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Educação Quilombola: Formação de Professoras aproxima Alfabetização, Saberes Ancestrais e Territórios

Com 23 educadoras da Bahia e da Paraíba, ciclo formativo da Escola Beatriz Nascimento articula memória, oralidade e práticas pedagógicas para fortalecer a aprendizagem e a identidade de crianças quilombolas

*Por Brenda Gomes e Joanna Bennus | Redação Odara 

A escola também pode ser um lugar onde as crianças aprendem a reconhecer a história de suas comunidades, valorizar os conhecimentos das pessoas mais velhas e compreender o território como parte de sua identidade. Nas comunidades quilombolas, essa relação entre educação, memória e ancestralidade é fundamental para garantir que o processo de alfabetização não se limite ao aprendizado da leitura e da escrita, mas contribua para a preservação dos modos de vida e para o fortalecimento do pertencimento coletivo.

É nessa perspectiva que 23 educadoras que atuam na alfabetização de crianças quilombolas na Chapada Diamantina, na Bahia, e em Alagoa Grande, na Paraíba, participam da primeira turma de Formação de Educadoras Quilombolas da Escola Beatriz Nascimento (EBN), iniciativa desenvolvida em parceria com o Projeto Alumiar – Saberes Aquilombados na Educação. 

Iniciado em abril de 2026, o percurso formativo reúne discussões sobre arte-educação, oralidade, memória, feminismo negro, gênero e relações étnico-raciais, buscando aproximar os conhecimentos produzidos nas comunidades das práticas pedagógicas desenvolvidas nas escolas. A formação acontece em um contexto no qual o reconhecimento da educação escolar quilombola como direito ainda convive com desigualdades históricas de acesso, infraestrutura e valorização dos conhecimentos tradicionais. 

Para Iasmin Gonçalves, coordenadora do Programa de Educação do Instituto Odara, “embora a legislação brasileira reconheça as especificidades dessa modalidade de ensino, sua efetivação depende de políticas públicas capazes de assegurar condições adequadas de aprendizagem, formação continuada de professores e currículos que dialoguem com a realidade das comunidades”.

Para Francisca Fonseca, educadora, mulher quilombola, trabalhadora rural e militante do movimento quilombola e negro rural, reconhecer o território como espaço educativo é uma condição fundamental para a construção de uma escola que não reproduza o apagamento histórico das populações negras. “Nossos territórios quilombolas são territórios marcados pela rica produção de conhecimento, formação sociopolítica, lugar ou espaço privilegiado para todas as formas de aprendizagem, de conhecimento”, afirma.

Mestra em Educação, Francisca conduziu o primeiro ciclo da formação, dedicado à arte-educação como ferramenta pedagógica. Para ela, “as experiências comunitárias, as relações com a terra, as práticas culturais. É a escola abraçando o território como esse espaço produtor de conhecimento, é tornar possível a continuidade dos nossos modos de vida, do nosso modo de existir. Sem território não há educação escolar quilombola”, destaca.

BAHIA TEM O MAIOR NÚMERO DE MATRÍCULAS QUILOMBOLAS DO PAÍS

De acordo com o Censo Escolar de 2024, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil registrou aproximadamente 279 mil matrículas em escolas localizadas em territórios quilombolas, distribuídas por 690 municípios. A Bahia concentrava 88.035 dessas matrículas, cerca de 32% do total nacional, seguida pelo Maranhão, com 60.138 estudantes. Juntos, os dois estados reuniram mais da metade das matrículas do país.

O crescimento do número de estudantes matriculados, entretanto, não significa que todas as condições necessárias à aprendizagem estejam asseguradas. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, elaborado pelo “Todos Pela Educação” com dados do Inep, apenas 15,7% das escolas localizadas em terras quilombolas utilizavam materiais pedagógicos específicos para a educação quilombola em 2025. O indicador evidencia a distância entre o reconhecimento legal dessa educação e a presença de recursos adequados para sua implementação no cotidiano escolar.

As desigualdades também aparecem nos indicadores de aprendizagem. Um estudo publicado na revista científica Educação & Sociedade, com base no Censo Escolar de 2023, identificou que a taxa de distorção idade-série nos anos finais do ensino fundamental das escolas quilombolas do Nordeste era de 30,4%, enquanto a média de todas as escolas nordestinas era de 22,2%. Isso significa que quase um terço dos estudantes quilombolas nessa etapa frequentava séries incompatíveis com sua idade.

O levantamento também aponta diferenças na infraestrutura. Apenas 16,8% das escolas quilombolas nordestinas que ofertavam os anos iniciais do ensino fundamental possuíam biblioteca ou sala de leitura, contra 41,7% do conjunto de escolas da região. Os dados demonstram que a garantia de uma educação quilombola de qualidade depende não apenas do acesso à escola, mas também de investimentos em infraestrutura, materiais pedagógicos, formação docente e políticas educacionais construídas com a participação das comunidades.

