Carta para as mulheres negras: Memória e coragem em largos passos adiante

Por Jéssica Ipólito

13435971_10208815153597088_928138926_nEu estou emocionada por contar um pouquinho de minha vida, sister. Por tempos eu fiquei imersa num pálido e vasto campo esbranquiçado cobrindo minha vida como um véu que não me permitia enxergar, perceber, apurar o lugar que pertenço. Eu que passei tanto tempo alisando meus cabelos para que eles parecessem aceitáveis, hoje me sinto constantemente fortalecida por estar perto de outras mulheres negras, por conversar com elas e por escrever para você agora. Meu nome é Jéssica Ipólito, quase vinte e cinco no final deste ano, vivendo na cidade de Salvador, me sinto transbordar por dentro! Há quatro anos eu conheci o feminismo e tão somente a partir do feminismo que eu pude dar o primeiro passo. Logo de cara eu conheci um feminismo feito por e para mulheres brancas e logo eu percebi meu lugar no jogo: não era ali, entre as brancas e afortunadas. Dessa exclusão em espaços políticos, do menosprezo e chacota de minha intelectualidade, compreendi a dimensão do racismo agindo também entre as conscientes das desigualdades sociais, mas  nenhuma sabia o que era sofrer racismo, todos os dias, nos mínimos detalhes. Mas reconheço a importância das mulheres brancas pois me alertaram  para artimanhas patriarcais, que atualmente eu me apropriei de algumas coisas e aprimorei reflexões, conceitos e teorias com a relevância prática e intelectual do feminismo negro, dando sentido a minha vida.

No meio da minha trajetória eu encontrei o movimento de mulheres negras de São Paulo, onde eu me misturei à reuniões partidárias e sindicais, organizações feministas negras, ONGs e militantes autônomas, grupos artísticos e outros, tanto para escutar quanto para construir algo. Foi assim que o início da minha descaracterização de identidade se deu, foi a partir dessas mulheres pretas diversas que passaram por mim, deixando  uma palavra ou  abraço, que a identidade negra  tem se construído mais solidamente em mim.

O racismo tirou da minha família materna toda e qualquer possibilidade de uma subjetividade, de humanidade, de afeto e laços de solidariedade. Uma família preta, composta de irmãos e irmãs,  sete no total, do mais retinto ao mais claro, vidas que nunca tiveram o sabor de bradar orgulhosamente negras pois eram chamados de mulatas e morenas, na triste insistência de desapropriação de seu existir em negritude. É doloroso conviver numa família que se percebe branca, que reproduz racismo contra si mesmas… É doloroso perceber que não consigo mudar as relações intra-familiares pois se formaram sólidos muros entre as pessoas que chega a sangrar-me  quando tento destruí-lo.

Por benção do destino, sister, agora vivencio uma outra forma de conjugação familiar, de outro nível cósmico e ancestral, que me convoca a refletir e à buscar na memória afetiva, respostas concretas a preencher minhas lacunas existências  -essas que eu tento evitar, por teimosia de juventude -;  tem sido um grande desafio ter coragem, o meu melhor: Ser encorajada a ter coragem! Um princípio feminista negro que aponta nosso futuro: Jovens corajosas ao assumir lugares nas mais diversas partes dessa sociedade. Estamos sendo conduzidas por vocês, griôs em vida, a ocupar vossos lugares dignos e ainda nos espalharmos em tantos outros cujo algoz ainda acha que ocupa. Essa é uma das coisas que eu mais penso antes de pegar no sono… Nossos passos vem de longe e eles precisam continuar seguindo pois nós temos uma direção dessa travessia, temos condutoras altivas e combatentes, sábias e experientes no comando, cujos caminhos anteriores já desbravados foram tão áridos e sórdidos para que estejamos hoje nas Universidades, nos órgãos públicos, nos hospitais, nas redes sociais com as mais diversas iniciativas de combate ao racismo e aos sexismo, nas ruas com diversas bandeiras demarcando nosso espaço político como jovens mulheres negras, enfim… Para existirmos como humanas, pessoas de carne e osso, de sangue suor e amor. Esses caminhos já abertos nos coloca na via periférica urbana, campesina, das matas e florestas, em direção ao centro num espiral solidário magnético que puxa as outras, negras e jovens, continuamente.
A você, companheira, seja de que lugar for, saiba que estamos conectadas pela Atlântica na simbologia de Maria Beatriz Nascimento pois me sinto navegante em suas águas que são também um pouco das suas que me lê agora. A manutenção da memória de luta já travada por todas nós é combustível potente para acelerarmos nas nossas compreensões, de forma que possamos aprofundar sob o racismo e seus tentáculos mais sujos impregnados na sociedade brasileira, verificando e adicionando em luta  novas perspectivas.
O que sinto agora é poderoso e não existe forma nenhuma de conter-me mais: alisantes não me convencem, xingamentos não me rebaixam, preterimento não me diminui; eu sei quem eu sou e na mulher negra que quero ser pois tenho espelhos grandiosos a mirar e a desejar ser como você, sister, e ser como as Beatrizes, Lélias, Luizas, Vilmas, Valdecirs, Juremas, Silvias, Joluzias,  Benildas, Lindinalvas, Sueliys, Tanias, Naiaras, Alanes, Karlas, Lucianas, Rosanes, Djamilas, Julianas, somos tantas!

Me aproximar de uma outra família aqui na capital baiana  é me sentir  impulsionada ao conhecimento, ao saber histórico, a dominar as palavras e o microfone, dominar técnicas de sobrevivência na contemporânea selva capitalista; instigada a pensar meus afetos e desafetos e o quanto de minha tristeza é proporcionada pelo racismo e sexismo; não somente isso… Eu também sou uma jovem negra gorda e lésbica. Adicionada essas duas qualidades identitárias, minha corporiedade negra gorda numa sociedade adoecidamente magra e compulsoriamente branca, faz com que eu queira ir mais além e buscar para caminhar ao lado, outras jovens como eu, para que elas possam também ser condutoras autônomas de suas vidas tendo sempre em vista o horizonte pintado de feminismo negro e inflado de nossos saberes ancestrais e contemporâneas emergindo novas e educativas práticas sociais de um sonho de nação possível, cujas trincheiras sólidas estamos sabiamente construindo e percorrendo: sempre juntas.

Pareço Cabo-verdiana

pareço Antilhana

pareço Martiniquenha

pareço Jamaicana

pareço Brasileira

pareço Capixaba

pareço Baiana

pareço Cubana

pareço Americana

pareço Senegalesa

em toda parte

pareço

com o mundo inteiro

de meu povo

pareço

sempre o fundo de tudo

a conga, o tambor

é o que nos leva adelante

pareço todas

porque pareço semelhante.

Constatação – Elisa Lucinda

*** Jéssica Ipólito é negra, lésbica e gorda, nascida e criada no interior de São Paulo, filha de Sônia Ipólito, da família Barbosa de Turiúba (SP). Filha tímida de Oxóssi e Iemanjá, viveu na capital paulista por 5 anos onde conheceu a militância feminista e o movimento de mulheres negras; atualmente vive em Salvador onde iniciou os estudos no curso de graduação em Gênero e Diversidade (UFBA). Escreve no blog Gorda&Sapatão sobre racismo, lesbianidade, negritude, feminismo e corpo positivo.

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