Eleições é tema de encontro entre o Movimento de Mulheres Negras de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras do Nordeste 

Ação faz parte do cronograma de encontros presenciais da Rede Nordeste com movimentos de mulheres negras da Região, e foi recebida pela Rede de Mulheres Negras de Pernambuco

Redação Odara

A coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, composta pela Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba, Ayabás – Instituto da Mulher Negra do Piauí e Odara – Instituto da Mulher Negra, participou de um importante encontro com o Movimento de Mulheres Negras de Pernambuco, com o tema “Lutas e Resistências das Mulheres Negras”. A atividade aconteceu na noite da última sexta-feira (14), no Auditório Dom Helder Câmara, no bairro de Santo Amaro, em Recife (PE) e foi organizada pela Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, organização da Rede Nordeste no estado.

Na abertura do encontro, contamos com um café carinhosamente preparado para receber as mulheres. Na sequência, tivemos uma mesa de análise de conjuntura com foco nas eleições, mediada por Piedade Marques, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e da Campanha Eu Voto em Negra; com a participação de Valdecir Nascimento, do Instituto Odara; Mônica Oliveira, da Rede de Pernambuco; Dani Portela (Psol-PE), vereadora de Recife em exercício e deputada estadual eleita; Suzi Rodrigues (PT-Pe), sindicalista bancária e ex candidata a deputada estadual em Pernambuco; Robeyonce Lima, codeputada estadual pelas Juntas Codeputadas na Assembleia Legislativa, e suplente a Deputada Federal.

Na abertura, Piedade explicou que o objetivo do encontro além de apresentar a Rede de Mulheres Negras do Nordeste, era para refletir sobre a realidade das mulheres negras em Pernambuco e os primeiros resultados eleitorais protagonizados pelas mulheres negras no estado e na região.

Valdecir destacou que nossa principal vitória nessas eleições foi em relação à narrativa da importância das mulheres negras no poder, mas que isso ainda assim não se reverteu em votos. “Precisamos repensar as estratégias. O controle social do movimento sobre as instituições públicas precisa se intensificar, porque de regulação em hospital a vaga em escola pública, tudo vira barganha de voto nos nossos estados”, destacou. Valdecir também comentou sobre as formas de conquistar as pessoas negras a votarem em pessoas negras, refletindo sobre o quadro da Bahia. “Não é verdade que nós, negros, nos odiamos. Mas precisamos entender como chegar nos nossos de modo a formar e sensibilizar sobre eleição”.

Mônica iniciou falando que a nível de Brasil, o Bolsonarismo sai fortalecido do primeiro turno. Ainda assim, ela apresentou números que falam sobre o crescimento da bancada de esquerda, de negros e de mulheres. Ao refletir sobre o estado de Pernambuco, Mônica apresenta um cenário negativo em relação ao bolsonarismo na Assembleia e eleitos para a câmara de deputados. Ela traz ainda a importância do fortalecimento contínuo das mulheres negras na política. “Temos que construir tijolo por tijolo, e como a gente trabalha com o imediato e o estruturante, precisamos investir na reforma do sistema político. Esse modelo em vigor é pra gente não entrar”.

Na sequência, Dani Portela (Psol-PE) destacou como as estratégias das mulheres negras nos espaços partidários precisa ser coletivo. “Precisamos refletir sobre como fortalecer a nossa fotografia do poder nas próximas eleições”. Dani também destacou a importância de pensarmos formas de garantir a segurança das mulheres negras na política, e contou 

das ameaças, inclusive de morte, que ela vem recebendo desde sua incidência na Câmara de Vereadores contra a entrega dos títulos de cidadãos recifenses para o atual presidente Jair Bolsonaro, e sua esposa, Michele Bolsonaro.

Ela mencionou um e-mail de ameaça que recebeu, de uma conta de e-mail hackeada do exército brasileiro: “Eu queria saber como é que uma proposta como essa são de uma negra que não sabe seu lugar, que ao invés de ser doméstica se mete a vereadora do Recife”.

Suzi Rodrigues denunciou a distribuição de recursos entre os partidos e a necessidade da crítica interna. “Como faremos um movimento para que dentro dos nossos partidos nós sejamos as mulheres combativas que somos. Eu quero ajudar meu partido a melhorar sem me negar”.

Robeyonce falou sobre seus 80 mil votos para deputada federal e explicou o funcionamento do coeficiente eleitoral, que fez com que ela não se elegesse, e alcançasse a suplência de Túlio Gadelha (Rede-PE). Ela celebrou a eleição de duas mulheres trans na Câmara de Deputados, Érika Hilton, em São Paulo, e Duda Salabert, de Minas Gerais. Robeyonce ainda destacou como as fake news influenciam na performance eleitoral. “Há uma distorção muito grande de tudo que a gente defende, o antirracismo, o feminismo, e o antiproibicionismo, tudo a direita distorce. Já conversei com mulheres no processo de campanha que diziam ter dúvida do voto em Lula porque ouviram que ele proibiria de ler a bíblia”.

Ao abrir para o debate, Ceiça, da ANPISINEP, traz a importância do diálogo com as pessoas evangélicas. “A maioria das mulheres negras pobres são evangélicas e a maioria dos evangélicos são mulheres negras. Precisamos dialogar com nossos irmãos”.

Ingrid Farias, da Rede de Pernambuco e da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), refletiu sobre qual esquerda queremos construir. “Precisamos refletir como a direita vem se fortalecendo ao longo dos últimos anos, e até antes da eleição de Bolsonaro. Precisamos entender como a fome foi usada como moeda de troca de voto, nas periferias do Brasil”.

Flora Rodrigues, da Rede de Pernambuco e da Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF), relembrou Lélia Gonzalez, que denunciou o PT e a esquerda brasileira por racismo por omissão em 1980.

Após o retorno à mesa e as considerações finais das participantes, Valdecir apresentou a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e convocou as mulheres a conhecer e participar da Rede para pensar ações articuladas na região. 

A série de encontros estaduais é uma estratégia para fortalecer o movimento de mulheres negras, aprofundar as leituras de contexto na região no pós pandemia, promover espaços de escuta e de denúncia e tem marcado a retomada das atividades públicas presenciais. Os contextos apresentados nos estados irão orientar a incidência política da Rede no próximo ano. Os encontros fazem parte de um projeto do Instituto Odara, com apoio da ONU Mulheres e da Heinrich Böll.

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