Axé, Saúde e Educação: Ilê Axé Oyá Tolá como espaço de cuidado da comunidade de Passagem dos Teixeiras, em Cadeias (BA)

Feira de Saúde acontece neste sábado (18), reunindo profissionais de saúde e rezadeiras em encontro de saberes
*Por Redação Odara
No coração de Passagem dos Teixeiras, em Candeias, na Bahia, o Ilê Axé Oyá Tolá transcende a imagem tradicional de um espaço apenas religioso. Sob a liderança firme e acolhedora da Yalorixá Raidalva dos Santos, o terreiro se ergue como um verdadeiro complexo de desenvolvimento comunitário, onde a espiritualidade se entrelaça indissociavelmente com a educação, a saúde e o cuidado social.
A história do Ilê Axé Oyá Tolá começou a ganhar forma entre as décadas de 1970 e 1980. O terreno, originalmente um vasto laranjal e canavial banhado por águas ricas em mariscos e tainhas. Ao iniciar os trabalhos no terreiro, Raidalva, hoje com 83 anos, entendeu sua posição como uma função de serviço. “Eu vim com uma missão e tô cumprindo, que é cuidar de Orixá e cuidar de gente. Tem coisa melhor?”, reflete a Yalorixá.
Para ela, tomar conta de uma comunidade significa, antes de tudo, ajudar. “É uma troca eterna de energias e gratidão”. Esse sentimento de responsabilidade se volta com força especial para as crianças. Mãe Raidalva acredita que cuidar da espiritualidade na infância é o caminho para formar seres humanos bons, algo que o mundo necessita urgentemente.
Essa filosofia de vida se reflete diretamente na experiência de quem cresce e vive no terreiro. Raislan Reis, Ogan do terreiro, iniciado há 14 anos, tem vivência na casa desde criança. Ele chegou ao terreiro através da avó, que estava sempre buscando folhas e cuidados para pessoas da comunidade. “Quando a gente vive em comunidade, a gente compartilha de tudo um pouco. Ao viver no terreiro você aprende a cuidar, a ser cuidado, você aprende, você ensina, você tem um dia a dia que tem um roteiro que não é escrito, mas é vivenciado em cada momento”, explica Raislan. Ele ressalta que essa vivência na casa prepara para a vida fora dos muros. “A gente aprende que a vida lá fora não vai ser igual a vida no terreiro, mas o aprendizado aqui vai te ajudar a pensar como as coisas acontecem, como você pode ser melhor no trabalho e nos relacionamentos com as pessoas”, afirma.




A CRECHE E O APOIO ÀS MÃES MARISQUEIRAS
Inspirada por seu trabalho no Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira, Mãe Raidalva nutria o sonho antigo de criar um espaço para a infância. O compromisso com as crianças materializou-se de forma grandiosa através da educação. Em Passagem dos Teixeiras, esse sonho encontrou sua urgência na realidade das mulheres marisqueiras. Muitas precisavam levar seus filhos para a maré por não terem com quem deixá-los. Raidalva reuniu as mulheres da comunidade e apresentou sua ideia. O impacto foi imediato: em 2002 a creche do terreiro começou com 35 crianças matriculadas.
O projeto, entregue aos cuidados espirituais de Oxum, transformou a economia local. Mulheres que antes viviam exclusivamente da mariscagem conseguiram empregos formais, sabendo que seus filhos estavam seguros, alimentados e educados no Ilê Axé. O sonho da Yalorixá nasceu, também, da convivência cotidiana com a realidade da insegurança alimentar enfrentada por muitas famílias da comunidade. “Sempre foi um sonho de nossa mãe ter um espaço de cuidar das crianças da comunidade. A quantidade de mães que vinham aqui no pós-festa, no domingo de tarde, saber o que tinha de sobra das festas para alimentar suas famílias era muito grande”, relata Andréa Montenegro, Ekedi da casa. O relato revela um contexto de vulnerabilidade social que atravessava a comunidade e que mobilizou a Yalorixá a construir respostas coletivas para o cuidado das crianças. . “Ela sempre conversava com as mães perguntando como estavam as crianças. E as respostas eram “manga com farinha”, ou “jaca”… Essa insegurança alimentar mobilizou muito ela”, relembra.
Maurício Reis, Ogan de Obaluaê, e filho biológico de Yá Raidalva, foi uma das pessoas fundamentais na estruturação desse projeto. Na época, trabalhando na Diretoria de Proteção à Cultura Afro-Brasileira, na Fundação Cultural Palmares (órgão vinculado ao Ministério da Cultura), Maurício trouxe contatos e conhecimentos que foram essenciais para os primeiros passos da organização. Segundo ele, “a iniciativa da creche foi de fundamental importância, porque muitas crianças, além do acompanhamento com os professores, tinham a garantia de alimentação. Nós temos uma área muito grande aqui dentro de Passagem dos Teixeiras, os moradores têm seus quintais e tudo, mas a fome naquela época imperava muito. Então era uma forma também das crianças estarem estudando e também se alimentando”, relata Maurício.
Mais tarde, preocupada com o avanço da intolerância religiosa e visando proteger as crianças de qualquer preconceito, a Yalorixá tomou a difícil, porém sábia decisão, de transferir a creche para fora dos muros do terreiro. A creche esteve ativa por 10 anos, chegando a atender 569 alunos e mantendo, durante um tempo, parceria com o município.
A ASSOCIAÇÃO, A SAÚDE E A HORTA COMUNITÁRIA
O impacto do Ilê Axé Oyá Tolá extrapolou a educação infantil e se organizou formalmente através da Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá, criada em 2002, com o objetivo de ser um local de apoio comunitário. Vanessa Kehinde, Egbomi iniciada há 18 anos e neta biológica de Raidalva, hoje preside a associação, e relembra do trabalho feito pelo Ambulatório de Saúde, onde aconteciam atendimentos de diversas especialidades. Para ela, “a associação foi de fundamental importância para que a comunidade de Passagem dos Teixeiras se desenvolvesse. É uma comunidade necessitada em vários aspectos, que precisa de atenção. Trazer a associação para a comunidade é sinônimo de força, de respeito e responsabilidade”, afirma.

