#OpiniãoOdara – Mais um 8 de Março que revela: Não haverá unidade feminista sem a exposição dos privilégios da branquitude, e nós, mulheres negras, seguiremos por nossa própria conta

Mais um 8 de Março onde as ruas do país foram tomadas em “celebração” ao Dia Internacional da Mulher. Os clamores por “igualdade e justiça” se espalharam pelo Brasil. Contudo, nestas manifestações, em meio à urgência das demandas do universo e disparidades em “ser mulher”, está a invisibilidade das agendas políticas que tratam sobre as vidas e prioridades das mulheres negras, suas famílias e comunidades. Até na cidade do “orgulho afro”, Salvador, as pautas das mulheres negras só ganham destaque quando protagonizadas por nós mesmas.

Já sabemos que o discurso universal do feminismo e dos direitos humanos não nos garante nada! E por isso que nós, dos movimentos de mulheres negras, ano a ano esvaziamos cada vez mais as marchas universais do #8M para construir nossas próprias atividades, como tem sido o Março de Lutas. Não porque “nós mulheres negras somos as mais bonitinhas”, como brinca nossa griô Valdecir Nascimento. Mas sim porque as lutas contra o racismo, a violência policial, a mortalidade materna, a precariedade no sistema de saúde, a luta por uma educação que não seja um espaço de violência para meninas negras, são questões que frequentemente são colocadas em segundo plano, enquanto pautas sem dimensão racial são priorizadas, e muitas vezes diluídas em discursos genéricos sobre “empoderamento feminino” ou “sororidade”, sem nenhuma análise da conjuntura caótica e genocida que seguimos vivenciando enquanto povo negro.

Enquanto esses atos do Dia Internacional das Mulheres são organizados com temas como ”Defesa da democracia, igualdade salarial e contra todos os tipos de violência”, de quem são os corpos, os territórios e identidades visibilizadas nessas pautas que orientam os temas das manifestações nacionais? Não queremos ser plurais só no cartaz. Existe um corpo, território ou identidade que seja universal para as mulheres no Brasil? Entendemos que essa lógica precisa mudar e que não deve ser só responsabilidade dos movimentos de mulheres negras unir forças para esse enfrentamento, pois não existe aliança coletiva enquanto seguirmos invisibilizadas. Enquanto o racismo for bandeira bonita na foto, hashtag e objeto de token.

É inaceitável que em um país como o Brasil, onde as mulheres negras enfrentam taxas alarmantes de violência, em que 41,3% das mulheres negras brasileiras vivem abaixo da linha de pobreza, exclusão social, onde somos as maiores vítimas de violência obstétrica, as que recebem menos investimento dos partidos, as mais assassinadas – seja pelo feminicídio, pelo braço armado do Estado ou pela morte subjetiva em vermos nossos familiares mortos pelo racismo -, nossas vidas e lutas seguem negligenciadas nas narrativas universais de “direitos das mulheres”.

É preocupante o uso oportunista da data para agendas políticas partidárias, como a defesa incondicional de figuras políticas como o presidente Lula, cujo partido durante a última eleição investiu cerca de 3,5 vezes mais em candidaturas de homens brancos do que de mulheres negras. Entendemos que a disputa política partidária é importante, mas estamos cansadas da pilantragem destas instituições, sobretudo de falsos aliados da esquerda branca, que em manifestações e homenagens nesta data desviam o foco das questões centrais que afetam as mulheres, incluindo o racismo – que transforma o sexismo ainda mais fatal para as mulheres negras.

Nas muitas programações de Marchas do 8M, Brasil afora, obviamente todas tiveram a participação de mulheres negras, mas em quase nenhuma o racismo estava como pauta em destaque temático, só quando era articulado especificamente por movimentos de mulheres negras. O tema da Palestina apareceu em alguns protestos, o que é importante, mas ao mesmo tempo apresenta a falta de comoção com a realidade do genocídio antinegro oeprado no Brasil. Com isso não estamos ignorando as injustiças em outras partes do mundo, mas sim reconhecendo que a urgência e a gravidade das desigualdades raciais encontram-se também aqui em nosso próprio país e segue com poucas alianças para enfrentamento coletivo.

Enquanto o debate universalizado exige “igualdade de gênero” no mercado de trabalho, sequer mencionam que 65% das trabalhadoras domésticas no Brasil são mulheres negras e têm renda média inferior a um salário mínimo, segundo o Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas (Dieese). No debate sobre acesso à educação, sequer fazem a auto reflexão de que as mulheres brancas têm níveis de escolaridade em média muito maior  que as  mulheres negras e a relação que isso tem com as diversas violências do racismo, da precarização da educação básica e do epistemicídio. 

A quem importa a vida das mulheres negras? De suas crianças e jovens? De seus idosos? Há uma história de exclusão e marginalização das mulheres negras no movimento feminista e nas várias frentes da sociedade civil em defesa dos direitos humanos. Admitir e enfrentar isso é fundamental para a vitória da luta contra o patriarcado – porque já nos chateia repetir às nossas “companheiras” brancas o quanto este é inerentemente racista.

E solidariedade às demandas das mulheres negras não é só sobre representatividade – como insiste o discurso neoliberal, mas é entender o racismo como atravessador de todas as pautas feministas, de todas as demandas sociais. É entender que não faz sentido a luta pelo direito ao aborto legal, se este não estiver atrelado à luta contra a o extermínio da juventude negra, porque sim, acreditamos na defesa inegociável de que as mulheres precisam escolher se querem ou não gerar e parir, tal qual necessitamos de solidariedade ao direito das mulheres negras em ter seus filhos, vê-los crescer com saúde e segurança, sem que sejam arrancados de nossos braços pelo Estado genocida.

Não haverá unidade feminista sem a derrota dos privilégios, sem o recolhimento da luta contra o racismo como centralidade para a autonomia das mulheres. Nós, mulheres negras, somos as sujeitas mais abertas e solidárias às dores de todo mundo, mas não aumentaremos as fileiras de marchas hegemonizadas pela branquitude. E não temos problema nenhum em seguir por nossa própria conta, sempre foi assim! Foi assim que em novembro de 2015 colocamos 100 mil mulheres nas ruas em “Marcha contra o Racismo a Violência e pelo Bem Viver”. É assim que convocamos as nossas irmãs para a meta de sermos 1 milhão em novembro de 2025 na 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras. É assim que convidamos as feministas brancas para um processo real de enfrentamento aos problemas mais graves que o patriarcado racista gera para a maioria das mulheres brasileiras. E é assim, que seguiremos dizendo a sociedade brasileira: Nós, mulheres negras, temos a solução para essa nação!

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