Autonomia, Justiça, Direitos Sexuais e Reprodutivos: meninas negras pelo Bem Viver

Analisando a estrutura da sociedade, vemos que há diversas falhas. A saúde sexual e reprodutiva da menina negra é um ponto extremamente importante. Quando falamos de meninas negras e saúde, falamos da falha abrangente que existe na sociedade, pois o direito nos é tirado, ou melhor, nunca nos foi dado. Nós, meninas  negras, na maioria das vezes, não temos acesso à saúde. A falta desse acesso é um ponto crucial da falha no sistema.

A saúde ginecológica tem muito a ver com a reprodutiva, com a forma com que nossos corpos são violados; e como somos acionadas por uma sociedade racista e machista a sermos aptas a maternidade é algo sério e que deve ser uma escolha da mulher. Vivemos em uma sociedade arcaica que ainda acha que, por sermos mulheres, temos que viver a maternidade, e sempre romantizam. Existem meninas que não querem passar pela maternidade; e tem outros objetivos enquanto menina negra.

Tendo em vista que muitas mulheres negras devem ter o direito sobre os seus corpos, assim como as meninas negras, a importância da autonomia se resume ao próprio significado, a capacidade de governar-se pelos próprios meios. O Direito Sexual é também a liberdade de viver e de expressar a nossa sexualidade sem preconceito ou julgamento, mantendo o respeito perante a sexualidade uma das outras, e diante de nossas escolhas.

Os corpos das meninas, adolescentes e mulheres negras são hipersexualizados, sendo assim, vistos como objetos de consumo. As consequências dessa hipersexualização são abusos, assédios e agressões físicas e psicológicas. O abuso sexual não afeta apenas a integridade física das meninas negras, mas também acaba afetando o psicológico, fazendo com que nunca mais consigamos ser as mesmas, muitas vezes, deixando de estudar. Quando  nossos corpos são violados, temos que passar pela dor e pela culpa, que, mesmo não sendo nossa, carregamos, e somos culpabilizadas.

A dor que carregamos no dia a dia quando essa violação gera uma gestação indesejada e a forma com que somos pressionadas a levar essa gestação adiante causam insegurança. A gravidez indesejada afeta mais as meninas negras. A falta de direito ao aborto faz com que a nossa única opção seja o aborto clandestino, arriscando nossa vida e nossa saúde. Tudo isso evidencia a falha desse sistema que defende sempre o ventre e nunca o corpo violado.

Quando temos um processo de violação, perdemos o direito de escolha, perdemos o direito à sexualidade, à reprodução, a ter um parceiro ou parceira, às possíveis formas de maternidade e de relação. 

Por isso, nós, meninas negras, queremos justiça.

Queremos o direito de sermos ouvidas perante a lei, queremos verbas para nossos cuidados durante o período menstrual, porque não queremos uma lei para ficar somente no papel; nós queremos verbas para essa lei ser exercida até mesmo porque não adianta impor regras e não dar material para que elas sejam cumpridas;

Nós, meninas negras, queremos uma lei para profissionais da saúde; uma lei na qual os profissionais sejam obrigados a ter um curso preparatório para casos de estupro e violência contra as meninas negras;

Queremos profissionais capazes de nos ajudar, confortar e identificar as violações com o melhor profissionalismo; e queremos que os violentadores das meninas negras sejam devidamente punidos;

Nós, meninas negras, queremos acompanhamento psicológico, porque, quando uma criança é violentada, ela apresenta sinais em seu comportamento; e queremos profissionais de várias áreas que saibam lidar com essas situações;

Queremos reivindicar uma lei, da qual seja obrigatório falar sobre educação sexual dentro das escolas, porque, a partir do momento que uma menina não sabe que foi violentada por falta de informação, é culpa do governo por não disponibilizar uma educação adequada;

Nós, meninas negras, queremos o direito à educação menstrual não só nos lares, como nas escolas, porque, em muitos lares, a educação menstrual é um tabu. Queremos também saber sobre o uso dos medicamentos corretos;

Então, sim, queremos reivindicar esses direitos para que esse tipo de educação ajude várias meninas, inclusive em relação a necessidade do aborto, a saber sobre nosso direito à liberdade de lidar com o nosso corpo como bem entendermos.

Nós, meninas negras, sabemos quanto é importante ter a saúde mental em um bom estado para sobreviver e aguentar todo esse problema sobre nosso corpo e nossa segurança física e mental, em uma sociedade que sempre sexualizou o corpo da mulher e da menina negra. 

Nós, meninas negras Ayomide Odara, 

queremos meninas negras construindo o Bem Viver!

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