Coluna Beatriz Nascimento #5 Angela Oliveira da Silva

Durante os meses de agosto e setembro, veremos por aqui, a escrita insubmissa de mulheres negras na Coluna Beatriz Nascimento, uma exposição dos produtos das mulheres participantes da 3ª Turma da Escola de Ativismo e Formação Política para Mulheres Negras – Beatriz Nascimento e o quinto produto desta série, é um artigo acerca dos processos de invisibilização, ausência, bem como, o apagamento sistemático da historiadora Beatriz Nascimento no campo acadêmico, produzido pela Angela de Oliveira Silva.

A seguir, leia uma parte do artigo.

BEATRIZ NASCIMENTO AUSENTE NA LISTA DOS INTÉRPRETES DO BRASIL: POR QUÊ?

Angela Oliveira da Silva

1.1 A história do Brasil e o apagamento do negro através do olhar da historiadora Beatriz Nascimento

Partamos agora, dessa breve empreitada que foi a realização da análise das obras faladas até aqui, para uma tentativa de compreensão do que foi proposto no início deste capítulo, ou seja, entender o apagamento de Nascimento e de suas produções na historiografia brasileira, e no meio acadêmico. Como bem nos disse a intelectual ao militar “Por uma História do Negro”; uma história que viesse a conter e contemplar Beatriz Nascimento e as(os) demais intelectuais negras e negros brasileiros.

Seguindo este princípio norteador, nos fala Vinhas (2016) acerca do apagamento e silenciamento acadêmico sofridos por Beatriz Nascimento na sua trajetória intelectual. O autor faz uso do conceito de política do esquecimento1 a qual está direcionada ao apagamento das contribuições referentes aos intelectuais negros e negras no contexto das novas gerações.

Na historiografia do campo intelectual brasileiro, encontramos nomes da intelectualidade negra que, apesar da relativa visibilidade em sua época, beiram o apagamento completo da memória nacional. Como exemplo, é possível citar Luiz Gama [1830 – 1882], Monteiro Lopes [1867-1910], Hemetério dos Santos [1858 – 1939], Lino Guedes [1897 – 1951], Solano Trindade [1908 – 1974], Edison Carneiro [1912 – 1972], Abdias do Nascimento [1914 – 2011], Guerreiro Ramos [1915 – 1982], Clóvis Moura [1925 – 2003], Eduardo de Oliveira e Oliveira [1924 – 1980], Lélia Gonzalez [1935 – 1994] e Beatriz Nascimento [1942 – 1995]95. Partindo de Ângela Figueiredo e Ramón Grosfoguel (2007) pode-se argumentar que são casos relacionados à política do esquecimento cujo mecanismo responde pelo apagamento da contribuição de autores negros e negras das novas gerações (VINHAS, 2016, p. 54).

Este apagamento e invisibilidade sofrida por essa intelectualidade negra partiria do racismo estrutural e do sexismo que se fez, e ainda se faz, presente nas instituições de ensino, como a universidade, produzindo não só a afastamento do negro do meio acadêmico, como a falta de reconhecimento deste negro enquanto intelectual/pesquisador.

O espaço acadêmico foi e ainda é um território mantido e dominado majoritariamente por pessoas brancas, no qual a população negra encontra-se relegada a posições subalternas. Uma estrutura racializada mantida por concepções e práticas racistas estruturantes não apenas no nível da “sociologia conhecimento”, mas igualmente da epistemologia. […] Segundo Ratts (2006, p. 30), os intelectuais brancos, encastelados em sua branquitude, acabam por construir redes profissionais fechadas e cindidas racialmente, criando mecanismos e formas de legitimar suas redes acadêmicas citando-se mutuamente em suas produções, e validando com isso, não apenas seus trabalhos, mas também a si. Essa estrutura de manutenção de privilégios acaba por caracterizar e perfazer o esquecimento de intelectuais  negras (os), ainda mais quando associado a recusa e/ou refutação de suas produções, prática também comum dessas redes. (PINN, 2019, p.144-145).

