Comunidades de Axé promovem manifestação contra PL 411/2021, que prevê alteração do nome das Dunas do Abaeté, em Salvador (BA)

Durante o ato, manifestantes foram agredidos por evangélicos e seguranças do prefeito Bruno Reis.

Por Jamile Novaes / Redação Odara.

Na manhã da última quinta-feira (10), o prefeito de Salvador, Bruno Reis, esteve na região das Dunas do Abaeté, no bairro de Itapuã, para assinar a ordem de serviço que autoriza o início das obras de urbanização do local. O projeto foi elaborado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) e faz parte das ações de Requalificação e Mobilidade Urbana de Salvador.

Na ocasião, um grupo de manifestantes composto por candomblecistas, ambientalistas e moradores da região, se posicionou na Avenida Dorival Caymmi para protestar contra o projeto de urbanização e denunciar o PL 411/2021, apresentado pelo vereador Isnard Araújo (PL), que prevê a alteração no nome das Dunas do Abaeté para “Monte Santo Deus Proverá”.

Isnard, que é pastor da Igreja Universal e ocupa o cargo de 2° vice-presidente da Câmara Municipal de Salvador, chegou a publicar recentemente em suas redes sociais um vídeo no qual aparece nas Dunas do Abaeté falando sobre as obras que acontecerão no lugar. Nas imagens, ele se refere ao local como Monte Santo e chega a apontar um espaço no qual, segundo ele, haverá uma área de convivência para pastores e fiéis.

“As dunas de Itapuã são muito utilizadas para o turismo religioso. Um local para manifestação de fé de evangélicos de diversas denominações e que a partir desta proposta nossa proporcionar uma estrutura melhor para os frequentadores. Agradeço imensamente a prefeitura e a todos os órgãos que compõem esta equipe”, escreveu na legenda do vídeo.

Apesar da afirmação do vereador, a região da Lagoa do Abaeté é historicamente marcada como um local sagrado para as religiões de matriz africana, abriga inúmeros Terreiros de Candomblé e monumentos em homenagem à Mãe Gilda de Ogum e Mãe Stella de Oxóssi, importantes referências para a religião na Bahia e no Brasil. 

Durante a cerimônia que marcou o início das obras, o prefeito Bruno Reis também se referiu às dunas como Monte Santo, mas negou a mudança oficial do nome: “É uma iniciativa de um vereador, mas que não vai prosperar. Não há mudança, o vereador não tem nem competência para fazer isso, porque esse parque aqui é um parque estadual e o nome desta área é Parque Lagoa do Abaeté”.

Agressão a manifestantes

Durante a saída do prefeito, os manifestantes que protestavam pacificamente, se colocaram à frente do seu carro, mas foram afastados de forma agressiva por homens que faziam a segurança e por alguns evangélicos presentes no local. O momento foi flagrado por outros manifestantes que filmavam a ação.

O Ogan Alan Oliveira (Terreiro Ilê Axé Araká), que é diretor e apresentador do programa Voz do Axé e representante da Frente Nacional Makota Valdina, foi uma das pessoas agredidas. Ele aparece em vídeos sendo derrubado no chão e mostrando seus óculos que foram quebrados durante a confusão.

“Eles vieram com tudo empurrando, inclusive empurraram Mãe Jacira, de 75 anos, que quase caiu, mas nós seguramos. Meus óculos foram quebrados, meu braço está ralado e tomei dois murros dos seguranças do prefeito”, contou Alan.

A luta continua

O projeto de urbanização, a PL de mudança do nome das Dunas do Abaeté e a repressão violenta dos manifestantes, elucidam o projeto político em curso no Brasil, centrado no fundamentalismo genocida cristão, que cerceia a liberdade de culto religioso das religiões de matriz africana, se omite diante da destruição de Terreiros e de  símbolos sagrados e criminaliza as práticas religiosas da Comunidade de Axé.

É inadmissível que, ao reivindicar a preservação dos seus símbolos, o Povo de Santo seja agredido em plena luz do dia por pessoas a serviço de um prefeito e por outros que se sentiram à vontade para isso, provavelmente por ter certeza da impunidade. 

As representações do Povo de Santo de Salvador seguem se organizando para barrar as práticas escancaradas de racismo religioso das quais são vítimas constantemente, sobretudo por parte do Estado que, em teoria, deveria garantir proteção e respeito às manifestações religiosas.

Já estão sendo articuladas novas manifestações e um Ebó Coletivo convocado pela Frente Nacional Makota Valdina. Um ato conjunto organizado por representantes de diversos Terreiros de Salvador será realizado na próxima segunda-feira (14) em frente à Câmara Municipal de Salvador. Maiores informações serão divulgadas em breve.

Estiveram presentes no ato da última quinta-feira representantes do Programa Voz do Axé e Site vozdoaxe.com, Frente Nacional Makota Valdina, Associação Pássaros das Águas, Associação Okutalewa, Remas, Coletivo Resistência Preta, TV Kirimurê, Informe Nordeste, Pedra de Xangô Oficial, Ilê Axé Ominijà, Ilê Axé Araká, Ilê Axé Abassa de Ogum, Ilê Tomi Kiosise Ayo, Terreiro Oya Matamba, Indígenas Tupinambás e Drive Thru do Povo de Axé.

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