer violência é praticamente uma condição sine qua non de ser mulher no Brasil, já que, somente entre 2024 e 2025, 37,5% das brasileiras – 27,6 milhões de mulheres – foram vítima de pelo menos um tipo de violência (física, sexual ou psicológica) por parceiro íntimo, como aponta o relatório “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil – 5ª edição” divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Datafolha.

Como o patriarcado é essencialmente racista, meninas e mulheres negras são a maioria entre as vítimas: nos registros de violência doméstica, 58,5% do contingente, segundo o Atlas da Violência 2026; nos casos de feminicídio, com 62,3% dos episódios entre 2021 e 2024 (FBSP, 2026); e, nos casos de estupro contra mulheres adultas, 55,6% do total, dos quais 65% ocorreram dentro de casa, e quase metade dos agressores (45,5%) eram familiares das vítimas, como aponta o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2025.

Pesquisas não faltam para demonstrar a tragédia da crescente violência contra as mulheres e o recrudescimento de seus métodos e requintes de crueldade, mas é preciso ir além do reconhecimento e até da denúncia – procurar ajuda especializada ainda não garante a segurança das mulheres, já que, em 2024, 13,1% das vítimas letais estavam sob medidas protetivas (FBSP, 2026).

Comprometidas com a transformação social, o que nós, ativistas e pesquisadoras dessa agenda, queremos saber é: como parar esta engrenagem de violência e morte? Como sensibilizar as famílias, as comunidades e o Estado para o compromisso prioritário de garantia da vida das mulheres? Como incidir para que os marcadores de raça, classe, idade, território e sexualidade deixem de atuar como sentenças de maiores vulnerabilidades?

A dificuldade da tarefa se agrava ainda mais diante do contexto de crescimento do conservadorismo, da misoginia e da cultura red pill, provenientes da onda fascista do bolsonarismo, que nos despende ainda mais reatividades machistas em relação ao avanço da autonomia feminina. Em uma perspectiva generalista, estamos mais determinadas e condicionadas a findar relações abusivas ou violentas, ao passo que os homens – e aqui novamente de modo geral, afinal estamos tratando de uma coletividade em proporção continental – não acompanharam o ritmo de nossas conquistas e ainda buscam validar uma constituição conjugal e familiar patriarcal em que eles são detentores de nossa posse e livres para ser violentos quando acharem necessário, ou seja, quando fugimos de seus padrões de controle.

Aqueles que romperam com essa normatividade, por sua vez, estão acomodados em uma espécie de pacto masculino de silenciamento. Sabe o pacto narcísico da branquitude, que Cida Bento definiu como o silêncio e a cumplicidade das pessoas brancas sobre sua própria raça para manter privilégios históricos? Com a masculinidade é semelhante, até porque foram especialmente os homens brancos que estabeleceram esse padrão de comportamento coletivo racial de masculinidade violenta.

De modo geral, o feminicídio não afeta os homens, não comove, não emociona, não choca, pois eles foram forjados num padrão de execução de violência. Os meninos brincam de arma, de matar, de guerra, de polícia e ladrão, de luta… o tempo todo! São treinados desde a infância para a naturalização da violência ou a permissividade dela. Na vida adulta, eles vão reproduzir isso com quem? Como vão estranhar a reprodução da violência?

Mesmo os homens mais críticos parecem se chocar somente com o requinte de crueldade em seu nível mais absurdo. Ou se afetam tão somente “por suas mulheres” – a mãe, a filha, a irmã, e olhe lá… São raríssimos os homens que fazem como seu Luiz, lavrador do município de Irecê, na Bahia, absolvido no final do ano passado em tribunal do júri por tentativa de homicídio, após defender a filha grávida do marido agressor, reagindo à violência do rapaz com oitenta chibatadas.

E, antes que um leitor enviesado sugira que, ao citarmos a reação desesperada de um pai para proteger a filha, estamos estimulando o rompimento com o bom senso e a legalidade, já adiantamos que não se trata disso. Na verdade, chamamos a atenção para o fato de que a maioria dos homens não faz muito menos que seu Luiz em se posicionar e se comover verdadeiramente com a dor das mulheres que estão dentro ou fora de seu ciclo de convivência; não se mete na briga do amigo que grita, humilha, trata mal e, no limite, bate na namorada; segue rindo ou no máximo fica em silêncio, diante de “piadinhas” que inferiorizam as mulheres; e até os mais progressistas não refletem nem tentam romper com os privilégios cotidianos do machismo em sua vida.