MEMÓRIA, ORALIDADE E ALFABETIZAÇÃO 

Na Escola Severino Ramalho, localizada na comunidade Vila São João, em Alagoa Grande (PB), a professora Ana Klara Gomes Silva identifica mudanças na maneira como os conteúdos são trabalhados com as crianças. Participante da formação da Escola Beatriz Nascimento, ela relata que os encontros têm contribuído para incorporar ao cotidiano escolar experiências e conhecimentos presentes nas comunidades quilombolas.

“Cada encontro traz novos conhecimentos, propostas e experiências que enriquecem meu trabalho como professora”, afirma.

Entre as práticas desenvolvidas estão as chamadas “quilombovivências”, que aproximam as crianças das histórias, músicas, danças, cirandas e tradições de comunidades como Caiana dos Crioulos. Para Ana Klara, essas experiências permitem que os estudantes estabeleçam relações entre aquilo que aprendem na escola e os conhecimentos que circulam em seus territórios.

“São experiências que aproximam os alunos de sua cultura e despertam a curiosidade, a interação e o interesse em aprender”, relata.

A relação entre alfabetização, identidade e memória também orientou o segundo ciclo da formação, conduzido por Carla Cristina de Jesus, professora e mestra em Educação. Com o tema “Oralidade, Memória e Educação para as Relações Étnico-Raciais na Alfabetização”, o encontro discutiu como os conhecimentos transmitidos entre gerações podem contribuir para a aprendizagem.

“Alfabetização e letramento são processos de resistência. E quando há um acompanhamento nesse percurso, a gente compreende que tudo fica mais tranquilo, mais fácil, mais prazeroso, mais leve. Nós entendemos que o conhecimento é um conhecimento que tem identidade, que tem territorialidade, que tem memória, que tem ancestralidade. E é desse lugar que a gente dialoga. É desse lugar que emergem as nossas práticas pedagógicas”, afirma.

Durante a formação, a educadora mobilizou contribuições de intelectuais negras como Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, aproximando conceitos como escrevivência, pretoguês e quilombo das práticas educativas. Essas referências ajudam a questionar a centralidade de uma única forma de conhecimento na escola e ampliam as possibilidades de trabalhar a leitura e a escrita a partir das experiências das populações negras.

Na comunidade quilombola de Conceição, em Boninal, na Chapada Diamantina (BA), a educadora Nayara Lima Mendes dos Santos, da Escola Ângelo José Benigno, também percebe mudanças na relação dos estudantes com o território. Professora de turmas do 1º, 3º e 4º anos, ela define a formação como “um verdadeiro divisor de águas” em sua trajetória profissional e na vida das crianças.

Segundo Nayara, os estudantes passaram a demonstrar maior interesse pelas histórias da comunidade, a reconhecer os conhecimentos das pessoas mais velhas e a valorizar suas próprias origens. Para ela, essas experiências fortalecem o sentimento de pertencimento e identidade, “tornando a aprendizagem mais viva, afetiva e significativa”.

VALORIZAÇÃO DOS CONHECIMENTOS QUILOMBOLAS 

A presença das mulheres negras na construção de conhecimentos, nas práticas educativas e nas estratégias de resistência também integra o percurso formativo. No terceiro ciclo, dedicado ao tema “Feminismo Negro, Gênero e Educação”, as educadoras discutiram contribuições de intelectuais e ativistas negras para pensar uma educação comprometida com o enfrentamento do racismo e das desigualdades de gênero.

A atividade foi conduzida pela professora Dailza Araújo, docente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), que durante o encontro abordou reflexões de autoras como Ângela Figueiredo, Silvana Bispo, Shirley Pimentel, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro e Valdecir Nascimento. A proposta foi aproximar essas produções intelectuais das experiências das educadoras quilombolas e reconhecer o conhecimento construído no cotidiano das comunidades.

“Juntas estivemos vivendo aquilo que nós chamamos de quilombo vivência, as experiências práticas pedagógicas situadas em contextos quilombolas. Foi maravilhoso poder compartilhar e poder também aprender com essas educadoras e educadores em seus territórios, a partir de suas vivências e, principalmente, percebê-las como produtoras do conhecimento. Um conhecimento situado e que, principalmente, é um conhecimento que está ancorado nos saberes ancestrais”, afirma Dailza.

A perspectiva apresentada pela pesquisadora desloca a ideia de que o conhecimento acadêmico deve ocupar uma posição superior aos saberes comunitários. Ao contrário, propõe uma relação de troca, na qual a formação docente também se constitui como espaço de escuta, reconhecimento e produção coletiva de práticas pedagógicas.

Ao reunir conhecimentos acadêmicos, experiências comunitárias e práticas de alfabetização, os ciclos da Escola Beatriz Nascimento apresentam uma possibilidade de aproximação entre o currículo escolar e a realidade das crianças quilombolas. Seus resultados, ainda em construção, aparecem nos relatos das professoras sobre maior participação dos estudantes, valorização das histórias locais e novas formas de trabalhar a leitura e a escrita.

Garantir uma educação escolar quilombola significa assegurar às crianças o direito de aprender sem que suas histórias, identidades e modos de vida sejam apagados. É reconhecer que os conhecimentos produzidos nos territórios também pertencem à escola e que a alfabetização pode contribuir para que novas gerações tenham condições de conhecer, preservar e transformar suas próprias realidades.

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