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Manifesto das Feministas Negras Radicais em Solidariedade ao Povo Palestino

Unidas pela força ancestral de luta e resistência histórica das mulheres negras contra a violência, o colonialismo, o racismo, o capitalismo, o heteropatriarcado, a lesbofobia, a transfobia e outras formas de opressão, viemos a público manifestar o nosso apoio ao povo palestino e romper com o silêncio que impera em grande parte do mundo, incluindo a esquerda brasileira, com relação ao genocídio contra o povo palestino na faixa de Gaza. Nós não queremos ser cúmplices ou testemunhas silenciosas do massacre contra o povo palestino. Diferente do enquadramento feito pelos países imperialistas e mídia
ocidental, recusamos a versão do conflito como uma guerra de Israel contra o Hamas, já que as principais vítimas continuam sendo o povo palestino, que vivem perseguidos e sitiados em seu próprio território, coibidos à viverem sob o julgo do colonialismo israelense.

Nós, mulheres negras, lésbicas e trans, queremos convocar a todes para uma reflexão sobre o nosso silêncio. Sabemos o quanto os grandes conglomerados midiáticos, comprometidos com a continuidade da limpeza étnica e racial em curso, são unânimes na análise parcial da situação, produzindo lentes favoráveis à Israel e desumanizando continuamente os palestinos, com o objetivo de justificar o genocídio e incitar cada vez mais o ódio racial e religioso. Reconhecemos que temos muitas frentes de lutas cotidianas amplas e urgentes, e que às vezes nos faltam forças para expressar a solidariedade internacional. Mas a morte de mais de 8 mil civis bombardeados covardemente pelas forças israelenses e o cenário desesperador de completa destruição do povo palestino emerge como uma demanda indeclinável para todos os agentes políticos revolucionários ao redor do mundo. “Gaza se transformou em um cemitério para milhares de crianças. É um inferno na Terra para todos os outros”, disse James Elder, porta-voz do Unicef.

O silenciamento diante do massacre da Palestina é o mesmo silenciamento com o qual temos convivido diante do genocídio da juventude negra e contra os povos indígenas em sua própria terra. A violência brutal que atinge o povo palestino é o resultado da ganância desenfreada que legitima a mortalidade em nome de um grupo privilegiado que compartilha de interesses que se sobrepõem aos demais sob qualquer preço. Quanto a isso, não podemos continuar caladas, sob o risco de deslegitimação do nosso próprio discurso de defesa inegociável da autonomia e emancipação dos povos e comunidades racializadas e de outras minorias.

Nós que acreditamos na luta contra a desumanização do outro, do que é diferente, daqueles que são não-ocidentais, não-brancos, não-cristãos, não-héteros, precisamos mobilizar recursos, memórias e estratégias de outras lutas, assim como fizemos na luta contra Apartheid na África do Sul. Naquele contexto, tanto a luta dos sul-africanos por liberdade quanto à pressão internacional foram determinantes para a liberdade política dos sul-africanos negros. Diferente do contexto atual, naquele momento não existiam as mídias sociais e a velocidade com que a informação/desinformação dos supremacistas brancos chegavam era mais lenta. Agora eles se impõem através das armas, do dinheiro, da propriedade dos meios de comunicação, da ideologia, da violência, do medo e da construção de narrativas que desumanizam os palestinos, manipulando a história e as estatísticas, inclusive, sobre o número de mortos. Nós conhecemos bem as consequências políticas das Fake News!

Nós que construímos nossa plataforma de luta política a partir das conexões transnacionais, é fundamental ampliarmos as estratégias de enfrentamento, compreendendo o sentido mais profundo da libertação coletiva, sem a qual as liberdades individuais não se sustentam. Cedo ou tarde, as guerras que silenciamos batem à nossa porta sob a forma da mão forte do capital, da ganância das grandes potências, que nos expulsam dos nossos territórios e exigem de nós subserviência. O Brasil é um dos principais consumidores da tecnologia e do treinamento militar israelenses, e nós sabemos que cedo ou tarde esses tanques e armas podem ser os instrumentos de letalidade também utilizados contra o nosso povo. Esta é a história do povo palestino, mas também é nossa e dos nossos povos originários. Esta tem sido a história de destruição do nosso povo ancestral.

Nós que somos formados por uma perspectiva política que tem denunciado o racismo, o colonialismo, a exploração capitalista, a LGBTQI+fóbia sabemos que as desigualdades que caracterizam os envolvidos na guerra nos convocam a criar um novo vocabulário para descrever as atrocidades cometidas por Israel contra a população civil da palestina – sem água, sem luz, sem internet, sem casa, sem comida e sob bombardeios diários, inclusive contra ambulâncias e hospitais. Assim como acreditamos que é preciso reinventar a ONU, frente ao seu total descrédito, inoperância e impotência frente ao imperialismo estadunidense e ao genocídio em curso. Precisamos de novos nomes e novas organizações que representem as demandas de toda uma população, não somente daqueles a quem lhes interessam “beneficiar” por motivos alheios às necessidades do próprio povo.

Nós precisamos fazer valer a nossa reflexão, sensibilidade crítica, indignação moral e intolerância frente às injustiças que construímos através de anos de formação e ação política. Por tudo isso, não podemos nos calar, queremos nos unir e engrossar as trincheiras de luta daqueles e daquelas que acreditam na luta pela liberdade da Palestina e que exigem o fim dos bombardeios imediatamente. Nunca nos calamos frente ao horror, e a atual situação geopolítica do mundo deverá encontrar em nós mulheres negras o enfrentamento e a postura radical que sempre caracterizou nossa atuação no mundo.

A luta contra a opressão, o colonialismo e o racismo devem continuar aqui e em todos os lugares em que se faça necessária.


Palestina Livre!

Coordenação Nacional das Feministas Negras Radicais Independentes

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