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Na Bahia de “todos os santos”, o racismo religioso é opressão cotidiana contra os povos e os símbolos de religiões de matriz africana

Ataques a terreiros, truculência policial, vandalismo em monumentos e violação a locais sagrados são alguns dos episódios vivenciados no estado

Redação Odara

Quando pensamos nos elementos que compõem a cultura da Bahia, as religiões de matriz africana são um dos primeiros símbolos que vêm à cabeça. É comum, por exemplo, ver elementos do candomblé representados na ficção e em peças publicitárias que divulgam o turismo local, ou decorando ambientes de hotéis e restaurantes refinados, em Salvador. Mas será a Bahia realmente um estado tão aberto e respeitoso à prática dessas religiões? 

Elencamos alguns casos marcantes de racismo religioso que aconteceram durante as duas últimas décadas para demonstrar que, embora tenha sido construída uma visão midiática de exaltação às religiões de matriz africana na Bahia, o Povo de Santo por aqui ainda precisa resistir cotidianamente às práticas violentas motivadas pelo ódio aos seus corpos, templos e símbolos sagrados. 

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil (Caso de Mãe Gilda)

Em outubro de 1999, o jornal Folha Universal, produzido e distribuído pela Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), publicou uma capa onde aparecia uma foto de Mãe Gilda com o título “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.

Com a repercussão da matéria, a sacerdotisa fundadora do Ilê Axé Abassá de Ogum – localizado no bairro de Itapuã, em Salvador (BA) -, sofreu uma série de ataques à sua imagem e ao seu Terreiro, que chegou a ser invadido em duas ocasiões naquele período. Durante as invasões, símbolos sagrados foram violados e a Ialorixá foi agredida verbal e fisicamente pelos vândalos. Mãe Gilda não resistiu aos ataques, falecendo em 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto. Desde 2007, a data do seu falecimento é marcada como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil.

Da truculência da PM baiana, nem Orixá está a salvo

Era outubro de 2010 quando um grupo de policiais militares fortemente armados invadiu o assentamento Dom Helder Câmara, em Ilhéus, no Sul da Bahia. Após vasculharem a sede da associação de moradores da comunidade foram questionados pela liderança comunitária e Ialorixá Bernadete Souza sobre a ilegalidade daquela ação, já que o assentamento é em uma área do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), de responsabilidade da Polícia Federal (PF). Bernadete foi então algemada e puxada pelos cabelos, e então incorporou o Orixá  Óxossi. 

Alguns assentados que presenciavam a ação truculenta da polícia perceberam a presença do Orixá e pediram para que a polícia parasse e como resposta tiveram armas apontadas para as suas cabeças. Segundo as testemunhas, as agressões continuaram, Mãe Bernadete foi jogada em um formigueiro e arrastada pelos cabelos por cerca de 600 metros até a viatura. Ao acordar do transe, a Ialorixá descobriu o que tinha acontecido a partir do corpo todo marcado pelas picadas de formiga, e pelo relato da comunidade.

Vandalismo e ataques à memória

Na Bahia, são sucessivos os ataques realizados contra monumentos públicos instalados em homenagem a sacerdotes e sacerdotisas do candomblé. Em muitos casos, mesmo após fazer a passagem, esses líderes religiosos seguem tendo a sua memória atacada e desrespeitada por fundamentalistas cristãos.

Instalado no Parque do Abaeté, em Salvador (BA), o busto que homenageia Mãe Gilda já foi vandalizado duas vezes. Em maio de 2016 o busto precisou ser restaurado e reinaugurado após os ataques. Em 2020 o busto foi apedrejado por um homem que dizia estar “a mando de Deus”. Novamente o monumento foi danificado pelo ataque.

Em dezembro de 2022, uma estátua que homenageia a memória de Mãe Stella de Oxóssi – líder do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, de Salvador (BA), falecida em 2018 – foi danificada por um incêndio criminoso. Não foi o primeiro ataque sofrido. Em 2019, a obra de arte que mede 8,5m de altura e fica em uma via movimentada que dá acesso ao aeroporto de Salvador, foi pichada e teve uma placa arrancada.

Violação de espaço sagrado

A região do Abaeté, em Salvador (BA), abriga inúmeros Terreiros de Candomblé e monumentos em homenagem à Mãe Gilda de Ogum e Mãe Stella de Oxóssi. As Dunas do Abaeté são secularmente utilizadas pelo povo de santo para a realização de rituais religiosos. No entanto, um projeto da prefeitura municipal tem ameaçado essa convivência harmônica e a continuidade das tradições sagradas.

O projeto de urbanização do Parque Metropolitano do Abaeté é alvo de críticas e questionamentos pela possibilidade de gerar impactos ambientais negativos para a região – já que nenhum relatório foi apresentado nesse sentido -, além de violar locais considerados sagrados para as religiões de matriz africana. As obras foram iniciadas em fevereiro de 2022 e apesar das muitas manifestações realizadas no local, segue avançando.

Além da obra de urbanização, também tramitava na Câmara Municipal de Salvador um Projeto de Lei (PL) criado pelo vereador evangélico Isnard Araújo (PL) sugerindo que o local passasse a se chamar Monte Santo Deus Proverá. Após ser pressionado por Comunidades de Axé e Movimentos Sociais, o vereador retirou o projeto de tramitação.

Intolerância religiosa x Racismo religioso

Os casos que apresentamos acima são apenas alguns dentre tantos que foram denunciados nos últimos anos. Para se discutir e pensar em estratégias e políticas públicas nesse campo, é necessário, primeiramente, assumir a narrativa de racismo religioso enquanto elemento motivador de tantas violências. A constituição das religiões de matriz africana no Brasil foi parte do processo de resistência do povo negro diante do tráfico negreiro e escravização que perduraram por quase quatro séculos.

Como falar em intolerância religiosa – de forma tão ampla – se existem corpos e religiões específicas sendo alvo de opressões? Que outras religiões têm seus templos invadidos e violados no Brasil? Ninguém precisa ter medo de andar na rua segurando uma bíblia ou um terço, mas o risco de ser atacado verbal e fisicamente é real se você estiver usando roupa branca e contas de Orixá no pescoço.

Abordar a questão a partir da perspectiva do racismo religioso é fundante para pensar em reparação e garantia de liberdade de culto para o povo negro. É reconhecer que a demonização a essas religiões está totalmente atrelada à demonização e criminalização do próprio povo negro e de suas práticas ancestrais. 

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