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Jovem é morto pela PM-BA com tiro nas costas ao sair para comprar bolo para comemorar o primeiro mês do filho, no Nordeste de Amaralina

Seis anos depois do caso, família de Marcus Vinícius Cidreira Santos, de 21 anos, segue sem respostas

Por Redação Odara 

Para celebrar o primeiro mês de vida do filho, Marquinhos saiu de casa por volta das 9h30 para comprar um bolo. No caminho, jogou o lixo fora e seguiu em direção à padaria. Mas não chegou. Enquanto isso, Luana Menezes, sua esposa na época e mãe de seu filho, o esperava em casa. A demora, que não fazia parte da rotina de Marcus, começou a preocupar.  “Depois do almoço comecei a estranhar a demora, fui procurar na casa dos avós, esperei até o horário de ele ir trabalhar, porque ele era muito pontual. Mas ele não voltou. Liguei para a delegacia, depois para o hospital, e foi ali que confirmaram.”, relata Luana.

Mensagens em grupos de WhatsApp começaram a circular e, somente às 18h, a notícia chegou. Marcus foi executado pela Polícia Militar da Bahia com tiros nas costas.

Assim, de forma abrupta e cruel, a manhã de 24 de abril de 2020 interrompeu uma vida cheia de promessas. Marcus Vinícius Silva Cidreira Santos, de 21 anos, motoboy, músico e pai recente, foi morto no Nordeste de Amaralina, em Salvador. O que deveria ser um dia de celebração familiar tornou-se mais uma marca de dor.

A versão apresentada pela PM-BA foi a de confronto, mais uma operação em busca de criminosos, mas foi imediatamente contestada pela comunidade, que interveio para tentar garantir o socorro. Relatos de testemunhas indicam que, após ser alvejado pelas costas, Marcus foi atingido por chutes na costela enquanto já estava caído. Um morador relatou à época. “Tem o vídeo, só que os moradores estão com medo de mostrar, porque tem o ângulo da janela, com ele baleado no chão, e os policiais chutando ele, perguntando ‘cadê a arma’. Quando viram que não tinha jeito, colocaram dentro da viatura. Quando bateu a ficha e viram que não tinha nada, fizeram essa versão de bala perdida.”

Marcus foi levado em uma viatura ao Hospital Geral do Estado, HGE, onde faleceu às 11h21. Somente após a execução, a polícia verificou seus documentos, constatando que ele era um trabalhador de “ficha limpa”. A tragédia foi marcada pela brutalidade e pela negligência. 

“Ele era um menino muito bom, muito iluminado. Era responsável, cuidava das irmãs, me ajudava em tudo dentro de casa. Eu saía para trabalhar e ele levava as meninas para a escola, buscava, dava comida, botava para tomar banho. Marcus era meus braços, minhas pernas”, relembra sua mãe, Danúbia Silva.

Marcus buscava também estabilidade por meio de concursos públicos, entre eles o da Polícia Militar da Bahia, a mesma instituição responsável por interromper sua trajetória.

A DOR DE UMA FAMÍLIA INTEIRA

A perda de Marcus não foi apenas a interrupção de uma vida, mas a desestruturação de um núcleo familiar inteiro. “A gente não se recupera 100% nunca, ainda mais de uma forma como foi. A gente aprende a viver, mas não volta a ser quem era. Quando um filho vai embora, a família toda vai junto. A gente sobrevive, mas fica sempre faltando um pedaço”, desabafa Danúbia.

O luto da família se tornou ainda mais devastador, agravado pela morte do pai de Danúbia, aos 70 anos, que teve complicações de saúde após a morte do neto. Pouco tempo depois, ela mergulhou em uma depressão profunda, que a levou ao uso problemático de álcool. “Eu fiquei parecendo que ia ficar louca. Eu bebia todos os dias, tive um problema sério com álcool. Era uma forma de tentar suportar a dor”, relata. 

A rotina também passou a ser marcada pelo trauma e pela vigilância constante. O simples ato de jogar o lixo fora, a última ação de Marcus, tornou-se um gatilho. “Eu vivo em atenção constante. Minha filha sai de casa e eu não tenho paz. Eu tenho medo até de pedir para jogar o lixo fora, porque meu filho morreu jogando lixo fora. A vida da gente muda completamente depois de uma coisa dessa.”

SEIS ANOS SEM RESPOSTAS 

Lorena Pacheco, advogada do projeto “Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar”, do Instituto Odara, aponta que o caso escancara falhas de uma instrução normativa conjunta de segurança pública de 2019 (IN 01/2019), durante o governo Rui Costa, que transferiu a investigação de mortes causadas pela polícia para a própria corporação.

“A responsabilidade da investigação desses casos passou a ser, por um período, da Polícia Militar. Então, não à toa, seis anos depois, ainda há dificuldade de instruir um processo como esse. As provas sequer foram coletadas da maneira correta e as testemunhas acabam se sentindo acuadas, porque quem conduz as investigações são os algozes de Marcus.”

O Minha Mãe Não Dorme abordou a questão da IN 01/2019 no recente texto sobre “o saldo dos 20 anos de PT na gestão da Segurança Pública na Bahia”, alertando que essa instrução normativa, posteriormente decretada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça da Bahia, está intimamente ligada ao aumento do número de casos de mortes letais intencionais provocadas pela PM nos últimos anos. Mas, assim como o aumento da letalidade, essa normativa auxiliou na falta de resolução e responsabilização dos policiais que tiraram a vida de tantas pessoas, como o caso de Marcus. 

Para Luana Menezes, a falta de respostas também tem explicação. “Eu acredito que essa demora é porque eles mesmos sabem que o erro veio deles. Marcus era uma pessoa especial, trabalhador, carinhoso. A gente era um pelo outro”, desabafa.

A cozinheira Danúbia também critica a atuação policial nas comunidades. “Falta planejamento, estratégia e treinamento. É como se a gente fosse descartável. Você é preto, mora em comunidade, não vale nada para eles. O processo corre na justiça, mas é muito lento. Parece uma tartaruga”, afirma.

MESMA DATA, MESMO NOME, MESMO CEP, MESMA PM

Três anos depois, em 24 de abril de 2023, Wellington Vinícius Santos de Jesus, de 20 anos, foi morto a tiros enquanto jogava bola com amigos, na Chapada do Rio Vermelho, também no Complexo do Nordeste de Amaralina. Morador do Vale das Pedrinhas, motoboy, jovem negro. A polícia chegou atirando. A versão oficial dizia que Wellington estaria armado, em um carro roubado, e que os “meliantes” iniciaram o confronto. Mas a comunidade desmente. Não havia carro, nem arma. 

Wellington foi baleado na perna e colocado em uma viatura da PM com a promessa de ser levado ao hospital. Demorou quase duas horas para chegar ao Hospital Geral do Estado. Quando chegou, já estava morto. Seu corpo apresentava várias perfurações, inclusive na cabeça.

O caso está sendo investigado pela Corregedoria da PM e pela 7ª Delegacia Territorial do Rio Vermelho, mas a história se repete. Mais uma execução policial sem responsabilização do Estado.

As histórias de Marcus Vinícius e de Wellington Vinícius são retratos futuros interrompidos pelo despreparo e pelo racismo institucional. A pergunta que permanece é urgente: a quem serve uma segurança pública que, ao invés de proteger, segue atuando pela lógica do confronto e vitimando pessoas a partir do perfilamento racial e criminalização dos territórios negros?

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