Ato em Defesa do Parque Ancestral do Abaeté reúne centenas de pessoas em Salvador (BA)

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A manifestação foi resultado de uma mobilização conjunta entre os Terreiros Axé Abasá de Ogum e Ilê Asé Maa Ase Ni Ode e o Odara – Instituto da Mulher Negra

Por Jamile Novaes e Jéssica Almeida | Redação Odara

No último sábado (19), uma nova manifestação contrária às obras de urbanização da região das Dunas do Abaeté, em Salvador (BA), foi realizada no local. Comunidades de Axé, coletivos de movimentos sociais e alguns parlamentares, se reuniram mais uma vez em frente às dunas para exigir o fim das obras e ressaltar a importância histórica, ambiental, sócio-cultural e religiosa do espaço. 

O Ato em Defesa do Parque Ancestral do Abaeté foi organizado conjuntamente pelos Terreiros Axé Abasá de Ogum e Ilê Asé Maa Ase Ni Ode, e o Odara – Instituto da Mulher Negra. A concentração teve início por volta das 9h da manhã e o ato seguiu até o meio-dia.

Manifestantes concentrados em frente às Duna do Abaeté | Foto: Beatriz Sousa.

As obras de urbanização do Parque Metropolitano do Abaeté foram iniciadas pela Prefeitura de Salvador no último dia 10 de fevereiro. O projeto é alvo de críticas pela falta de diálogo da Prefeitura com a comunidade local e por não ter sido apresentado um relatório de impactos ambientais que podem ser gerados em decorrência das transformações no espaço.

Existe ainda a preocupação com a possibilidade de violação de locais considerados sagrados para as religiões de matriz africana, que historicamente utilizam o espaço para realizar cultos e rituais religiosos e zelam por sua preservação. A região do Abaeté abriga inúmeros Terreiros de Candomblé e monumentos em homenagem à Mãe Gilda de Ogum e Mãe Stella de Oxóssi, importantes referências para a religião na Bahia e no Brasil. 

“A nossa manifestação aqui hoje é para que nós permaneçamos com o direito a utilizar o Parque do Abaeté na sua integralidade, como a natureza, e a relação que nós temos com a natureza, através do Candomblé, estabelece. Nós estamos aqui e não vamos recuar”, enfatizou Gabriela Ramos,Ya Leyin do Ilê Axé Abasá de Ogum. advogada e técnica do Projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, do Instituto Odara.

Gabriela Ramos | Foto: Beatriz Sousa.

A autoria do projeto de urbanização e a origem dos recursos para a sua execução também são alvo de desconfiança. Durante outra manifestação realizada no dia 15 de fevereiro em frente à Câmara Municipal de Salvador, a covereadora Laina Crisóstomo, da Mandata Coletiva Pretas por Salvador, questionou:

“Nós queremos saber de onde está vindo esses cinco milhões [de reais], Bruno Reis? Porque não está previsto nem no Plano Plurianual e nem na Lei Orçamentária Anual. Isso é muito grave”.

Além das obras, esteve em tramitação na Câmara Municipal de Salvador o Projeto de Lei 411/2021, do vereador Isnard Araújo (PL), que previa a alteração do nome das dunas, que passariam a se chamar “Monte Santo Deus Proverá”. O PL foi retirado pelo vereador no dia 15 de fevereiro, após pressão popular, mas no local da obra, desde a inauguração, uma placa exibia o letreiro “Urbanização do Monte Santo – Primeira Etapa”. O letreiro foi totalmente arrancado da estrutura durante a manifestação:

“A gente sabe da laicidade do país e isso não é um espaço a ser reservado só para um segmento fundamentalista. Então, eu quero deixar bem claro que a gente tá aqui também protestando contra todas as formas de racismo. Todo o povo de candomblé está aqui. Quero agradecer imensamente à ancestralidade que me acompanha e a Oxum que é minha mãe. Ora Yê Yê Oxum”, disse a Yalorixá Jaciara Ribeiro, do Ilê Axé Abasá de Ogum durante a manifestação.

Yalorixá Jaciara Ribeiro | Foto: Beatriz Sousa.

