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Feira de Saúde marca retomada da Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá e reafirma o terreiro como espaço de cuidado

Ação realizada durante o Julho das Pretas reuniu serviços gratuitos de saúde, práticas integrativas e atividades comunitárias, fortalecendo o acesso da população negra ao cuidado integral em Passagem dos Teixeiras, em Candeias (BA) 

Redação Odara

Mais de 150 pessoas participaram da Feira de Saúde promovida pela Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá, em parceria com o Odara – Instituto da Mulher Negra, no último sábado (18), em Passagem dos Teixeiras, no município de Candeias (BA). Realizada das 8h às 16h, como parte da programação da 14ºª edição do Julho das Pretas, a ação ofertou diversos atendimentos gratuitos, entre consultas com clínico geral e pediatria, fisioterapia, vacinação, testes rápidos para HIV ISTs, aferição de pressão arterial e glicemia, orientação nutricional, práticas integrativas de cuidado, como auriculoterapia, massoterapia e ventosaterapia, orientações sobre saúde sexual e reprodutiva, distribuição de preservativos e absorventes.

Mais do que ampliar o acesso da comunidade aos serviços de saúde, a feira marcou a retomada das ações da Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá e simbolizou a ocupação do ambulatório comunitário, referência em ações de promoção da saúde em Passagem dos Teixeiras.

A Escola Padre Manoel da Nóbrega, vizinha ao ambulatório, também foi parceira da Feira e realizou várias atividades voltadas para as crianças e foi apoio nas orientações de cidadania e assistência.

Essa iniciativa  reafirma a compreensão de que os terreiros de candomblé além de promover o cuidado espiritual, também são territórios de cuidado, acolhimento, de produção de educação e o papel comunitário na defesa do acesso a direito à saúde e do sistema único de saúde (SUS).

A Retomada do Ambulatório

Desde o início da Feira, a população já estava presente na Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá. Enquanto os profissionais de saúde organizavam os atendimentos, crianças, jovens, adultos e pessoas idosas circulavam pelos diferentes ambientes  do evento, ocupando novamente um espaço que, durante muitos anos, foi referência em ações voltadas ao cuidado coletivo. 

Para a presidente da Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá, Vanessa Kehinde, ver novamente o ambulatório em funcionamento representa o início de um novo ciclo. “Hoje estamos realizando a Feira de Saúde. É uma retomada das ações sociais da Associação e é muito satisfatório, vendo ele funcionando, vendo esse fluxo de gente, de pessoas da comunidade de Passagem dos Teixeiras que realmente precisam de assistência, atenção, cuidado e acolhimento”, comenta Kehinde, que além de presidente da associação, é enfermeira e Ebomy do terreiro.

A emoção também marcou a participação da Yalorixá Raidalva dos Santos, fundadora do Ilê Axé Oyá Tolá e idealizadora da Associação. Ao acompanhar a abertura da Feira, ela celebrou o reencontro da comunidade com um projeto que sempre compreendeu o cuidado como parte da missão do terreiro. Ela fala também sobre o compromisso e o legado deixado pelos ancestrais e que deve ser continuado.”Os nossos ancestrais deixaram para nós a possibilidade de dar continuidade a esse legado. O terreiro de candomblé não é só religião. É um lugar onde tem saúde, onde tem educação, onde tem formação, onde tem amor. O terreiro de candomblé é um lugar de acolhimento”, comenta a Iyá de 83 anos, que dedica sua vida ao ativismo contra o racismo e a intolerância religiosa.

Saúde Como Prática Ancestral

Nos terreiros de candomblé, o cuidado sempre fez parte da construção da vida comunitária. É nesse território que a espiritualidade, o acolhimento, a educação e a saúde se encontram, reafirmando uma compreensão ancestral de que cuidar das pessoas e da comunidade também é garantir dignidade e proteção. 

Durante a mesa de abertura da Feira de Saúde, Ekedy Sinha, liderança religiosa do Terreiro da Casa Branca (Ilê Axé Iyá Nassô Oká), referência nacional na promoção da saúde da população negra e das comunidades de terreiro, destacou que essa relação entre saúde e ancestralidade faz parte da história dos povos de matriz africana. “Cuidar da saúde é uma prática ancestral (…) A gente não cuida só do espiritual, a gente cuida das pessoas”. A fala da liderança reflete diretamente a proposta da Feira, que é transformar o terreiro em um espaço de acesso à saúde integral, reunindo saberes ancestrais e mobilizando a comunidade a acessar políticas públicas.

Os atendimentos também evidenciaram demandas relacionadas ao acesso à atenção básica e reforçaram a importância de ampliar espaços de escuta, acolhimento e cuidado para a população negra. De acordo com Vanessa Araújo, esteticista e participante da Feira, para muitas mulheres, aquela foi a primeira oportunidade de experimentar terapias integrativas voltadas ao relaxamento, ao alívio das tensões e ao cuidado com a saúde física e emocional. “Muitas mulheres nunca tinham feito auriculoterapia ou recebido uma massagem. Elas saíram daqui relaxadas e dizendo: ‘Quem dera tivéssemos esse cuidado sempre’. Isso mostra como o autocuidado também é importante para manter a saúde física e mental.”

