Coluna Beatriz Nascimento #5 – 3ª Temporada: Juliana Vitorino

Há alguns meses vinha pensando e me preparando psicologicamente para escrever uma carta para a jovem Juliana Vitorino, ensaiei algumas introduções, fiz uma retrospectiva da minha caminhada, pegando lá do comecinho, em 2003, quando comecei a frequentar os encontros do Grupo Adolescer Legal, no subsolo da igreja católica do Alto José do Pinho.

E logo em seguida começamos a dar corpo, voz e movimento à Cia de Teatro Zé do Pinho. Sendo onde de fato se iniciou a minha formação política e social. Eram nas tardes intensas de sábados que aconteciam os debates sobre os textos, que aconteciam os cuidados com o corpo, com apenas o convite de fechar os olhos, se concentrar e imaginar. Lá também a nossa escrita e as nossas avaliações eram incentivadas após cada trabalho realizado. Realmente foi o primeiro espaço que aguçou o meu senso crítico e eu não entendia muito bem como e usaria, no futuro, tudo o que vivenciava naqueles momentos. Não demorou muito e logo entendi a importância de estar organizada e informada sobre as leis do nosso país, sobre direitos humanos e como a sociedade enxergava a população preta, pobre e periférica.Começar a construção de uma caminhada social na minha comunidade, conhecendo as atrizes e os atores políticos, conhecendo a pluralidade cultural enraizada e fazendo articulações com os bairros adjacentes me impulsionou para outros voos.

Ali me senti mais confiante, pertencente, multiplicadora de saberes e uma aprendiz. As voltas da caminhada vida, me levaram a conhecer lugares e pessoas que só conhecia pela TV, a trabalhar onde as leis e a fiscalização das políticas públicas eram feitas. Decepções e revoltas com o descaso e falta de dedicação daquelas e daqueles intitulados de representantes do povo no que se trata das necessidades da maioria da população. As decepções da política! 

Florescer em Salvador… 

Cheguei em Salvador em Julho de 2022, com a missão de coordenar uma campanha eleitoral, no ano em que as eleições ficaria marcada historicamente como a retomada da democracia no Brasil. O pleito eleitoral passou e resolvi morar e reconstruir uma caminhada em Salvador. Nos primeiros meses me senti órfã, perdida, sozinha e desacreditada de mim e das minhas habilidades. Pensei até que tinha desaprendido a caminhar coletivamente. Foi aí que encontrei a chamada para as inscrições da Escola de Ativismo e Formação Política Beatriz Nascimento. Com pouca coragem e desacreditada fiz a inscrição, cheia de orgulho de mim recebi o email de confirmação da minha participação, felicidade era o meu sobrenome. 

Ter participado da escola foi fortalecedor, energizante, acolhedor, um espaço de cura, um resgate da minha autoestima, da minha força, da minha criatividade. Sem falar nos encontros proporcionados por esse lugar tão significativo que é o Alto das Pombas e as mulheres que constroem esse território de afeto, resistência, lutas e o bem viver para todas e todos. Me lembrou lá do meu lugar, do meu território, dos afetos e redes construídas por lá.

A cada encontro, a cada sábado a troca constante de saberes, de olhares, os temas dos módulos que me proporcionaram atravessamentos inquietações, aprendizados e curiosidades, de cada momento dos lanches coletivos foram alicerces fundamentais para os passos que volto a ensaiar hoje, me fez novamente entender a importância de está organizada ao lado das minhas. Fui impulsionada e atravessada por várias histórias de vida que me fizeram retomar projetos engavetados, retomar os estudos, encerrar ciclos abusivos e manter o foco na minha saúde mental.

Redes estão se formando, parcerias sendo construídas, espaços sendo ocupados, mãos foram entrelaçadas e muitos passos serão dados nas lutas por todas nós, pelo nosso povo.

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