Ancestralidade, conexão e resistência marcam Intercâmbio Ayomide na Chapada Diamantina

Durante três dias, as Ayos participaram de atividades de formação política junto às juventudes e lideranças de sete comunidades quilombolas da região

Redação Odara

Para as meninas do Projeto Ayomide Odara, do Odara – Instituto da Mulher Negra, o último final de semana foi repleto de aprendizados e experiências que certamente marcarão as suas vidas. O Intercâmbio Ayomide na Chapada levou as 40 Ayos de Salvador, Recôncavo e Região Metropolitana para encontrar as 35 meninas ayomides das comunidades quilombolas da região da Chapada Diamantina que participam do projeto na modalidade virtual. 

“Estamos reunindo vocês para que se conheçam, conversem e troquem entre si. Um dos objetivos do Ayomide é justamente promover esse intercâmbio de ideias entre meninas negras diversas, para que vocês possam fazer revolução a partir dos lugares onde vocês estão”, explicou Érika Francisca, coordenadora do projeto.

Durante os dias 8, 9 e 10 de dezembro, as Ayos estiveram juntas, vivenciando trocas, descobertas e formação política junto às lideranças das comunidades quilombolas do Agreste e da Vazante, em Seabra (BA). Com uma agenda política de gente grande, nossas pequenas ativistas negras realizaram uma avaliação anual das ações do projeto, participaram de uma plenária de juventudes e de um encontro que discutiu o direito à terra e ao território.

“Nossa revolução só é possível quando estamos juntas”

Já no primeiro momento, durante a avaliação do projeto, a emoção e certeza de propósito político davam o tom do que seriam aqueles três dias de atividades intensas. “É importante vocês estarem todas juntas aqui, porque a gente não faz nada só e precisamos aprender isso desde pequenas. Nossa revolução só é possível quando estamos juntas com outras meninas e mulheres negras que impulsionam a gente a construir sonhos, experimentar realidades”, afirmou Naiara Leite, coordenadora executiva do Instituto Odara.

Amanda Oliveira, mobilizadora das meninas quilombolas do projeto Ayomide Odara e articuladora do Núcleo de Juventude Odara, também falou sobre a sua felicidade em presenciar o desenvolvimento político e protagonismo das Ayos nos diversos espaços ocupados por elas. “É emocionante perceber que através do movimento quilombola e do movimento de mulheres negras nós estamos conseguindo movimentar essas meninas e trazê-las para esse lugar do ativismo. Isso é a realização de um sonho e só é possível graças ao Ayomide”, disse, emocionada.

Avaliação anual do projeto Ayomide Odara

A atividade de avaliação anual do projeto foi mediada pelas ativistas do Instituto Odara, Joyce Lopes, coordenadora dos projetos de combate às violências contra as mulheres negras, e Verônica Santos, coordenadora do Nós por Nós – Projeto de Justiça Reprodutiva do Nordeste. A metodologia utilizada permitiu que as meninas fizessem uma retrospectiva de toda a formação que tiveram durante o ano, avaliando os pontos positivos e negativos, bem como o nível de impacto que o projeto teve sobre cada uma. Ao final, também projetaram o que desejam para a continuidade do Ayomide Odara em 2024.

“Eu entrei no projeto esse ano e me senti muito acolhida pelas outras meninas e pelas professoras. Pra mim o momento mais importante foi a oficina para aprender a cuidar dos meus cabelos. Eu também aprendi que as mulheres negras podem estar em qualquer lugar e que devemos ajudar umas às outras”, contou Amanda Silva, Ayo de 14 anos.

Ayomide e juventude quilombola se organizando para fazer incidência política

Além das trocas entre si, as Ayos também tiveram um momento importante de diálogo com 40 jovens negras e negros de oito comunidades quilombolas da região que se reuniram para uma roda de conversa realizada pelo Núcleo de Juventude Odara. A atividade coordenada pelas articuladoras de juventudes do Instituto Odara, Amanda Oliveira, Beatriz Sousa e Laura Araújo, trouxe uma linha do tempo sobre a construção coletiva que já vinha sendo feita há alguns meses em formato online com a juventude do território. Em seguida, as Ayos e a juventude quilombola se reuniram em grupos menores para discutir as demandas das comunidades em relação a temas como educação, políticas públicas e projetos individuais e comunitários de futuro.

Durante os debates surgiram muitas questões sobre acesso à educação, saúde, trabalho e renda, esporte e lazer para a juventude quilombola. Muitos apontaram a falta de investimento do Estado dentro das suas comunidades e o desconforto em precisar sair dos seus lugares para conseguirem ingressar no ensino superior. “Acaba que nós somos formados por professores brancos que não fazem ideia do que é a realidade de um quilombo. Nós queremos formar professores quilombolas para mudar isso”, comentou um dos jovens presentes.

Plenária de Juventudes

Beatriz Sousa destacou que falar de acessos para a juventude é falar também da possibilidade de escolha e de poder escolher crescer e se desenvolver dentro da sua própria comunidade: “Sair da comunidade para fazer faculdade não pode ser uma regra. É interessante quando vocês falam que querem ser advogadas, engenheiras e cabeleireiras atuando aqui na comunidade. Essa é a noção de território, de pertencimento e de identidade que a gente tem que fortalecer”, afirmou.

