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Após seis meses do desaparecimento da jovem quilombola Tainara dos Santos, primeira audiência do caso expõe a desassistência e revitimização da família

Tainara dos Santos, de 27 anos, quilombola da comunidade Acutinga Motecho, em Cachoeira (BA), desapareceu no dia 9 de outubro de 2024. A jovem, que trabalhava como trancista, é mãe de duas crianças, de 11 e 2 anos, e foi vista pela última vez acompanhada por homens desconhecidos em uma lan house e, mais tarde, em uma praça, com o ex-companheiro, George Anderson Santos, com quem teve um relacionamento de seis anos, marcado por brigas e agressões.

Na semana passada, nos dias 26 e 27 de março, aconteceram as primeiras audiências de instrução e julgamento do caso, marcando mais um passo importante da batalha por justiça por Thainara. George afirmou à família de Tainara que no dia do desaparecimento a deixou em um posto de gasolina na região de Cachoeira, no ponto conhecido como “km 25”. Após essa declaração, o principal suspeito do desaparecimento da jovem quilombola deu mais duas versões à polícia, e até hoje ela não foi encontrada.

Durante a audiência, familiares e testemunhas expressaram angústia e revolta diante da falta de respostas das autoridades. De acordo com a família, o único apoio que têm recebido vem do movimento de mulheres negras. A Prefeitura de Cachoeira, além de não oferecer suporte na busca por Tainara, também tem negado atendimento terapêutico para a filha mais velha da jovem.

A irmã de Tainara, Itamara Santos, relata a inquietação das crianças, que questionam constantemente o paradeiro da mãe e continuam sem respostas: “Após o desaparecimento de Tainara, a filha mais velha dela começou a receber apoio psicológico da escola, mas com o recesso escolar, esse apoio foi interrompido, o que não deveria ter acontecido. Independente do recesso, o apoio não podia parar.”, relata Itamara. 

“Ela está muito nervosa, fala que vai tirar a própria vida e sente muita raiva, principalmente da irmã mais nova, pois acredita que foi o pai dela quem fez isso com a mãe. Precisamos de apoio, mas estamos sendo ignorados. Já fui várias vezes pedir ajuda, mas não fui recebida. Fui informada de que porquê minha mãe e minha irmã trabalhavam para outro candidato, mas o que isso tem a ver com as necessidades das meninas? Elas têm direito de serem assistidas pelo município. Tainara era mãe solo, criou sua filha sozinha, e mesmo com o pai da criança agora assumindo, ela ainda está sendo ignorada. Não houve nenhuma preocupação com a nossa situação ou com o bem-estar das meninas. Isso tudo por questões políticas?”, acrescentou.

Além das questões psicológicas enfrentadas pela filha primogênita de Tainara, a família não se conforma com a falta de respostas sobre o que realmente aconteceu com a jovem. Itamara já tem  convicção de que Tainara foi vítima de feminicídio, e compartilha sua aflição profunda pela impossibilidade de fazer um sepultamento adequado para a irmã. “Nós já sabemos que foi ele, mas cadê o corpo? O que foi que ele fez com o corpo dela? Já vai fazer seis meses e ainda não sabemos nada, como ele a assassinou? Onde a deixou?”, desabafa.

Ela fala, com dor, sobre o sentimento de impotência que a consome: “Eu me sinto perdida, sinto sem saber o que fazer. Corro, corro tanto, procuramos por um lado, procuramos por outro, e nada. Estamos aguardando que a justiça seja feita, que pelo menos ele fale o que fez, para que ele pague. Não suporto ouvir minhas sobrinhas, as filhas de Tainara, perguntando pela mãe. A menor, de dois anos, me pergunta o tempo todo: ‘Onde está minha mãe? Ela foi embora e não se despediu de mim, e eu não tenho respostas. Isso está me matando por dentro, matando minha mãe que está com as crianças, vejo minha mãe em estado vegetativo, não come, não dorme, é uma angústia sem fim, minha família não merecia isso”, concluiu, emocionada.