Dai Costa, Makota Ndanbulakossi do Terreiro Nzo Mungongo Lembeuaji Junsara e Coordenadora Pedagógica do Projeto Ayomidê Odara – do Instituto Odara,  falou sobre a importância da manifestação e de demarcar a presença negra no espaço, bem como, compreender a disputa histórica de territórios que são violados por meio do racismo religioso.

“A gente precisa falar como o dinheiro público é utilizado, de como essas obras, que beneficiam só um lado, são diluídas na cidade. É importante estarmos aqui já que não temos nenhuma resposta da prefeitura e queremos que a prefeitura se posicione! Não podemos deixar que essa obra afete tanta gente e tantas comunidades”, afirmou ela.

Dai Costa | Foto Beatriz Sousa

Durante a manifestação, um carro de som com microfone aberto esteve à disposição para que todas as pessoas que sentissem à vontade pudessem contribuir com uma fala. Diversas pessoas presentes fizeram uso do microfone para denunciar o racismo institucional e religioso, que se revela através da obra, e está presente de diversas formas no dia a dia do povo de santo.

“Quando a gente entra nas Dunas do Abaeté, nós somos hostilizados o tempo todo. Se você usa branco, um fio de conta, se você põe um torso na cabeça: você é hostilizado aqui nas dunas e em qualquer outro espaço dentro de Salvador”, afirmou revoltada a Yalorixá Maísa Bahia, do Terreiro Egbá Okutá Lewá, localizado em Paripe.

Érika Francisca, ativista do Instituto Odara e coordenadora do Projeto Ayomide Odara elucidou o direito de estar na rua manifestando as reivindicações das comunidades de axé e de outros grupos que têm os seus direitos negados historicamente.

“Estamos aqui pedindo respeito e dizendo que os espaços públicos vão sim ser ocupados pelo povo de axé, de candomblé, por ciganos, indígenas e quem quiser… A gente tá aqui pedindo paz, fazendo roda, vestindo branco, mas se a gente precisa também ir pra guerra, a gente vai, porque a gente sabe fazer guerra” enfatizou Érika. 

“Acho que a gente deve lutar pelo que é nosso. Não desistir. Batalhar e lutar”, resumiu Maria Eduarda Costa, pré-adolescente integrante do Projeto Ayomidê Odara, que esteve presente no ato juntamente com cerca de 30 outras meninas também alunas do projeto. Além delas, estiveram presentes cerca de 70 mulheres mães e familiares de vítimas do Estado, que integram o projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, do Instituto Odara em parceria com o Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA), Grupo Mulheres em Luta e a Associação Artístico-Cultural Odeart.

Presença de evangélicos

Evangélicos se mantiveram por perto durante toda a realização do ato. Alguns observavam mais distantes, segurando bíblias, fazendo orações e tocando músicas gospel em caixas de som, outros até se aproximaram para questionar a realização do ato. 

Destoando do comportamento apresentado por seus irmãos e irmãs de fé, Dagmar Santos, evangélica da Igreja Batista, esteve presente para apoiar a manifestação e até utilizou o microfone para defender o respeito a locais sagrados de qualquer que seja a religião. Dagmar deixou um recado aos demais evangélicos presentes:

“A minha fé, e o meu lugar até então, está sendo dentro de uma igreja evangélica, mas isso não quer dizer que eu não compreenda e não respeite o povo de matriz africana! Porque eles nunca impediram que vocês viessem pra cá pra orar, muito pelo contrário! Sempre abriram a porta da sua casa santa para que todos adentrassem! Respeitem! Vocês não estão cumprindo o mandamento de Jesus, que é amar o próximo”.

Dagmar Santos | Foto: Beatriz Sousa.

Resposta

Questionada sobre as reivindicações feitas pelas Comunidades de Axé e movimentos sociais, a Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra) não demonstrou qualquer intenção em reavaliar a execução da obra e afirmou em nota que “o diálogo da administração é irrestrito e o povo de santo foi ouvido e suas ponderações levadas em consideração”. Disse ainda que “não existe nenhuma ação que vá de encontro com qualquer grupo ou entidade religiosa. O local é e continuará aberto para qualquer cidadão”.

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