Para as Ayos, o momento foi de aprender sobre a realidade, lutas e demandas da juventude dos quilombos e colaborar com a construção de estratégias políticas coletivas. “O que essas  jovens querem ver aqui é oportunidade dentro da comunidade delas. Então é isso que eu quero ver também porque aqui nós damos as mãos umas às outras, então a luta delas também é nossa. A gente pega pra gente e lutamos juntas”, afirmou a Ayo Laila Vitória, de 18 anos.

(Re)conhecendo o quilombo e as lutas das mulheres negras

No domingo (10) pela manhã, nossas Ayos de Salvador, Recôncavo e Região Metropolitana fizeram um passeio pela Comunidade Quilombola do Agreste, guiadas pelas Ayos quilombolas e pelas mulheres negras lideranças da comunidade, Carmelice Rosa da Silva, Delzuita Rosa Santos e Marleide Rosa da Silva, com quem realizaram uma troca intergeracional. 

Percorrendo diversos pontos do Agreste, as Ayos aprenderam sobre as paisagens, a vegetação local e as histórias de luta e resistência dos antepassados. Durante o passeio, Dona Carmelice, que foi a primeira presidente mulher da Associação Quilombola do Agreste, falou sobre o importante papel das mulheres negras para a formação e desenvolvimento da comunidade e expressou sua felicidade em ver as Ayos quilombolas se formando politicamente para se tornarem lideranças. 

Passeio pela Comunidade Quilombola do Agreste

“Quando eu vejo as meninas já na luta é uma felicidade porque eu sei que elas vão dar continuidade ao que nós [mulheres do quilombo] começamos. Com os conhecimentos que elas estão adquirindo e com o apoio da nossa comunidade, eu tenho certeza que daqui a dez anos teremos avançado muito na nossa luta”, afirmou Carmelice.

O percurso foi finalizado do Cruzeiro do Agreste, o ponto mais alto do quilombo, cuja cruz fincada na terra representa um símbolo de fé para os moradores e de onde é possível ver boa parte da comunidade. De lá de cima, as Ayos puderam apreciar a paisagem da Chapada Diamantina e ouvir as histórias sobre como a comunidade se constituiu e se modificou ao longo dos anos. 

Vazante: referência comunitária que mobiliza gerações

A última atividade das Ayos na Chapada Diamantina foi uma verdadeira aula prática sobre os processos de resistência dos povos quilombolas em defesa da permanência em suas terras e direito ao território. Na Comunidade Quilombola da Vazante, as meninas do projeto se reuniram com lideranças comunitárias que há mais de quatro décadas vêm lutando contra as violações de direitos e contra os efeitos devastadores da instalação de uma barragem construída pelo Governo do Estado da Bahia.

A barragem é um projeto antigo, do qual os moradores já ouviam falar há mais de quarenta anos, mas começou a ser construída de fato em 2011. Desde então, foi intensificado o projeto de desmonte e apagamento da comunidade da Vazante. A ordem de desocupação da área onde viviam famílias inteiras, forçou um processo de migração para a cidade de Boninal e outras localidades vizinhas, para abrir espaço para a água que vai inundar e varrer o território onde foram depositados os sonhos de lideranças como Elza dos Santos, Jaime Cupertino, Júlio Cupertino e Paulo Cupertino.

Encontro das Ayos com a comunidade da Vazante

Agora, em 2023, com a obra da barragem avançada e as novas casas construídas em um local fora do fluxo da água, a comunidade da Vazante segue lutando para garantir direitos básicos historicamente negados, como a instalação de água e energia elétrica nas residências. Domingos Cupertino, presidente da Associação Comunitária Quilombola da Vazante e integrante do grupo de trabalho que faz o intermédio entre governo e comunidade, conta que o povo da Vazante tem sido pressionado a se mudar para as novas casas, apesar das instalações não estarem finalizadas. “A gente está resistindo para que tudo seja entregue da forma que foi acordado. Se a gente entrar nas casas como estão agora, temos certeza de que eles [a construtora responsável pela obra] vão sumir e não voltarão para concluir o que falta”, explica Domingos.

Uma das ativistas que protagoniza essa luta por direitos para a Vazante é a Ayo Weslaine Oliveira, de 19 anos. “Aqui na Vazante até as crianças são militantes. Eu sempre fui, aprendi a importância da luta comunitária com seu Jaime Cupertino”, diz. Ela explica também sobre a importância do Ayomide no seu processo de formação enquanto uma jovem liderança quilombola. “Na minha comunidade eu sempre tive apoio, mas o projeto Ayomide Odara foi o impulso que eu precisava para ter coragem de falar, de lutar e de ter orgulho da menina negra e quilombola que eu sou”, afirma.

O Batuque que embala a resistência

O Intercâmbio Ayomide na Chapada Diamantina terminou com uma roda de Batuque na comunidade da Vazante. Com cantigas e percussão ritmada que convidou desde as meninas até as mais velhas a entrarem na roda, o Batuque trouxe a luta, a resistência, a ancestralidade, a alegria e a certeza da continuidade de um legado construído ao longo de tantas gerações.

Roda de Batuque na Comunidade Quilombola da Vazante

Encantadas com a experiência, as Ayos caíram na dança, firmando o compromisso político e a conexão com o território e a identidade quilombola. “Durante esses três dias de conexão e descobertas, a amizade floresceu com uma melodia encantadora, entrelaçando notas de muito aprendizado, superação e alegria. Cada experiência vivida nos presenteou com valiosas lições e enriqueceu nossa jornada”, enfatizou a Ayo quilombola Zenilza Grigória, de 18 anos.

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