Segundo Pinn (2019), a branquitude2 em seu pacto narcísico presente também nos meios de produção acadêmico e intelectual, age como mais uma barreira que dificulta tanto o acesso, como as produções/pesquisas dos intelectuais negros e negras.

Florentina Souza (2013) afirma que o negro brasileiro é exaltado enquanto objeto de pesquisa, mas normalmente excluído da atividade de pesquisador por essa prática ser considerada prerrogativa de brancos. No racismo à brasileira, lembra Souza, a intelectualidade do país sempre esteve atenta ao lugar étnico-racial desse grupo social, seja para exaltá-lo como pessoa de alma branca, seja para depreciá-lo em áreas exclusivamente destinadas aos brancos. (VINHAS, 2016, p.56).

O sexismo que também estrutura as relações sociais se apresenta como fator extra de dificuldade para as mulheres, e principalmente, para as mulheres negras; não se pode deixar de fora tal questão quando tentamos elencar os motivos de exclusão de intelectuais como Nascimento, seja enquanto indivíduo inserido na história contada, seja como indivíduo que a produz.

[…] bell hooks (1995) defende que, além dos preconceitos raciais presentes na sociedade, a intelectual negra também enfrentaria as discriminações de cunho sexista da estrutura patriarcal. O trabalho intelectual não seria considerado uma atividade para mulheres e isso levaria muitas delas a desistirem de estudar ou a não encontrarem motivação para continuar o percurso acadêmico (HOOKS, 1995, RATTS, 2005), ou ainda a ter de enfrentar o que Sandra Azerêdo (1994) chama de tradição acadêmica patrilinear. De acordo com Spivak (2010) a mulher subalterna encontra-se em uma posição ainda mais periférica na medida em que enfrenta os problemas de gênero que a colocam no mais profundo obscurantismo. (VINHAS, 2016, p.56).

Complementa Silva (2021) acerca disso:

É com pesar que são detectados nomes importantes para a historiografia do Brasil que beiram o esquecimento e o abandono. De todos eles, a grande maioria é formada por mulheres que enfrentaram adversidades durante toda suas trajetórias de vida, como é o caso de Beatriz Nascimento: poetisa, protagonista, escritora, negra e mulher. (SILVA, 2021,p.9).

Essa estrutura de manutenção de privilégios acaba por caracterizar e perfazer o esquecimento de intelectuais negras(os) e suas pesquisas, ainda mais quando associado a recusa e/ou refutação de suas produções, prática também comum dessas redes (PINN, 2019). A ausência e o lugar do não existir foram denunciados por Nascimento na História do Brasil ao se posicionar a partir de seu lugar de fala e afirmar: “eu sou preta, penso e sinto assim” (NASCIMENTO, 1974, p. 94). Ela denunciou também a falta de possibilidade dos negros escreverem sobre si e de ocuparem espaços nas pesquisas para além de estereótipos racistas:

As manifestações preconceituosas são tão fortes que, por parte de nossa intelectualidade, dos nossos literatos, dos nossos poetas, da consciência nacional, vamos dizer, somos tratados como se vivêssemos ainda sob o escravismo. A representação que se faz de nós em literatura, por exemplo, é a de criado doméstico, ou, em relação à mulher, a de concubina do período colonial. O aspecto mais importante do desleixo dos estudiosos é que nunca houve uma tentativa séria de nos estudar como raça. (NASCIMENTO, 2018, p.45).

Ao falar sobre o epistemicídio3, em sua tese de doutorado, a intelectual Sueli Carneiro aponta como este é um dos dispositivos usados para a aplicação dessa invisibilidade, ausência e apagamento tanto do negro, como de suas produções intelectuais no âmbito acadêmico e para além dele (OLIVEIRA, 2020):

(…) Boaventura Sousa Santos (1997), para quem o epistemicídio se constituiu e se constitui num dos instrumentos mais eficazes e duradouros da dominação étnica/racial, pela negação que empreende da legitimidade das formas de conhecimento, do conhecimento produzido pelos grupos dominados e, consequentemente, de seus membros enquanto sujeitos de conhecimento. (CARNEIRO, 2005, p.96 apud OLIVEIRA, 2020, p.14).