Ao aproximar práticas integrativas, atendimento clínico e saberes ancestrais, a Feira reafirmou que o cuidado com a saúde também passa pelo autocuidado e pela valorização dos conhecimentos produzidos nos territórios de terreiro. 

Um legado que atravessa gerações

Entre os atendimentos, os reencontros e a intensa movimentação da Feira de Saúde, havia também quem percorresse o espaço movido pela memória. Para muitas mulheres presentes, voltar ao ambulatório da Associação significava relembrar um pouco do passado.

Em 2002, o espaço já havia acolhido uma das iniciativas comunitárias, que foi a Creche criada por Mãe Raidalva para atender, principalmente, os filhos e filhas das mulheres marisqueiras da comunidade, oferecendo alimentação, educação e proteção enquanto suas mães trabalhavam.

Durante a mesa de abertura da Feira, Maurício Reis, Ogan de Obaluaê,  relembrou que a retomada das atividades da Associação também representa o fortalecimento de um legado construído ao longo de décadas. “Entre 2002 e 2012, foram 569 crianças atendidas pela creche, entre um e oito anos. Nesse período também foi possível formar professoras e professores que começaram como voluntários e seguiram a carreira da docência.”

Segundo ele, assim como aconteceu com a creche, o ambulatório sempre foi pensado como um equipamento comunitário, aberto para atender gratuitamente moradores de todas as idades. “Esse espaço sempre esteve aberto para crianças, jovens e adultos. Hoje é um momento importante de celebrarmos esse encontro, vendo novamente esse atendimento gratuito acontecendo dentro da comunidade.”

Ao acompanhar a Feira, antigos alunos da creche e suas famílias voltaram à associação para celebrar esse novo momento. Foi o caso de Ingrid Santos, que passou parte da infância na Creche da associação e hoje vê na retomada das ações do espaço uma esperança para outras crianças da comunidade. “Fui aluna da creche e agora estou vendo tudo voltar como era antes. Isso representa uma oportunidade para mães que precisam trabalhar e terem um lugar de acolhimento para deixar seus filhos. Um lugar de proteção, de carinho.” 

O reencontro também emocionou Lilian Conceição, uma das mães que confiaram seus filhos aos cuidados da creche. Ela lembra que o projeto permitiu que muitas mulheres conquistassem autonomia financeira sem abrir mão da segurança dos filhos. “Para mim, a creche foi uma maravilha. Naquele período, muitas mães não tinham onde deixar seus filhos para trabalhar. Aqui a gente tinha segurança. Podíamos sair para trabalhar e voltar sabendo que nossos filhos estavam em boas mãos.”

Esse desejo se relaciona com a trajetória construída por Mãe Raidalva. Desde a fundação do terreiro, o cuidado com a comunidade sempre fez parte da missão religiosa. Primeiro com a fundação da creche, depois com o ambulatório e, agora, com a retomada das atividades da Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá.

A Feira de Saúde mostrou que esse legado permanece vivo. Ao reunir diferentes gerações em torno do cuidado coletivo, o evento reafirmou que o terreiro continua sendo um espaço onde a saúde, a educação, a solidariedade e o acolhimento caminham juntos.

Um recomeço para a comunidade

Para a Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá a Feira representa o início da retomada de um trabalho que, ao longo de décadas, transformou a vida de centenas de famílias da comunidade. A expectativa é que novas ações sejam realizadas nos próximos meses, ampliando o acesso da população aos serviços de saúde e reativando projetos que fizeram parte da história da Associação e da comunidade de Passagem dos Teixeiras. Entre eles está o sonho de recuperar o gabinete odontológico instalado no ambulatório, equipado para atender crianças, jovens e adultos, mas que permaneceu desativado durante anos pela ausência de profissionais.

Para Mãe Raidalva, esse é um compromisso que continua mobilizando toda a comunidade. “Eu quero que essa feira cresça. Quero outras feiras. Quero gente aqui sendo atendida, sendo vista. Quero as minhas crianças sendo atendidas. Vamos batalhar pelo nosso gabinete dentário, porque cuidar da saúde bucal também é cuidar da nossa comunidade.”

Mais do que uma celebração, a Feira de Saúde marcou a continuidade de um projeto coletivo iniciado há mais de quarenta anos por Mãe Raidalva e fortalecido por diferentes gerações que mantiveram vivo o compromisso do terreiro com a comunidade.

Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Instituto Odara, a realização da feira reafirma o compromisso das mulheres negras com a defesa da vida, da saúde e do Bem Viver. “O Julho das Pretas é um período em que aterrizamos a luta das mulheres negras contra o racismo, contra o patriarcado e todas as formas de violência.”

Nesse sentido, ao integrar a programação da 14ª edição do Julho das Pretas, a Feira reafirma que promover saúde também é enfrentar as desigualdades raciais e fortalecer experiências comunitárias construídas pelas mulheres negras e pelos povos de terreiro. A retomada da Associação dos Amigos do Ilê Axé Oyá Tolá aponta para um futuro em que a saúde da população negra é construída a partir da articulação entre políticas públicas, organização comunitária e saberes ancestrais. Um futuro em que o cuidado é compreendido como direito coletivo e em que os terreiros seguem reafirmando seu papel como espaços de promoção da vida, da saúde e do Bem Viver.

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