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13 ANOS DE ESPERA: A Luta de Dona Rita por Justiça por Carlos Alberto Júnior, executado pela PM-BA no Nordeste de Amaralina

Júnior tinha apenas 22 anos quando saiu de casa para comprar leite para o filho e, depois, jogar bola com um primo. No caminho, foi baleado por policiais militares

Por Redação Odara 

O tempo parece ter parado para Rita de Cássia em 13 de junho de 2013. Desde aquele dia, há treze anos, ela caminha carregando duas dores que se entrelaçam: a ausência irreparável do filho único, Carlos Alberto dos Santos Júnior, e a espera interminável por justiça.

Júnior tinha apenas 22 anos quando teve a vida interrompida por agentes da Polícia Militar da Bahia (PM-BA), no Nordeste de Amaralina, em Salvador. Trabalhador, sem antecedentes criminais, naquele dia, o jovem estava de folga. Saiu de casa para jogar bola com um primo, em uma tarde que deveria ser comum, mas que acabaria marcada pela violência.

Ainda na rua em que morava, Júnior se deparou com uma operação policial, e tentou correr para escapar dos disparos. Não adiantou. Ele foi cercado e executado em um terreno da comunidade. Desde então, enquanto a vida seguiu para quase todos, para dona Rita os relógios parecem ter congelado naquele instante em que perdeu o filho e viu a busca por justiça se tornar espaço de mais dor e revitimização.

Dona Rita descreve Carlos como um jovem “prestativo e responsável”. Pai aos 18 anos, ele trabalhava no Gran Hotel da Barra para sustentar a casa e o filho. Ironicamente, na infância, o sonho de Carlos era vestir a farda que acabaria por tirar sua vida. “Ele sempre quis ser polícia, mas quando ficou adolescente, como ele saía com os primos, ele era muito abordado. Ele viu muita violência da polícia. Aí falou que não queria mais. Ele disse: ‘Minha mãe, não quero não, que é muita coisa errada que eu não vou aceitar’”, relembra a senhora.

Fora do trabalho, Carlos era um jovem comum, apaixonado pela vida, pela família, amigos e comunidade. Torcedor fervoroso do Vitória, frequentava o Barradão e amava jogar videogame. Gostava de ser goleiro nas partidas de futebol com os amigos e de fazer churrasquinho em casa nos finais de semana. Diferente de muitos que sonham em deixar a periferia, Carlos tinha raízes ali. “Ele dizia que nunca queria sair daqui do Nordeste, amava o Nordeste. Dizia que queria morrer aqui dentro”, conta a mãe.

Após a morte do rapaz, familiares, amigos e moradores do Nordeste de Amaralina realizaram inúmeros protestos para pedir justiça por Júnior. Hoje, o processo que investiga os policiais Jefferson França, Diego Luiz Silva e Iapuran Cerqueira Junior, denunciados por homicídio duplamente qualificado por motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima, aguarda, desde o mês de fevereiro deste ano, a última decisão da juíza da 1ª Vara do Tribunal do Júri sobre a  pronúncia, que definirá se os réus irão a júri popular por homicídio ou se responderão por conduta menos grave.

A ausência de Carlos deixou um vazio impossível de preencher. Quando questionada sobre como imagina que o filho estaria hoje, aos 34 anos, Dona Rita revela a dificuldade de visualizar um futuro que lhe foi roubado. “Eu não sei. Eu nem consigo. Mas eu acho assim: um homem bonito, forte, malhado, sei lá, bonitão, grandão… que ele sempre foi grandão”, diz ela, com a voz embargada pela incerteza do que poderia ter sido.

IMPACTOS DA VIOLÊNCIA 

A morte de Carlos também reflete na saúde física e emocional de sua mãe.  Dona Rita relata que desde a perda do filho passou a ter pressão alta, dores persistentes e até um câncer de mama. “Eu tô sozinha para tudo agora. É muito sofrimento”, desabafa a senhora de 58 anos, que ganha a vida como trabalhadora doméstica.

O trauma também alcançou o neto de Dona Rita, hoje com 16 anos. Durante anos, a família tentou esconder que a polícia havia matado seu pai, já que o menino, curiosamente, admirava os policiais quando criança. Ao descobrir a verdade, a revolta também se refletiu em dores físicas no menino, sem explicação médica clara.

O PADRÃO DO GENOCÍDIO NO NORDESTE DE AMARALINA

Dona Rita participa desde 2016 do projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, iniciativa do Odara – Instituto da Mulher Negra, que realiza acolhimento multidisciplinar para mães e outros familiares de vítimas do Estado.

Lorena Pacheco, advogada da Assessoria Jurídica do Instituto, que acompanha dona Rita e presta assistência ao Ministério Público da Bahia no caso, ressalta que Carlos Alberto faz parte de uma política de segurança pública que vitima sistematicamente corpos negros no Nordeste de Amaralina: “Carlos é uma das várias vítimas da PM no Nordeste de Amaralina. A gente vê todos os dias, todas as semanas, pelo menos, grandes operações realizadas pela PM neste território e que tem vitimado diversas pessoas, inclusive crianças, adolescentes e jovens. A mesma polícia que também ceifou a vida de Carlos, aos 22 anos, ceifou a vida do seu primo Joel (10), a de Wellington (20), a de Marcus Vinícius (21), de João Vitor (20), de Jonathan (25), todos esses lá também no Nordeste de Amaralina. A gente se pergunta até quando continuarão?”

Os dados corroboram a percepção de um território sob cerco. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, o Complexo do Nordeste de Amaralina já registrou em 2026 a maior alta de violência armada desde o início do monitoramento em 2022. Entre janeiro e 25 de maio de 2026 a região concentrou 26 tiroteios, resultando em 40 pessoas baleadas e 30 mortas, um aumento de 150% na letalidade em comparação ao mesmo período de 2025. O dado mais alarmante revela a origem dessa violência: das 40 pessoas atingidas por disparos no complexo em 2026, 39 foram baleadas em ocorrências envolvendo ações policiais.

Dona Rita é uma das diversas mães e familiares do bairro que convivem com uma dor insuperável. Ela segue aguardando por justiça e sobrevive entre memórias e a promessa feita ao filho de cuidar de seu neto. “Filho único, desejado. Eu ainda não consigo falar sem chorar, não consigo. Mas eu seguirei lutando por justiça, enquanto eu tiver vida”, afirma.

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