Coluna Beatriz Nascimento #2 – 3ª Temporada: Sonia Paim

Carta para a Escola Beatriz Nascimento

Recebi de amigas um convite para estar na escola Beatriz Nascimento, tentei e achei que
não conseguiria passar, mas por algum motivo fui chamada. Através de um sonho as
minhas invisíveis gritaram comigo: “vá” e eu insegura, cheia de medo disse a elas que
aquele lugar não me pertencia, pois não era potente o suficiente para estar ali. Mas elas
continuaram ecoando em minha mente que eu deveria ir, então decidir escutar as minhas
vozes ancestrais.

Quando cheguei olhei em volta da sala e vi várias mulheres negras com várias vivencias,
muitas histórias e me arrepiei com a potencia que elas representavam para mim. As aulas
eram encantadoras e quanto mais ficava mais vontade tinha de aprender com elas e foi a
partir daí que me perguntei: “Quem eu sou agora e o que eu quero ser?” essa pergunta
ficou em minha cabeça durante todos esses meses na escola e a cada vivencia
compartilhada, a cada lição aprendida eu me questionava ainda mais. Mas agora,
finalmente tenho minha resposta:

Eu sou um mar de emoções
Eu sou uma mulher adulta que por ser adulta abandonou a criança sonhadora
Eu sou o suporte da minha avó
O orgulho da minha mãe
A fortaleza da minha casa
Mas se eu estiver em ruinas, quem me ajuda?
Quem me acolhe?

Eu sou uma mulher bocuda, barraqueira, encrenqueira
Se ninguém me escuta eu grito
Se ninguém me enxerga, me faço presente
Se ninguém me acolhe, eu mesma me cuido
Mas as vezes tudo que queremos é alguém que diga “eu te entendo”

Ali na escola eu estava entre as minhas, ali me permitir ser quem realmente sou
Abaixei a guarda, tirei minha máscara de “suporto tudo”
E percebi que não preciso mais usá-la novamente.
Diante de todas as amarras e traumas que o racismo me trouxe, aqui estou eu, uma mulher
que renasceu.
Renasci do ventre de cada irmã presente ali e assim que renasci a primeira coisa que
verbalizei foi: “Ufa! Finalmente estou no meu lugar”

Hoje quem eu sou?
Eu sou Odara
Eu sou Grumap
Eu sou potente
E quero ser muito mais
Mas se tem uma coisa que eu nunca mais quero ser novamente é uma mulher solitária.

Obrigada a todas as mulheres responsáveis por me fortalecer e me ajudar a ver em mim
o potencial que eu não conseguia enxergar. Aqui é o meu recomeço, saio daqui renascida,
renovada, acolhida e principalmente, pronta para acolher a quem precisar.
Depois de 5 anos sem escrever, voltei com meus textos e esse aqui é o primeiro deles.
Normalmente minha escrita vem da dor, hoje ela veio do afeto. Gratidão a escola Beatriz
Nascimento.

*Sonia Paim é estudante de História na UFBA, professora em formação, artesã e mediadora cultural. Atualmente trabalha na Casa do Carnaval e confecciona bijuterias artesanais.

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