Elza Soares: “Já passou o tempo de sofrermos caladas. Está na hora de gritar”

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Com seu mais recente trabalho, Elza Soares ressurge como ícone imprescindível para uma geração de mulheres que, como ela, se assume feminista

Por GRAZIELA SALOMÃO E LUCIANA BORGES, do Época

São 16h30 de uma quinta-feira. A vista do quinto andar do apartamento de frente para a praia de Copacabana mostra um mar tranquilo, mas céu carregado. Está prestes a cair mais um temporal de verão no Rio de Janeiro quando Elza Soares entra na sala cumprimentando a todos com sua voz rouca inconfundível. É auxiliada por dois assistentes: por conta de problemas na coluna, que a obrigaram a fazer uma cirurgia séria em 2014, a mobilidade da cantora está reduzida. Em seus últimos shows apresentou-se sentada. Mas a sensação de fragilidade em torno desta mulher se dissipa logo. Seu nome sempre foi sinônimo de força, resistência, e assim continua. Elza escolhe a cadeira perto da janela, mira a paisagem e dispara, antes de começar a entrevista: “O Rio é a minha cidade. Ficar olhando essa imensidão do oceano cura a alma da gente. Cura até febre”.

A história da carioca Elza da Conceição Soares, um dos ícones da música brasileira, é marcada por muitas dores: mãe aos 13 anos, viúva aos 21, ela nasceu na favela Moça Bonita, em Padre Miguel, passou fome, perdeu cinco dos sete filhos que teve, foi julgada pela sociedade ao se relacionar com Mané Garrincha, um dos principais craques do futebol brasileiro. Não à toa se transformou em uma figura marcada pela coragem. “Sonhar é o grande poder da mulher”, diz ela.

Seis décadas após ter sido aclamada no palco do programa de Ary Barroso como “a nova estrela da música brasileira”, Elza sente (e diz) que o Brasil lhe deve muito. Agora, no entanto, ela é a encarnação de A Mulher do Fim do Mundo, nome de seu último álbum, lançado em outubro de 2015, e responsável por um dos momentos de maior reconhecimento de sua carreira. O disco, considerado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como o Melhor Álbum do ano passado, traz músicas fortes que conquistaram a nova geração de mulheres feministas que tomam as ruas e as redes sociais por todo o Brasil. “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, canta Elza em um trecho do samba Maria da Vila Matilde. A canção brada contra a violência doméstica e reflete o que a artista nunca teve medo de assumir: seu papel de protagonista na defesa dos direitos femininos. “Sempre fiz isso e sempre fui muito julgada e criticada por essa minha luta”.

O disco A Mulher do Fim do Mundo tem três shows agendados para março – um em Campinas e dois no Rio de Janeiro e previsão de lançamento na Europa, no segundo semestre. Neste bate-papo exclusivo, ela diz que artista “precisa se posicionar” e reforça a postura feminista que a faz ser mais inspiradora do que nunca para sua heterogênea plateia: “Já passou o tempo de sofrermos caladas”.

ÉPOCA  Como a senhora analisa a importância de uma data como o Dia das Mulheres?
Elza Soares 
 Nem todo mundo sabe o por que desse dia. Precisamos ter consciência de que muitas mulheres morreram para que pudéssemos ficar vivas, termos liberdade de escolher e fazer o que quisermos.

ÉPOCA – A senhora é feminista?
Elza Soares  Sou feminista convicta. Vivo protegendo as mulheres e vejo que, às vezes, somos burras demais. Temos que pensar mais em nós mesmas e não nos doarmos tanto. Precisamos receber mais dos homens. No meu show, faço um alerta para as mulheres ficarem espertas. Já passou o tempo de sofrermos caladas. Está na hora de gritar. Mulher tem que gemer na hora certa. Gritar porque está doendo e gemer na hora certa.

ÉPOCA – A senhora se considera uma das primeiras a defender o feminismo?
Elza Soares – Sim. Me considero como sendo uma das primeiras artistas feministas do Brasil. Fui muito criticada por isso, por levantar essa bandeira, a dos gays, da negritude. Tudo isso, para muita gente não é bom. Tem que ter raça para não desistir.

ÉPOCA – Quando a senhora percebeu que era uma feminista?
Elza Soares – Foi desde muito nova. Eu era uma mulher cheia de filhos, que ainda tinha que trabalhar em uma fábrica de sabão para sustentá-los. Naquele momento percebi que estava sozinha, sem ninguém mais por mim, apenas Deus. Ali comecei a entender que eu era feminista. Na época, não se usava muito isso de se falar que era “feminista”. E, se alguém falasse, Deus me livre, era pedrada.

ÉPOCA – Acha que está tendo uma mudança nessa questão do direito da mulher hoje?
Elza Soares – Acho que a mulher está respirando um pouco mais do que antes. Até então, era difícil, quase impossível. Agora estamos com tudo na mão, mas isso não significa que estamos desfazendo de homem nenhum. O que acontece é que temos o nosso direito. Se eles têm o valor deles, por que não podemos ter o nosso? Nosso valor está aqui e não deixamos passar mais nada imune. As mulheres estão muito decididas.

