Um ano sem Dona Maria de Jesus: Mais uma vida interrompida pela violência da PM, no Nordeste de Amaralina

Idosa de 87 anos foi baleada enquanto almoçava na própria casa, a família convive com a ausência e com a falta de respostas sobre o caso
Por Redação Odara
No dia 27 de março de 2025, o cotidiano de Maria de Jesus da Silva, de 87 anos, foi brutalmente interrompido dentro da própria casa, no bairro do Vale do Capim, no Complexo do Nordeste de Amaralina, em Salvador (BA). Enquanto almoçava em frente à televisão, uma operação da Polícia Militar da Bahia (PM-BA) acontecia na região e terminou com Dona Maria de Jesus, mesmo dentro de casa, baleada.
Relatos de moradores afirmam que a polícia já chegou com a viatura atirando na região, onde no momento haviam crianças brincando na rua. A comunidade afirma que não houve confronto, mas sim mais uma tentativa de marginalização de um território vulnerabilizado pelo Estado. Os disparos teriam partido da própria polícia. “Não teve correria, não teve tiro, não teve nada. Correria teve quando eles chegaram dando tiro, que ninguém vai ficar né? Mães de família chamando seus filhos para dentro de casa, porque eles já chegaram atirando”, afirmou uma moradora em entrevista para a TV Bahia.
Socorrida e encaminhada ao Hospital Geral do Estado (HGE), Dona Maria de Jesus permaneceu internada, porém não resistiu aos ferimentos e morreu no dia seguinte. De acordo com o delegado do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Marcival Lima, foram encontradas ao menos cinco perfurações no corpo da vítima. Em nota, a Polícia Militar afirmou que os agentes realizavam rondas na região quando teriam sido recebidos a tiros e revidaram, sustentando a tese de confronto.
Ailton de Jesus, filho único de Dona Maria, estava no trabalho quando recebeu a notícia. “Disseram que tinha sido um tiro de raspão. Saí correndo. Quando cheguei lá, já eram vários tiros. Foi um choque, a gente fica sem entender. Que polícia é essa?”, questiona. “Minha mãe tinha muitos sonhos, era simples e cheia de vida”.
UMA VIDA CHEIA DE ALEGRIA
Natural de Santo Antônio de Jesus (BA), Dona Maria de Jesus da Silva trabalhou décadas como auxiliar de serviços gerais e construiu a vida no Nordeste de Amaralina. Aos 87 anos, ainda planejava reformar a casa. Para seu filho Ailton, reduzir a história da mãe ao momento do disparo é uma violência adicional.
“Ela foi a melhor mãe do mundo. Uma pessoa que venceu muita coisa na vida. Mesmo sem estudo, sempre batalhou e conquistou o que pôde”, descreve Ailton. Ele recorda que, apesar da timidez, Dona Maria não abria mão de celebrar. Gostava de casa cheia, de viagens no São João e da vibração da Copa do Mundo. “Ela pedia camisa do Brasil, acessórios… gostava de comemorar o aniversário.”
Atualmente, a alegria deu lugar a um vazio que expulsou Ailton de seu próprio lar. A casa, antes iluminada pela espera da mãe, tornou-se um monumento ao trauma. “Eu não aguento mais passar por lá. Chego do trabalho à noite, olho para casa e está tudo escuro. Antes, ela ficava me esperando. Hoje não tem mais ninguém”, lamenta o vigilante, que agora tenta vender o imóvel por não suportar a ausência.
Entre o luto e a busca por respostas, Ailton equilibra o desejo de justiça com o cansaço de quem conhece a lentidão do sistema. “Minha mãe não vai voltar, mas eu espero justiça. A gente sabe que demora e, às vezes, nem acontece. Mas quem fez isso precisa pagar”, afirma. No fim, o que resta é o desejo de quem teve o mundo reorganizado pela perda: “Queria minha mãe viva. Só isso”.
EXISTE “TRÉGUA” PARA O NORDESTE DE AMARALINA?
Em um país que se diz democrático, territórios negros e periféricos seguem sendo alvos de uma necropolítica brutal, onde o Estado escolhe quem deve morrer e dita sob quais condições essas pessoas devem (sobre)viver. No Nordeste de Amaralina, a marginalização é tão profunda que parece que não há direito à vida em nenhum estágio: não se tem o direito de viver a juventude, tampouco de alcançar a velhice em paz. A polícia chega atirando, impedindo que crianças brinquem livremente e que idosos descansem em seus lares. Dona Maria de Jesus, baleada aos 87 anos dentro de sua própria casa, é apenas um reflexo dessa realidade. Mas ela não está sozinha nesse luto. No mesmo local onde Dona Maria almoçava, no Vale do Capim, no Complexo do Nordeste de Amaralina, a família de Marcelinho, de apenas 19 anos, que sonhava em ser jogador de futebol, o viu ser morto na véspera do Natal de 2022. Enquanto ela teve sua velhice roubada, ele teve sua juventude interrompida. Ambos no mesmo território, ambos vítimas da mesma força estatal que escolheu submeter toda uma comunidade ao medo e à morte.
O silêncio das investigações que se arrastam para o arquivamento, a impunidade das ações policiais e a negligência do Estado gritam mais alto do que qualquer promessa de justiça. Seja comprando pão, jogando futebol com amigos ou almoçando em casa, a mensagem para a população negra é: ‘não teremos paz’.

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