Duas mulheres negras vítimas de feminicídio em menos de 24 horas na Bahia

Beatriz de Jesus e Jéssica Ribeiro foram mortas a facadas na frente de seus próprios filhos, em Uibaí e Salvador, respectivamente

Opinião Odara

Durante o último final de semana, o machismo, a violência e o ódio contra as mulheres atingiram fatalmente mais duas de nós. Beatriz de Jesus Loula (22) e Jéssica Ribeiro Reis (28) tiveram as suas vidas brutalmente arrancadas no auge da juventude, no domingo (10).

Beatriz foi assassinada a facadas pelo ex namorado, na cidade de Uibaí, microrregião de Irecê da Bahia. Embora as primeiras informações divulgadas pela Polícia Civil indicassem que a jovem  estava comemorando o aniversário em um bar quando o crime aconteceu, Claudia Machado de Jesus, mãe da vítima, relatou que a moça estava dentro da própria casa quando foi atacada na frente do filho de 7 anos. Em um crime parecido, no bairro Alto do Cabrito, Subúrbio Ferroviário de Salvador, Jéssica foi esfaqueada pelo próprio marido. O crime foi cometido na frente do filho de Jéssica, uma criança de 3 anos. A jovem também deixa uma filha de 12 anos. 

Até o momento, o assassino de Jéssica foi identificado apenas como Moisés. O homem que tirou a vida de Beatriz, sequer teve seu nome ou imagem revelados pela mídia ou pela polícia, o que pode dificultar as buscas, já que ambos abandonaram as cenas dos crimes e ainda não foram encontrados. 

Beatriz e Jéssica se somam às macabras estatísticas que demonstram o quanto é perigoso ser uma mulher negra na Bahia. Segundo o Atlas da Violência 2020, mulheres negras têm três vezes mais chances de serem mortas no estado: em 2019, 92% das mulheres vítimas de homicídio eram negras.

Em ambos os crimes bárbaros de feminicídio, os assassinos agiram a sangue frio e de forma premeditada, despejando sobre as vítimas todo o ódio secularmente construído contra as mulheres – sobretudo mulheres negras – pela cultura do patriarcado.

As crianças, que presenciaram cenas de violência extrema praticadas contra as suas próprias mães, terão as suas vidas marcadas pelo trauma e é possível que cresçam com um referencial confuso e deturpado de relacionamento afetivo.

Diante de tudo isso, nos perguntamos: Que educação e normas sociais fazem um homem acreditar que tem o legítimo direito de ceifar a vida de uma mulher? Por que tantas famílias percebem casais com relacionamentos abusivos e violentos e não intervém? Que tipo de amor pode ter sido vivenciado antes de que homens como estes pratiquem crimes tão bárbaros? Como sanar os traumas dos milhares de órfãos do feminicídio? E a mídia, por que insiste na naturalização do discurso do “crime passional” ou do “companheiro que não aceitou o fim do relacionamento” como justificativa para as nossas mortes? Será que acham normal sermos tratadas como propriedades, sem vontade própria e descartáveis? Ou costumam escolher essa abordagem porque grandes dramas geram mais audiência?

É triste e revoltante nos deparar com casos como esses dia após dia. É desgastante ter que continuar lutando pelo direito mais básico: o direito à vida. 

O Estado precisa, urgentemente, investir em políticas públicas de prevenção à violência contra as mulheres, desde a educação até o sistema de justiça. A Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia (SSP/BA) devem agir com empenho na prevenção de casos como esses e o Ministério Público (MP-BA) precisa fazer o seu papel de garantir a proteção jurídica pelas que vêm a ser vítimas da violência e justiça pelas que se foram.

E por esses e tantos outros motivos, sobretudo PELA VIDA DAS MULHERES NEGRAS, que nós, do Movimento de Mulheres Negras da Bahia, estaremos juntas no dia 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Afrolatinaamericana e Afro Caribenha, na Marcha das Mulheres Negras no Poder construindo o Bem Viver. Com concentração a partir das 14h, na Praça da Piedade, em Salvador.

Não podemos aceitar ou normalizar a banalização das nossas vidas e mortes.  Nenhuma a menos!

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