ÉPOCA – A senhora quis passar esse pensamento para a sua filha?
Elza Soares – Convivendo comigo, minha filha sentia e percebia que teria que aprender a lutar pelo que quisesse. Nossa relação é boa, mas você sabe que mãe e filha às vezes entram em conflito. Tem sempre essa questão, há um pouco de competitividade. Mas sou uma mãe moderna. Completamente moderna.

ÉPOCA – Beyoncé fez, recentemente, uma apresentação histórica no SuperBowl que gerou uma enorme discussão [a cantora se apresentou no maior evento esportivo dos EUA cantando uma música sobre preconceito racial e com bailarinas usando figurino inspirado no uniforme do grupo Panteras Negras]. Alguns comentários se referiam à atitude de Beyoncé, mas envolviam seu nome. Como se sente com isso?
Elza Soares – Ela teve repercussão porque é americana. Mas o que eu faço sempre nos shows? Boto bailarino negro, falo sobre o preconceito contra a mulher negra. Faço isso desde cedo, estou sendo copiada de uma maneira gloriosa. Sou eu quem carrega essa bandeira há anos no Brasil, durante toda a minha trajetória. Não tem ninguém mais que fale de mulher, de negritude. E não falam porque é uma doença, uma doença chamada “medo”.

ÉPOCA – Os artistas têm medo de levantar uma bandeira?
Elza Soares – Tem. Eu sempre falo o que sinto, não consigo esconder nada. Artista tem que se posicionar. Só pegar no microfone e cantar bonitinho, ganhar dinheiro, não é o nosso papel. Sempre fui muito julgada e criticada. É por isso que o Brasil ainda me deve muito. Me deve respeito.

ÉPOCA – E como é ser ícone feminista dessa nova geração de mulheres que vai às ruas para reivindicar melhores condições sociais? Há meninas de 16 anos cantando suas músicas…
Elza Soares – Sinto uma emoção enorme. Toda vez acabo o show com lágrimas nos olhos. É muito lindo de se ver. Só em falar nisso fico com os olhos cheios de lágrimas [emocionada, fica em silêncio por alguns minutos].

ÉPOCA – A senhora se sente um pouco responsável por elas?
Elza Soares – Me sinto sim. E a sensação é de “ai meu Deus, o que eu estou fazendo com essas mulheres”. Tem cada situação por aí. Tem mãe carregando filho pequeno pelas mãos e pensando no que eu falo. Precisamos seguir. Isso não me amedronta não.

ÉPOCA – A Mulher do Fim do Mundo é seu primeiro trabalho só de inéditas e tem um viés totalmente feminista. Por que?
Elza Soares – Quando o [produtor musical Guilherme] Kastrup me ligou, convidando para participar do novo disco, não sabia que eram apenas inéditas. Ele veio aqui em casa e ficamos sentados no chão escolhendo as músicas. Logo de cara foram 50 na primeira seleção e, dessas, tiramos 11. Não tive nenhuma dúvida sobre essa lista final. Logo escolhi a faixa Pra Fuder. Ela é forte à beça. Outra muito forte éBenedita [que mostra a história de uma transexual que não desiste, mesmo trazendo no corpo as marcas da violência que sofre]. Adoro essa música porque é muito intensa e fala de tudo que está relacionado à mulher. Quando escutei pela primeira vez, pensei: “quero gravar. Vou gravar Benedita porque ela faz parte da minha negritude”.

ÉPOCA – Tem algo que a senhora queria muito ter feito e não fez ainda?
Elza Soares –
Não. O que eu queria era gravar um disco de inéditas, algo que acabei de fazer. Eu sou inquieta, tenho vontade de algo assim, mas não sei do que. Prefiro não ficar nessa ansiedade. Deixo acontecer, não fico esperando pelo amanhã. O que vale é o hoje, então seja feliz hoje. My name is now. Eu sou o agora.

ÉPOCA – Tem medo de alguma coisa?
Elza Soares – Não tenho medo de nada não. Só tenho medo de rato. Do resto, não.

ÉPOCA – Há rumores de que a senhora pode ser o enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel no ano que vem.
Elza Soares – Ao mesmo tempo que eu gosto da ideia, fico assustada. Tem que ser um enredo muito bem feito, de uma beleza e uma criatividade maravilhosas. Não pode ser qualquer coisa não. Tem que ser feito com muita verdade. E é lógico que eu estarei na avenida.

ÉPOCA – Olhando para trás, a senhora sentiu que amou e foi amada?
Elza Soares – Muito. Fui muito bem amada e amei bastante. Essas coisas acontecem quando a gente quer buscar o amor verdadeiro. Ele[Mané Garrincha, com quem foi casada por 16 anos]… Com as perninhas tortas dele, foi o grande amor da minha vida. E nem todo mundo encontra esse amor. Eu encontrei.

ÉPOCA – A senhora tem a noção de que é uma artista atemporal?
Elza Soares –
Tenho completa noção disso. E sei que é para poucas.

ÉPOCA – Faria tudo de novo e da mesma forma?
Elza Soares – Se tivesse a oportunidade, sim, faria tudo de novo. Mas queria fazer com a cabeça de hoje. Seria muito melhor. Eu me doei muito para o outro. A gente é criada para ser assim, mas temos que mudar. Precisamos ser criadas para a liberdade. O mundo é grande demais para não sermos quem a gente é.

 Reprodução Geledés

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