Após quase 10 anos de espera, acusados pela morte de Valdir Macário são condenados a mais de 20 anos de prisão

Júri popular aconteceu na terça-feira (6), em Salvador, após sucessivos adiamentos e encerra uma espera de quase uma década por justiça
Por Lídia Souza e Luana Miranda
Quase 10 anos de espera e cinco adiamentos depois, o júri popular dos acusados pelo homicídio de Valdir Macário, cabeleireiro, pesquisador e referência na estética afro-baiana, aconteceu na terça-feira (6), no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador (BA). Patric Ribeiro Tupinambá, conhecido como “Bagão” e Edgar da Silva Santos, conhecido como “Chocolate”, foram condenados, respectivamente, a 28 anos e sete meses e a 23 anos e três meses de prisão pelo crime de homicídio qualificado. A sentença de Patric também inclui a condenação por roubo.
A condenação foi definida após o Conselho de Sentença reconhecer a autoria e a materialidade do crime e acolher a tese da acusação de homicídio qualificado. Os jurados consideraram que o assassinato foi cometido por motivo torpe, com recurso que dificultou a defesa da vítima e com perigo comum a terceiros, já que havia clientes no salão no momento do crime.
O julgamento teve início pela manhã, com a condução do juiz Paulo Sérgio Barbosa de Oliveira. Durante a sessão, foram ouvidas duas testemunhas de acusação, além dos interrogatórios dos dois réus. Na sequência, Ministério Público e defesas apresentaram suas teses ao Conselho de Sentença.
Durante o interrogatório, Edgar negou participação no assassinato e afirmou que não estava em Salvador quando o crime aconteceu. Já Patric declarou que entrou no salão acreditando que participaria de um assalto e que não sabia que a ação terminaria na execução de Valdir. Os depoimentos apresentados durante o júri diferem de informações atribuídas aos réus durante a investigação do caso.
Valdir Macário foi assassinado aos 45 anos, no dia 12 de novembro de 2016, dentro do seu próprio estabelecimento comercial, na Avenida Vasco da Gama. A denúncia do Ministério Público da Bahia (MP-BA) apontou que Patric Tupinambá, acompanhado de outro homem (até hoje não identificado), invadiu o salão a mando de Edgar Santos, apontado como líder do tráfico de drogas da região. Na ocasião, o cabeleireiro tentou se esconder no banheiro, mas foi alvejado e morto.
De acordo com o inquérito policial, o homicídio foi motivado por vingança. Edgar Santos responsabilizava Valdir pelo suposto envolvimento romântico entre a sua companheira e o irmão do cabeleireiro. Durante os interrogatórios realizados ainda durante a investigação, Edgar chegou a confessar o crime e Patric também declarou que esteve no salão no momento do crime. Os dois foram presos ainda em janeiro de 2017, poucos meses após o assassinato, depois que imagens das câmeras de segurança ajudaram na identificação dos suspeitos.
Quase 10 anos de espera por justiça
Mesmo com provas substanciais, prisões realizadas ainda em 2017 e elementos reunidos pela investigação, a família de Valdir precisou atravessar quase uma década até ver os acusados sentados diante de um Conselho de Sentença. O processo foi marcado por sucessivos adiamentos, provocados, entre outros motivos, por mudanças na defesa, incompatibilidade de agenda de advogado e alegações de problemas de saúde. E mesmo depois de tantos adiamentos, a defesa tentou impedir que o julgamento acontecesse novamente, alegando não ter ciência de um vídeo que circula na imprensa sobre o crime, mas o pedido foi indeferido pelo juiz.
A realização do júri às vésperas de completar dez anos do assassinato evidencia uma dimensão da violência que não termina com a morte. A morosidade do sistema de Justiça também impõe às famílias um longo percurso de espera, incerteza e revitimização. Durante anos, os familiares de Valdir precisaram manter viva a memória do cabeleireiro e cobrar das instituições uma resposta para um crime ocorrido em 2016. Crime esse, que a investigação já havia identificado, ainda nos primeiros meses, suspeitos e elementos centrais da acusação.
Quando uma família precisa esperar quase uma década para que um homicídio chegue efetivamente ao Tribunal do Júri, é necessário questionar que justiça é essa e para quem ela opera com celeridade. No caso de Valdir, um homem negro, reconhecido por sua contribuição à estética e à autoestima da população negra de Salvador, a demora também revela como a morosidade institucional é seletiva e prolonga a violência para além do crime.
A condenação dos réus representa um passo importante, mas não repara a perda de Valdir nem apaga os longos anos de espera enfrentados pela família. A resposta do Estado chegou tarde para uma violência que exigia justiça há muito tempo.

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