Beatriz Nascimento nos demonstra bem o que foi levantado acima, em um dos seus artigos, publicado em 1974, intitulado “Por uma História do Homem Negro”. 

O branco brasileiro de um modo geral, e o intelectual em particular, recusam-se a abordar as discussões sobre o negro do ponto de vista da raça. Abominam a realidade racial por comodismo, medo, ou mesmo racismo. Assim perpetuam teorias sem nenhuma ligação com nossa realidade racial. Mais grave ainda, criam novas teorias mistificadoras, distanciadas desta realidade. (NASCIMENTO, 2018, p.45).

Na conferência “Historiografia do Quilombo” proferida por Nascimento na Quinzena do Negro realizada na USP, organizada pelo sociólogo Eduardo de Oliveira e Oliveira, no ano de 1977, tempos a historiadora falando especificamente sobre a necessidade revisional do que foi produzido até então sobre o negro na História do Brasil.

Eu acho de extrema importância esse ciclo de palestras que Eduardo procurou fazer aqui em São Paulo, porque realmente a gente precisa fazer uma série de reformulações, de críticas, a respeito de todos os estudos que foram feitos, de alguns estudos que foram feitos a respeito do negro. No meu caso especial, eu me interesso basicamente por história, porque eu sou formada em história e que foi através da história que eu vim tomar conhecimento do meu papel como negro dentro de uma sociedade como a brasileira, que sempre procurou alijar a gente. […] nós nunca fazemos parte da História do Brasil, das coisas que acontecem no Brasil, das coisas mais importantes. Nós éramos sempre contribuintes de uma cultura, contribuímos sempre com… para a cozinha, para a dança, para o futebol, para etc. e tal. Então, mas isso não me impossibilitou de ver, através das entrelinhas da História do Brasil, toda uma participação maciça, independente muitas vezes, e forte do preto dentro do Brasil. (NASCIMENTO, 2018, p.127).

Complementa Nascimento em sua fala, expondo sua experiência pessoal na universidade durante sua graduação em História, iniciada no ano de 1969, vivida quase da mesma maneira por pessoas negras nos dias atuais. Permito-me pontuar aqui, através da fala de Nascimento, a mesma experiência vivida por mim durante minha graduação, também em História.

E quando cheguei à universidade, a coisa que mais me chocava era o eterno estudo, quando se referia ao negro, sobre o escravo, como se durante todo o tempo da História do Brasil nós só tivéssemos existido dentro da nação como mão de obra escrava, como mão de obra da fazenda, para a mineração. (NASCIMENTO, 2018, p. 127).

Sua insatisfação e crítica à falta de uma história do negro foi um dos motores impulsionadores para a realização incessante de sua pesquisa, como destaca Silva (2021): 

Sua insatisfação era transformada em vontade de modificar maneira como a universidade e a sociedade dispunha a história dos negros. Para ela, a existência histórica dos negros apenas como escravos era algo obsoleto, mas ao mesmo tempo real e palpável uma vez que essa visão se refletia claramente na escassez de estudos de qualidade sobre a temática. (SILVA, 2021, p. 4).

E são a partir dessas pesquisas que iremos nos debruçar a seguir as teorias de Nascimento que compõem uma narrativa de conceitos novos à época, e até mesmo nos dias atuais, visto que “(…) Beatriz não empreendeu apenas um estudo acerca da questão racial no Brasil, a autora empreendeu sobretudo, a construção de uma História do Brasil racializada, de e para a população negra, alterando seus tempos e conceitos” (PINN, 2019, p. 154 apud SILVA, 2021, p.11). Merece o reconhecimento devido.

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