AVANÇOS DO CASO:

A Tamo Juntas, organização feminista que atua na assistência multidisciplinar a mulheres em situação de violência, está atuando como assistente de acusação do Ministério Público no caso. A advogada Laina Crisóstomo, representante da organização, compartilhou sua análise sobre a primeira audiência: “Acho que o saldo foi bem positivo. O processo da audiência começa ouvindo as testemunhas de acusação, e ouvimos algumas muito importantes, que viram Tainara no dia 9 de outubro.”

“Elas relataram como a encontraram na lan house e falaram sobre o comportamento do ex-companheiro, com quem ela tinha um relacionamento de medo e controle, conforme revelado em mensagens trocadas entre os dois. Estamos construindo o processo, e seguimos ouvindo a família, cujos relatos vão além do dia do desaparecimento e mostram o contexto de seis anos de abuso.”

Laina ainda destacou que as testemunhas apontam George Anderson, o ex-companheiro de Tainara, como a única pessoa de quem ela tinha medo e principal suspeito do crime. O réu, que está preso no município de Feira de Santana (BA), ainda não foi ouvido e participou da audiência por videoconferência, alegando questões de segurança. “O advogado dele acompanha o processo, mas a juíza está decidida a fechar o ciclo da instrução para levar o caso ao júri popular”, afirmou a advogada.

Ela também reforçou que a narrativa do feminicídio está sendo construída de forma sólida e que, mesmo que o réu tente distorcer os fatos, o crime é claro: “O foco é que Tainara foi assassinada em razão do machismo e do feminicídio, e isso está sendo reforçado a cada testemunho. Justiça será feita, não só por Tainara, mas por todas as mulheres que sofrem diariamente com esse tipo de violência.”

Joyce Souza, assistente social, ativista do Odara – Instituto da Mulher Negra e coordenadora do projeto Quilomba – Pela Vida das Mulheres Negras, também esteve presente nas audiências, e afirma que a violência contra as mulheres negras está muito longe de acabar: “Estamos vivendo em um contexto de crescimento das taxas de feminicídio e outras formas de violências contra mulheres na Bahia e em vários estados do Nordeste, como Pernambuco, Piauí, Maranhão. Na verdade é uma realidade nacional, em que a Campanha de Feminicídio Zero está bem distante de mitigar, justamente por ser uma problemática em que nenhuma das esferas de governança está verdadeiramente comprometida em incidir.”

“O nosso papel enquanto movimento de mulheres negras está para além do controle social, somos nós quem segura na mão das famílias das mulheres negras desamparadas, somos nós quem assegura junto ao Ministério Público um processo de acesso à justiça de forma digna; Garantimos o direito à memória dessas mulheres através de nossas estratégias de comunicação e narrativas de positivação da vivência de mulheres negras que sofrem o feminicídio, mas também a tentativa de linchamento moral que justifique o crime a partir da culpabilização da vítima.”

“O movimento de mulheres negras e o movimento de mulheres na Bahia que efetivamente tem feito uma política para mulheres, já que o Estado é inerte, conivente ou reprodutor das violências que nos acometem.”

MULHERES NEGRAS EM MARCHA POR JUSTIÇA POR THAINARA:

Além do acompanhamento dos processos das audiências de instrução e julgamento, a luta por justiça para Tainara também se reflete em atos de mobilização. No próximo dia 9 de abril a partir das 9h, será realizado o “Ato Justiça por Tainara”, em Cachoeira – BA, visando  pressionar as autoridades responsáveis pela resolução do caso e acompanhamento multidisciplinar da família; fortalecer a memória de Tainara; e exigir que o feminicídio seja reconhecido e punido com a devida seriedade. 

A mobilização contará com a presença de familiares, amigos, movimentos sociais, além de ativistas pela defesa dos direitos das mulheres e contra a violência de gênero, reforçando a importância de uma resposta rápida e justa do sistema judiciário, mas também dos órgãos municipais responsáveis por políticas públicas que deem conta do devido atendimento aos familiares da vítima.

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