Ato de abertura da 4ª edição da Semana Elitânia de Souza, em Cachoeira (Ba),  é marcado por revolta e pedidos de justiça às vítimas de feminicídio na Bahia

A audiência teve início com a leitura da “Carta Aberta – Exigimos reparação pela omissão do estado no combate à violência doméstica e ao feminicídio na Bahia”, que detalha o cenário atual no estado

Por Brenda Gomes | Redação Odara

Em meio a tantos casos de violência doméstica e feminicídio de mulheres negras, também está a história de Elitânia de Souza. Jovem quilombola, da comunidade Brejo do Engenho da Guaíba – da Bacia do Iguape, em Cachoeira (Ba), ativista, estudante de Serviço Social na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), assassinada aos 25 anos pelo seu ex-namorado, Alexandre Passos Silva Góes, em 2019, na saída da aula. 

A história de Elitânia marcou a cidade de Cachoeira e fez ecoar o grito por justiça. Exemplo disso foi a realização da Marcha e Audiência Pública, na última quinta-feira (23),  para clamar por justiça e em apoio a todas as vítimas de feminicídio na Bahia. A “Audiência Pública – A omissão do Estado no combate à violência doméstica e ao feminicídio na Bahia” foi realizada no Cineteatro Cachoeirano, e contou com a participação de estudantes, professores, lideranças de movimentos sociais e moradores do município. Embora convidados, mediante entrega de ofício, foram poucos os representantes do poder público presentes.

A Audiência Pública foi realizada no Cineteatro Cachoeirano | Foto: Instituto Odara

A audiência teve início com a leitura da “Carta Aberta – Exigimos reparação pela omissão do estado no combate à violência doméstica e ao feminicídio na Bahia”, que detalha o cenário atual no estado em relação a esse grave problema. Joyce Lopes, coordenadora do Projeto Quilomba – Pela Vida das Mulheres Negras, enfatizou a ineficiência do Estado nesse contexto. Ela apontou lacunas significativas nas políticas públicas destinadas a combater a violência de gênero, especialmente no que diz respeito às mulheres negras.

“Estamos aqui desempenhando o papel que o Estado também deveria  assumir, que é o de ouvir as organizações da sociedade civil. No entanto, percebemos que o Estado muitas vezes se faz indiferente às nossas vidas, sendo conivente com todas as situações de violência contra mulher e ainda mais omisso e inoperante em relação as violências que não são físicas”, declarou Joyce. 

Valdecir Nascimento, historiadora e idealizadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, reforçou a urgência de abordar e combater todas as formas de violência, destacando a necessidade de uma resposta mais abrangente e efetiva das comunidades. “É hora de falar sobre a vida real, de confrontar a dura realidade que enfrentamos diariamente. O sistema de opressão é a raiz dessa violência, garantindo a reprodução de tantas formas de agressão. Vivemos em um estado masculino, dominado por homens que, ironicamente, são os responsáveis por nos tirar a vida. E a pergunta persiste: por que continuamos elegendo tantos homens?”

Valdecir reforçou a urgência de abordar e combater todas as formas de violência | Foto: Instituto Odara

Pam Batista, coordenadora executiva da Associação Rede Elas Negras Conexões, também participou da Audiência onde compartilhou um relato pessoal de violência doméstica e destacou a ausência de assistência das políticas públicas em Cachoeira,  ressaltando o período de pandemia, onde muitas pessoas enfrentaram situações de violência.

“Durante a pandemia, vivenciamos a falta de assistência das políticas públicas em nosso município. Muitas pessoas passaram por situações difíceis sem o suporte necessário. Foi aí que vimos a importância dos movimentos sociais nesse contexto, pois são eles que proporcionam o apoio emocional e o acolhimento tão essenciais nestes momentos.”

Mara Abade, da Articulação de Mulheres do Engenho do Ponte, enfatizou a necessidade da criação de redes de proteção para garantir a segurança das mulheres.  “Às vezes prestamos atenção a tudo que está no mundo, mas não prestamos atenção a quem está ao nosso redor. A gente prega muito uma palavra que está na moda, o ‘Bem Viver’, mas qual Bem Viver estamos buscando? Precisamos entender que os caras estão aí com régua e compasso para tirar a nossa vida. Então, precisamos nos acolher. Precisamos praticar o Bem Viver que é uma herança da nossa ancestralidade. Criar uma rede de proteção e fortalecimento para nós, assim como eram os quilombos.”

A advogada e diretora da Tamo Juntas, Letícia Ferreira, trouxe uma atualização sobre os registros de violência doméstica e feminicídios, destacando a preocupante morosidade do sistema judiciário. Sua abordagem ofereceu uma visão detalhada dos desafios enfrentados por mulheres que buscam justiça e proteção.

“Quando uma mulher morre, morrem muitas de nós, pois perdemos a fé no sistema. Morre a esperança. Este sistema de justiça é seletivo. Prende quem quer prender e solta quem quer soltar. Quantos agressores estão presos por descumprimento de medidas protetivas antes de cometerem feminicídios? Nós fizemos um pacto para não morrermos, mas agora precisamos descobrir como sobreviver”, declarou a jurista.

Amanda Oliveira, liderança jovem quilombola, que também faz parte do Núcleo de Juventude Odara, durante a atividade destacou a necessidade de repensar as estratégias de mobilização das mulheres que estão em comunidades afastadas dos grandes centros urbanos. E explicou que “falar sobre violência é algo extremamente restrito, especialmente dentro das comunidades quilombolas. Ao abordar essas violências, é necessário considerar as interseccionalidades envolvidas. As quilombolas enfrentam desafios significativos, pois não têm acesso a canais de internet, meios de denúncia, ou mesmo celulares. Quem está pensando em estratégias de defesa para essas comunidades? As lideranças eleitas muitas vezes parecem não levar em conta as condições das mulheres rurais, das mulheres do campo, quando elaboram mecanismos mínimos de proteção.”

Marchando pelas ruas de Cachoeira (BA) mulheres pediram justiça e fim do feminicídio | Foto: Instituto Odara

Após a Audiência Pública, as ruas de Cachoeira (BA) foram inundadas pelos pedidos de justiça, não apenas para Elitânia de Souza, mas para todas as mulheres negras vítimas de violência. Durante a marcha, muitas pessoas da comunidade foram para as janelas de suas casas, ou pararam um minuto para escutar o que estava sendo dito pelas participantes, demonstrando urgência na discussão da temática. 

O evento fez parte da agenda coletiva da Semana Elitânia de Souza – Pela Vida das Mulheres Negras, que desde 2020 tem feito coro para denunciar as constantes situações de violência a qual mulheres negras estão inseridas. Nesta 4ª edição, a atividade foi organizada pela: Articulação de Mulheres do Engenho da Ponte, Coletivo Angela Davis, Instituto Odara, Núcleo de Mulheres do Rosarinho, Rede Elas Negras Conexões, Rede de Mulheres Negras do Nordeste e ONG Tamo Juntas. A articulação também faz parte da II Jornada pela Vida das Mulheres Negras, organizada pela Rede de Mulheres Negras do Nordeste.

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