Parlamentares negras trocam experiências com cursistas da Escola Beatriz Nascimento

Seja no Brasil, na Costa Rica ou no México, mulheres negras enfrentam desafios significativos. Se ousam ocupar espaços de poder, deparam-se com estruturas profundamente enraizadas de machismo, racismo e colonialismo. A trajetória dessas mulheres é marcada pela resistência e pela busca por uma representação política verdadeiramente inclusiva.

Os desafios enfrentados por essas mulheres foram destacados em dois encontros da Escola de Ativismo e Formação Política para Mulheres Negras – Beatriz Nascimento, realizados neste mês de novembro, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra. Nos eventos, parlamentares do Brasil, México e Costa Rica compartilharam com as cursistas suas experiências, contribuindo para um diálogo significativo sobre as complexidades enfrentadas por mulheres negras na arena política.

Um exemplo notável dessa luta é a trajetória da mexicana Tereza Mojica, ex-membro da Câmara dos Deputados do México. Em seu depoimento, ela destacou a coragem das mulheres negras ativistas por representarem a população afrodescendente nos espaços de poder, buscando apresentar resultados tangíveis para essa comunidade.

“Gostaria de parabenizá-las por ousarem conquistar os espaços de poder e as instâncias de tomada de decisão. Na verdade, acredito que este é o primeiro passo essencial que todas nós, mulheres negras afrodescendentes, precisamos dar. Decidir participar ativamente da política é crucial. Como bem sabemos, a representação política de mulheres negras na América Latina e Caribe é limitada, tornando-se necessário investir em uma formação mais robusta e engajar-se de maneira mais intensa nas atividades políticas eleitorais, especialmente na preparação para o processo eleitoral de 2024”, declarou Tereza.

Durante sua participação, Tereza Mojica enfatizou a importância das mulheres negras se unirem em equipe, independentemente do partido político ao qual pertencem. Ela ressaltou que todas as mulheres negras  enfrentam violência política, de gênero e racial, destacando que esses desafios são estratégias para desencorajar a participação feminina na política.

“Devemos fazer equipe com outras mulheres, já que não importa o partido político que militamos, a que pertencemos, todas as mulheres negras sofremos violência política, de gênero e raça, e isso acontece para desincentivar a nossa participação. Devemos nos preparar politicamente para tornar visível a nossa luta de forma empática, utilizar as redes sociais para alcançar um maior número de pessoas e mantê-las informadas sobre as nossas causas, já que a cultura patriarcal e machista menospreza as mulheres, e em muitos casos nos acusam de lhes tirar os seus espaços”.

O encontro, realizado no dia 8 de novembro, em formato virtual,  também contou com a participação de Epsy Campbell Barr, a primeira mulher e afrodescendente a assumir a vice-presidência da Costa Rica, sendo também a primeira pessoa negra eleita vice-presidente de um país da América Latina. Ela, além de apresentar a sua trajetória política,  fez reflexões sobre a  importância da representação diversificada nos espaços de decisão, observando que as imagens tradicionais de poder frequentemente não refletem a diversidade da população.

“Nós estamos enfrentando estruturas de poder que são claramente machistas e racistas, como uma visão do poder colonial, e que também nega a diversidade de sujeitos. Todas as fotografias de poder que temos, são claramente identificadas, são fotografias de poder que não se parecem, na maioria dos casos, com a gente. Por isso quero parabenizá-las porque vocês já deram um passo para dizer: ‘eu quero ser parte desta estrutura’; ‘vou fazer meu trabalho’; mesmo com todos os desafios que essa decisão implique”.

Na oportunidade, a costarriquenha ainda compartilhou com a turma oito características essenciais para mulheres negras que almejam liderança política:

1. Saber qual valor poderá agregar ao espaço local: É crucial compreender o valor que se pode agregar ao ambiente em que se participa, contribuindo com uma visão clara do Estado ou do espaço geográfico. 

2. Definir a missão: Questionar o motivo pelo qual se está buscando determinado cargo, compreendendo a transformação que se deseja realizar ao ocupá-lo. Identificar os temas nos quais se deseja focar é fundamental para guiar a atuação.

3. Conhecimento das ferramentas necessárias: Adquirir conhecimento técnico e político é essencial. Conhecer textos, estudos e os formatos do congresso são elementos fundamentais para desempenhar o trabalho de forma eficaz. Familiaridade com marcos políticos e jurídicos é crucial para enfrentar campanhas, questionamentos da oposição e desafios dentro dos partidos políticos.

4. Disciplina e aprendizagem constantes: Estabelecer uma rotina, cumprir metas, realizar exercícios, cuidar da alimentação e participar de grupos que auxiliem na parte emocional são práticas importantes. A disciplina de seguir um programa de trabalho próprio é essencial para alcançar resultados.

5. Paixão pelo que estamos fazendo: Convencer as pessoas de que o trabalho realizado faz sentido requer paixão e convencimento. Ter um coração dedicado a persuadir de que as ações têm significado é crucial para enfrentar os desafios com força e suavidade.