Embora os projetos da Associação tenham ficado em pausa por algum tempo, a família do Ilê Axé Oyá Tolá trabalha incansavelmente para reativá-los. “Atualmente os projetos da associação estão parados, mas a gente pretende voltar. Estamos organizando inicialmente uma feira de saúde, que vai ser de fundamental importância pra gente reativar os serviços, reativar a assistência à comunidade, porque é uma comunidade que precisa”, explica Vanessa.
Para a jovem líder comunitária, que também é enfermeira, a saúde no terreiro vai muito além do espiritual. “A gente cuida não só da parte espiritual, mas também da saúde. A gente toma um banho de folha, a gente faz um ebó, uma limpeza espiritual, a gente dá um borí, tudo isso a gente cuida da nossa cabeça, cuida da mente, cuida do espírito, mas também da nossa saúde”.
FEIRA DE SAÚDE
Como parte da programação do Julho das Pretas 2026, agenda de incidência política das mulheres negras, a Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá, em parceria com o Odara – Instituto da Mulher Negra realizam a Feira de Saúde do Oyá Tolá, neste sábado, 18 de julho, em Passagem dos Teixeiras (Candeias – BA). Ao longo do dia, a comunidade terá acesso a serviços de saúde convencional (médicos, dentistas, orientações sobre direitos), práticas integrativas de cuidado, atividades para crianças, rodas de conversa e apresentações culturais.
A Feira resgata o trabalho que já era realizado pela Associação e que agora vem sendo retomado. “Resgatar os serviços que antes eram ofertados pelo terreiro para a comunidade vai ser muito satisfatório. É uma forma de cuidar da nossa comunidade de forma efetiva”, diz Vanessa com esperança.
Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Instituto Odara, esta iniciativa se converte em uma estratégia fundamental para o fortalecimento do direito à saúde das comunidades negras. “Representa o reconhecimento do papel essencial que as comunidades de axé desempenham nos cuidados de saúde e na preservação dos saberes ancestrais. É, portanto, uma valorização das práticas de cuidado seculares, mantidas por essas comunidades através do tratamento com folhas e ervas. A partir da atuação do Programa de Saúde da Mulher Negra, temos consistentemente apontado que não é viável construir estratégias eficazes de acesso à saúde sem considerar que as populações e mulheres negras são profundamente impactadas pelos efeitos do racismo, do sexismo, da violência e de outras formas de opressão”.
A iniciativa reafirma os terreiros como espaços legítimos de acolhimento, cuidado e promoção da saúde, fortalecendo o encontro entre saberes comunitários e políticas públicas.

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