Assim seguimos acolhendo umas às outras e lidando com os números alarmantes, que no dia a dia tomam forma de manchetes dolorosas, mas também representam uma angústia feminina cotidiana, sobre nossa segurança e a de nossas filhas, mães, tias, primas, sobrinhas, amigas, das mulheres que convivemos e das que não conhecemos. Diariamente pensamos em como parar essa engrenagem de violências, que encontrou terreno fértil no conservadorismo e constituiu um cenário epidêmico de vulnerabilidades para as mulheres.

®A complexidade do problema exige estratégia coletiva e multidisciplinar

Nessa agenda, costumamos pautar o ciclo da violência contra a mulher, que é o processo entre a intensificação da violência e o apaziguamento na relação conjugal. Mas existe outra engrenagem, que é a das redes de violência, um emaranhado de diversas formas e expressões de violência, mais eminente em comunidades negras, indígenas, pobres – e vulnerabilizadas em geral. Nessas comunidades, todo conjunto populacional está submetido a uma série de violências – estruturais, institucionais, urbanas e familiares –, perpetradas muitas vezes pela ação direta ou pela negligência do Estado.

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), na publicação Racismo e violência contra quilombos no Brasil – 2ª edição (2018-2022), ressalta o fato de que territórios em conflito acentuam as vulnerabilidades das mulheres, e os feminicídios são reflexo das múltiplas violências. Já o Instituto Data Favela, na pesquisa Sonhos da favela 2026, aponta que a violência de gênero é o maior desafio enfrentado pelas mulheres nas periferias, afirmado por 7 em cada 10 entrevistadas para o estudo. O Nordeste foi a região brasileira com a maior proporção dessa afirmação. Então, se a violência é endêmica, as estratégias de prevenção e enfrentamento devem ser múltiplas. Uma mulher com acesso a educação, saúde, assistência, lazer, habitação, trabalho e renda certamente terá melhores condições para enfrentar a violência, que possivelmente será reduzida em sua comunidade justamente pela promoção da cidadania e qualidade de vida.

Ainda que tenhamos avançado na identificação dos tipos de violência de gênero, no reconhecimento do racismo e no emprego da perspectiva interseccional, na prática legislativa e das políticas públicas, pouco ou nada fizemos em termos de medidas de mitigação do problema. O que a Lei Maria da Penha, principal marco jurídico nesse campo, tem de leitura racial ou de território? Absolutamente nada. Avançamos na perspectiva legal do ponto de vista do gênero, mas são os movimentos de mulheres negras e de mulheres indígenas que têm incidido por uma política de prevenção e enfrentamento que proteja, por exemplo, uma mulher quilombola no interior do Nordeste, uma ilhada, uma periférica em território dominado pelo narcotráfico, uma indígena aldeada, tanto quanto ela possa proteger uma mulher branca de classe média de um centro urbano qualquer.

Reconhecendo a necessidade da perspectiva interdisciplinar para enfrentamento da violência, o governo federal lançou em fevereiro deste ano o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, por meio da aliança entre os três poderes da República. O pacto apresenta diretrizes correspondentes a desafios mais recentes, como a violência digital, e expressa maior objetividade na abordagem do público masculino. Porém, temos preocupação em relação à revisão e qualificação dos aparatos legais e de políticas públicas para as mulheres, sobretudo no que diz respeito à superação da padronização, levando em consideração que condições de raça, classe, território e sexualidade potencializam vulnerabilidades.

O plano de trabalho do pacto está em processo de elaboração pelo Comitê de Gestão. É importante que entre as representações do Executivo estejam membros de ministérios elementares para a transversalização da política, como os ministérios da Mulher, de Direitos Humanos e Cidadania, da Justiça e Segurança Pública, bem como a Casa Civil. Porém, é uma grande perda a ausência, até mesmo entre os suplentes, de representantes dos ministérios da Igualdade Racial e dos Povos Indígenas, importantes justamente para tratar das dimensões de identidade, territorialidade e interseccionalidade emergentes na promoção de políticas para as mulheres.

