Carta das meninas e adolescentes do Projeto Ayomide Odara para os gestores educacionais

Bahia e Pernambuco, 05 de abril de 2021

Nós, meninas e adolescentes do Projeto Ayomide Odara, organizado pelo Odara Instituto da Mulher Negra e apoiado pelo Fundo Malala, queremos falar sobre nossas vivências dentro da escola, para que esse seja um espaço mais acolhedor e mais nosso quando as aulas voltarem.

A escola sempre foi nossa segunda casa, o ambiente onde é possível socializar, aprender, conhecer coisas novas e construir mundos, apesar disso, essa segunda casa nem sempre foi acolhedora, para meninas, negras, candomblecistas, da comunidade e outros grupos tidos como “diferentes”, algumas questões poderiam transformar esse ambiente de um jeito negativo. Muitas coisas são violentas na escola, quando ela não parece ser pensada para nos receber, quando temos que aceitar um lugar que não nos agrada, porque a estrutura escolar não foi pensada para pessoas negras, isso fica evidente quando temos que nos defender de uma violência no ambiente escolar e não encontramos acolhimento e escuta da escola.

A pandemia nos surpreendeu, e, sem preparo e sem ferramentas, muitas tivemos que abandonar nossa escola, algumas de nós conseguiram ter aula, porém, faltava muito. O contato com os professores, a socialização e o ambiente físico da escola fez falta para todas, a falta de estrutura em algumas situações, nos exclui do direito básico à educação, não tivemos meio de nos manter concentradas, incentivadas e produzindo.

Acreditamos na escola, na educação, na mudança que o ensino pode causar em nossas vidas, e principalmente, entendemos a importância de estar nesse lugar, mas algumas coisas não podem voltar conosco para a escola. Temos a necessidade de melhoria estrutural na escola, existem problemas nos bebedouros, nos banheiros, nas quadras, faltam professores. Pontuamos também como dificultadores as segregações em todos os sentidos, desde sermos excluídas por sermos praticantes de religiões de matriz africana, até não podermos jogar futebol por sermos meninas, pedimos que a escola seja pensada para nosso bem estar, que seja pautada em cima de respeito, que possamos nos sentir incluídas, acolhidas e ouvidas. A escola precisa ser um lugar de pertencimento, acolhimento, escuta e transformação.

Nosso futuro inicia com a educação, tendo consciência  disso, desejamos uma melhoria eficaz, uma desconstrução e reconstrução da organização escolar, da forma como nossa escola lida conosco, queremos e precisamos nos manter vivas e bem, aprendendo, construindo, educação é direito, bem viver é poder.

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