6. Compaixão: Olhar as pessoas, seja o eleitorado, a equipe ou a própria candidata, com compaixão é uma qualidade essencial. Compreender as necessidades e desafios dos outros fortalece a atuação política.

7. Trabalho em equipe: Reconhecer a importância do coletivo é fundamental. Realizar ações não conforme a perspectiva tradicional política, mas como as mulheres negras fazem, valorizando o trabalho em equipe.

8. Proteger o pessoal: Separar as críticas direcionadas ao “personagem” que está em campanha, protegendo o pessoal envolvido. Entender que as opiniões muitas vezes se referem apenas à imagem pública, e não levar isso para o âmbito pessoal.

MULHERES NEGRAS DO NORDESTE E AMAZÔNIA DO BRASIL

Dando continuidade ao diálogo com as parlamentares negras, na terça-feira, 14 de novembro, as cursistas da Escola Beatriz Nascimento estiveram reunidas, virtualmente, com parlamentares negras das regiões Nordeste e Amazônia. O objetivo central do evento foi proporcionar uma rica troca de experiências, abordando estratégias de ocupação de espaços de poder, enfrentamento à violência política e combate ao racismo, contribuindo para fortalecer a presença e a atuação de mulheres negras na esfera política.

O evento contou com a participação de destacadas parlamentares de suas respectivas regiões, cada uma trazendo contribuições valiosas. Entre as convidadas estavam Ana Claudia, assessora da parlamentar Bia Caminha, eleita vereadora mais jovem da história de Belém (PA); Cleide Coutinho, covereadora da Mandata Coletiva Pretas por Salvador (BA); Jô Oliveira, primeira mulher negra eleita vereadora em Campina Grande (PB); Laina Crisóstomo, covereadora da Mandata Coletiva Pretas por Salvador (BA); Perla Santana, vereadora de Muritiba (BA); e Robeyonce Lima, primeira advogada travesti e codeputada estadual em Pernambuco pela mandata coletiva “Juntas”. 

Durante a atividade Jô Oliveira, destacou a necessidade urgente de questionar o espaço limitado que as mulheres negras ocupam na política, ressaltando a importância de se colocar como candidata para criar uma presença mais significativa e organizada e deu como exemplo a sua trajetória política. 

  “A gente questiona o lugar das mulheres negras. Só tem uma mulher branca pertencente a uma família na Câmara. Foi a primeira vez que me coloquei como candidata aqui na minha cidade. As pessoas estão mais propensas a votar em mulheres organizadas. Importância da representatividade política. A gente não tem o nome e sobrenome dito importante na política. Mulheres vêm ocupando mais espaços, graças à organização.”

Cleide Coutinho, que também é cursista na EBN, falou sobre a importância do apoio mútuo entre as mulheres negras na política, sublinhando o desafio de superar obstáculos partidários e a necessidade de regulamentar as mandatas coletivas. “Sempre fui eu por nós. É muito importante a gente se associar, se agrupar, porque isso faz uma diferença muito grande. É muito importante se sentir acolhida e saber que não está sozinha. Já é difícil para gente, o partido puxar nosso tapete. Então encontrar o acolhimento de companheiras que sabem onde a gente pode chegar, é muito importante. As mandatas coletivas são um meio de furar essa bolha. É tanto que já querem puxar o nosso tapete. Precisamos nos articular para que haja uma regulamentação dos mandatos coletivos e que a gente consiga se aglutinar nessas organizações de mulheres negras, precisamos estar nesses espaços”.

Perla Santana compartilhou uma experiência de enfrentar não apenas a sub-representação, mas também a agressividade em um ambiente político predominantemente masculino e branco. “Numa câmara de 10 vereadores, sou a única mulher, mulher negra, mãe solo e comerciante. Passei por um processo de pedido de cassação muito agressivo porque bati de frente com homens brancos”.

A covereadora Laina Crisóstomo defendeu que existem pautas inegociáveis para as mulheres negras, que precisam ser protagonizadas por seus próprios corpos. Para ela, “a luta das mulheres negras é coletiva, e ela é coletiva em qualquer lugar, mas também no parlamento. O espaço é muito adoecedor, mas se a gente não estiver lá, como é que fica? Não haveria resistência na câmara hoje. Quando a gente está entre nós, a gente fica muito mais forte. Estar entre as mulheres é um processo de cura”.

Robeyonce Lima, codeputada estadual em Pernambuco, engrossa a discussão sobre a necessidade de uma representação efetiva das mulheres negras. “Mesmo no regime democrático com mais de 35 anos de constituição cidadã, ainda há pouca representatividade de mulheres negras, nosso número é bem reduzido. Significa que talvez a gente precise rever esse espaço de democracia. O estado democrático de direito pode ser questionado. Precisamos de cotas nas cadeiras de mulheres negras, como fez no México. Como a gente comemora esses avanços  e também pleiteia mais? A gente precisa ter voz e lugar de fala para falarmos sobre nossas dores. Somos vitoriosas de qualquer forma, porque diante de todas essas violências, chegamos até aqui. A proposta é construir um lugar que nos represente e quando a gente se sentir injustiçada, vamos à luta”, pontuou.

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