É também um equívoco a ausência de representações da sociedade civil organizada em uma ação dessa natureza, que parte de uma gestão progressista. Para além do poder público, são os movimentos de mulheres que têm acumulado considerável expertise sobre as políticas de proteção e seus pontos mais críticos. Temos uma emergência de efetividade e eficiência do que está posto. Não adianta reproduzirmos a ideia de que temos o que há de mais avançado em legislação se continuamos entre os primeiros países no ranking mundial de violência contra mulher.

®E o que nós, como sociedade civil, estamos fazendo?

A escritora, professora e ativista estadunidense Audre Lorde reflete em diversas obras sobre os danos do machismo para a sociedade, em especial para a comunidade negra. No ensaio intitulado “O filho homem: reflexões de uma lésbica negra e feminista”, publicado em 1979 na revista Conditions: Four, Lorde discute os desafios de educar seus filhos adolescentes, uma menina e um menino negros. A autora discorre sobre sua crença no poder da educação e do amor para ajudar sua filha a se constituir como uma mulher segura, livre e autônoma, mas, principalmente, para ajudar seu filho a se constituir como um homem que recuse a assimilação de sua masculinidade pelo patriarcado branco e jamais enxergue as mulheres como submissas, inferiores e menos dignas de respeito.

Assim como Lorde, os movimentos sociais negros e de mulheres negras, no Brasil, sempre acreditaram no poder da educação como ferramenta de libertação das violências racistas patriarcais. Nesse sentido, nós, do Odara – Instituto da Mulher Negra, há dezesseis anos investimos nossa energia em projetos educacionais para meninas e meninos, crianças, adolescentes e jovens, negras e negros da Bahia – e mais recentemente da Paraíba –, incentivando suas permanências e desenvolvimentos na educação formal, mas não só.

Parte fundamental desse trabalho passa pelo investimento no fortalecimento comunitário, na incidência política e em uma educação para a superação das violências. Nos projetos Quilomba, Ayomidê Odara, Escola Beatriz Nascimento, Alumiar Saberes e Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, buscamos ensinar para meninas e meninos que eles não precisam se encaixar em padrões preestabelecidos de gênero para serem aceitos e respeitados, além de trabalharmos outra reflexão proposta por Lorde: não há hierarquias de opressão.

Também centradas nas lógicas do feminismo negro, buscamos ensinar aos meninos que sensibilidade não lhes rouba a masculinidade e que eles devem refletir sobre o machismo em suas ações, reagindo à violência contra as meninas e mulheres da mesma forma que mulheres negras se unem aos movimentos de enfrentamento da violência policial contra a juventude negra majoritariamente masculina. Além disso, ensinamos as meninas a não silenciarem desconfortos pela manutenção de relações afetivas; a serem altivas e demonstrarem seus interesses, vontades e limites; a identificarem e não romantizarem relações abusivas; e, diante de uma situação de violência, a fazerem o necessário para sobreviver.

Sabemos que somente a educação de nossas famílias e comunidades não terá o poder de parar a engrenagem da violência contra as mulheres, pois isso exige um trabalho e uma responsabilização muito mais amplos de diversos setores do Estado e da sociedade. No entanto, as experiências que compartilhamos aqui nascem de nossa necessidade de reagir a esse fenômeno, de cuidar de nós e das meninas e mulheres que nos cercam, sem abrir mão de nossos meninos, tentando intervir para que as armadilhas do patriarcado racista não os convertam em nossos inimigos. Pois, como nos ensinou Audre Lorde: “Quando imagino o futuro, penso no mundo que anseio para minhas filhas e meus filhos. É como pensar na sobrevivência da espécie – pensar em favor da vida”.

*Alane Reis é jornalista, mestra em Comunicação, coordenadora do Programa de Comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra e coordenadora executiva da Revista Afirmativa; e Joyce Souza Lopes é assistente social, mestra e doutoranda em Antropologia e coordenadora dos projetos de enfrentamento das violências contra mulheres negras do Odara – Instituto da Mulher Negra.

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