Como a juventude negra brasileira pode se inserir em espaços políticos na América Latina?

Um relato sincero, crítico e esperançoso de como espaços de poder e de debate político podem ser construídos por juventudes negras.

Por Beatriz Sousa

Juventude e protagonismo podem andar juntos, na verdade, passei a compreender que são sinônimos. Ser uma jovem negra e atuar em movimento social é desafiador, mas também define sua vida, demarca quem você é e pra onde você vai.

A 4ª Conferência Regional de População e Desenvolvimento da América Latina e Caribe, que aconteceu entre os dias 29 de Junho a 1º de Julho, na cidade de Santiago, no Chile, foi uma experiência como nenhuma outra. Representar uma nação com tantas sequelas do colonialismo e do racismo estrutural é desafiador, mas necessário. É preciso que a juventude brasileira seja capaz de articular inquietações, denúncias e críticas sistemáticas em todos os lugares de debate político do mundo.

Eu sabia que as pessoas confiavam em mim, cada pessoa que se moveu para que eu saísse do Brasil e chegasse até o Chile confiou em mim, talvez o maior desafio seja a autoconfiança. A autoconfiança é um sentimento de afirmação muito forte que o racismo não nos permite vivenciar, e no entanto, eu confiei em mim.

No domingo (26), quando saí do Hotel para o Fórum de Juventude, eu não sabia o que esperar de mim e nem sabia o que esperar dos outros, do lugar, do dia, mas fui recepcionada por um espaço acolhedor, de juventudes plurais e confiantes que abraçaram a mim e ao meu espanhol em desenvolvimento, o meu portunhol. Em uma sala com pessoas do Peru, do México, Bolívia, República Dominicana e de outros muitos lugares, nossos desafios eram transversais. Todos vivenciamos a colonização, o racismo, a violação de direitos humanos básicos, e a invasão e destruição das liberdades sexuais e reprodutivas das mulheres. As comunidades negras e indígenas são massacradas, têm seus territórios invadidos e suas culturas passam por tentativas de apagamento. A estrutura racista, que inferioriza e marginaliza o corpo preto, não é um “privilégio” do povo brasileiro, é uma herança colonialista que fere a integridade de afrodescendentes em todo o mundo.

Assim, no primeiro dia de atividades, pude analisar não somente as semelhanças entre as violências sofridas em toda América Latina, como também a maneira de se fazer política em cada um desses espaços. Na construção da declaração de juventudes, falamos de forma ampla sobre o mundo que queremos, o mundo pelo qual vamos lutar, o mundo que merecemos viver. Um dia completo de conexões, de afirmação, um dia fortalecedor.

No Fórum de Organizações de Sociedade Civil, que também aconteceu em Santiago, entre os dias 27 e 28 de Junho, com mais de 100 pessoas de toda América Latina, ficou visível a necessidade de que os dados e diálogos sejam feitos norteados no debate de raça, que é um marcador central na vida de toda população afro no mundo. Fortalecer e fomentar as narrativas sobre as relações raciais é um mecanismo de fortalecimento de toda sociedade civil. É necessário mexer em toda estrutura de poder e violência. Não haverá uma mudança real de pensamento social e político sem que a raça seja tratada com a importância que merece. 

Com foco na Constituição e nos direitos humanos, nos questionamos como assegurar que todas as pessoas, de todas as raças, classes e gêneros possam usufruir de forma plena sobre seus direitos previstos em lei, é também preciso refletir sobre a acessibilidade, como tornar os direitos constitucionais um palco de amplo entendimento da sociedade civil.

Com o Fórum Afrodescendente, que aconteceu no dia 28 pela noite, foi possível finalmente olhar para um espaço 100% negro, onde as discussões foram fortalecidas com o fator racial, que é um marcador de extrema importância em qualquer debate, enegrecer é necessário e transformador.

Entrar na CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) foi entender a necessidade de que mais jovens negras ocupem aquele espaço. Não se pode construir o mundo somente sobre uma perspectiva, o mundo precisa, também, ser pensado por todos. As juventudes negras precisam se fortalecer para participarem daquele espaço.

Estar na ONU foi como chegar ao centro de todas as possibilidades do mundo, foi imaginar cada jovem que ainda não teve essa oportunidade, foi imaginar como seria estar na ONU juntamente com outras jovens-meninas negras brasileiras, da Região Nordeste. A realidade é que nada pode ser construído sem que estejamos, não existe mundo sem juventudes negras e portanto nossa presença é necessária. É necessário que o Português seja uma língua oficial da ONU, porque senão, a língua será uma barreira desafiadora em nossas vidas políticas e articulações. É preciso que painéis sejam tocados por jovens negras, que estejamos em comissões organizadoras, participando de cada processo, incidindo e mobilizando o olhar sobre as relações raciais como atravessador de cada dado, cada pesquisa e cada declaração.

Sigo sonhando, sonhando na construção de um mundo novo, na construção e empoderamento de uma juventude política que ocupe todos os espaços, na justiça racial e de gênero. Espero estar em outros lugares, mas nunca sozinha, quero que todas as juventudes estejam lá, que todas as meninas negras falem sobre o que vivem, sobre quem são, sobre o que sonham, é assim que marcharemos para um futuro de poder, revolução e Bem Viver.

Beatriz Sousa é uma jovem negra feminista, baiana, que acredita na justiça racial e de gênero e no bem-viver como projeto de nação.

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