Coluna Beatriz Nascimento #9 Tania Sonize

Desde agosto, temos visto por aqui, a escrita insubmissa de mulheres negras na Coluna Beatriz Nascimento: uma exposição dos produtos das mulheres participantes da 3ª Turma da Escola de Ativismo e Formação Política para Mulheres Negras – Beatriz Nascimento, e o nono produto é mais uma carta destinada à Beatriz Nascimento, escrita pelas mãos e mente da cursista alagoana, Tania Sonize.

A seguir, leia a carta completa.

Alagoinhas, 20 de junho de 2022

Carta à Maria Beatriz Nascimento,

Gostaria de falar sobre a intelectual que foi a Beatriz Nascimento, uma mulher que se dedicou a discutir letramento racial nos colocando como sujeitos, buscando entender o negro como essencial na luta contra o racismo, em um lugar de autorreflexão e auto entendimento.

No texto “Meu Negro Interno”, a autora parte de uma situação de racismo sofrida por ela em um supermercado, numa situação cotidiana da vida “normal”, onde sofre um racismo óbvio na comparação ao tratamento dado a uma mulher branca que lhe antecedeu na fila.

Ao sair do espaço constrangida, triste e humilhada, levando consigo, de forma silenciosa toda a dor que sentia, que a fez se retrair em casa por dias; decidiu então procurar por ajuda terapêutica. A partir daí se depara com a indicação do profissional de que, a grosso modo, a racista era ela, seria cômico se não fosse trágico, como se diz por aí.

Enfim, a autora se utiliza dessa situação para discutir sobre as relações raciais desenvolvidas no âmbito da sociedade brasileira, onde lembra questões como “cultura do povo negro”, a falácia da “democracia racial” e se detém em um ponto crucial da situação do negro no Brasil que é a questão de classe sócio/racial.

Discute a ideia de que a classe social seria capaz de acabar com o racismo; e propõe várias situações onde a maioria das pessoas negras estão em empregos mal remunerados e com baixa escolaridade como sendo herança do período colonial. Ao mesmo tempo em que reconhece a existência de pessoas brancas pertencentes a classes sociais mal remuneradas, porém, sinaliza a diferença de tratamento, como no caso do elevador, em que a sua cor de pele lhe colocou no lugar de ser constrangida pelo porteiro, não foi o seu ‘negro interno’ que a colocou nessa posição e não ocorreria essa situação caso sua cor de pele fosse branca, não importando a classe social.

Será mesmo que ter dinheiro, estudo e acessos ao confortável mundo material seriam capazes de acabar com o racismo? Será que pessoas negras em posição econômica favorável não sofrem racismo? Durante a leitura do texto é possível ver que o racismo é algo maior e que não é criado pelos negros que são vítimas dessa estrutura colonial. Além de responder essas questões, a leitura do texto suscita tantas outras possíveis de serem feitas e debatidas.

Estudar a obra de Beatriz Nascimento é atual e necessário para todas as pessoas negras e não negras que se propõem a buscar letramento racial. No caso de pessoas negras, serve para alcançar suporte e defesa contra essa sociedade racista. Por essas questões é que se torna essencial ter um curso apresentando a obra dessa intelectual tão potente e com a possibilidade de debates tão profundos e caros à nossa sociedade e à nossa existência.

Ao ler seus textos, Beatriz, me fortaleço na luta diária. No caso específico desse texto aqui debatido, me reconheço, me vejo. Sinto que não sou culpada pelas violências racistas a mim direcionadas, sinto que não estou só, sinto que, para além de reconhecer meu “meu negro interior”, é preciso acolher, apoiar e fortalecer este que a sociedade insiste em massacrar. 

Obrigada Maria Beatriz Nascimento.

Quem é Tania Sonize? 

Mulher negra, socialista, deficiente e sempre lutou e participou de movimentos populares que questionam as diversas opressões de raça, classe, gênero, dentre outros atravessamentos.

Em sua jornada sempre esteve presente o estudo, pois, acredita não ser o único caminho, nem o mais importante, mas foi o que ela construiu para si .Sempre estudou em escola pública e na Universidade não foi diferente. Para ela, o racismo permeia  as instituições de ensino; é uma realidade que precisa ser combatida. 

Cursou algumas disciplinas no mestrado em Sociologia da UFRB/Cachoeira;  onde teve acesso a uma literatura negra e a debates racializados que me abriram para ela um leque de possibilidades para além da dor. 

Quando terminou seu curso, dedicou-se ao seu próprio “letramento racial”, que julga ser sua forma de se  apropriar desse conhecimento. Assim, ela faz muitas leituras, participa de debates, cursos e rodas literárias. Seu aquilombamento tem sido o seu suporte, pois dessa forma, ela considera retornar aos espaços de luta melhor preparada.

Tania é professora. Uma frase que a define é a que usa em suas redes sociais: “Não sou pacifiquinha, nem sou ajustada ao sistema”. 

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