A Passageira

Por Maria do Carmo Barbosa Galdino (Madu)

 

Todas as segundas-feiras ela fazia o mesmo percurso da periferia para o bairro opulento da cidade. Entrava no ônibus no mesmo horário, procurava um lugar discreto, próximo à janela. Nas mãos, embolado o dinheiro, que pela cor das notas e moedas tilintando, adivinhava-se ser a conta certa da passagem de ida e volta. Durante o trajeto, seu olhar se perdia pelos caminhos e o pensamento se enovelava na sua cabeça coberta por um lenço pra eles não escaparem. Em um determinado ponto, descia, caminhava alguns quarteirões e se apequenava diante da opulência da edificação em frente a qual, por instantes, retinha os passos. Não se intimidava, seguia, acionava a campainha e adentrava, seguindo a serviçal que a atendia. Por algum tempo ficava lá dentro, sumida do meu olhar curioso que lhe fazia companhia. Quando surgia, vinha debaixo de uma trouxa de roupas que equilibrava sobre a cabeça. Olhar atento ao chão que pisava, calçada com sandálias de solas de pneu. Caminhava elegante como se treinasse para desfile. Desfile da vida exígua que ela vivia. Atravessava a rua, chegando ao ponto do ônibus e aguardava longos momentos, sem um lugar para sustentar a trouxa que permanecia sobre sua cabeça. Assim que a condução apontava ao longe, ela se posicionava para encontrar primeiro lugar para a trouxa que trazia e a seguir, entrar pela outra porta e rapidamente localizar um espaço não muito distante da trouxa com finas roupas entrevistas nas frestas do pano que as cobria. Roupas brancas  amarrotadas, amareladas, manchadas… Seu olhar espalhava nuances no ambiente monocromático daquela condução. Sentava e logo seu semblante denunciava longas divagações. Eu a via em dias alternados equilibrando a trouxa na ida e na vinda. Trouxa que era seu sustento, sua opressão. Aquele amontoado de roupas retornava era mais compacta e pelas frestas entrevia-se a brancura que azulava as roupas. Sempre pensei que o segredo das peças assim tão limpas era o anil dos olhos daquela negra que as lavava.

 

*Maria do Carmo Barbosa Galdino (Madu), professora aposentada de Língua Portuguesa, autora de Mãe Dinha da Mazza Edições, consultora para assuntos de Educação para as Relações Étnicorraciais.

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