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#OpiniãoOdara – Esperançar para transformar: Mulheres negras, Reparação e Bem Viver

Entre a memória e o futuro, mulheres negras seguem organizando a vida, disputando narrativas e construindo o Bem Viver

Por Redação Odara

O ano de 2025 foi especial. Celebramos 15 anos do Odara – Instituto da Mulher Negra, uma trajetória marcada por encontros, afetos, construção coletiva e compromisso radical com a vida das mulheres negras. São 15 anos sem silenciar diante da violência e das injustiças, mas também 15 anos cultivando a alegria do encontro, da formação, do acolhimento, do cuidado e do sonho coletivo.

Celebrar esses 15 anos foi reafirmar quem somos: uma organização que nasce do território, das experiências de mulheres negras da Bahia, e que percorre os diversos lugares do mundo sem perder suas raízes. Em 2025, essa caminhada se encontrou com um dos maiores processos políticos da história do movimento global de mulheres negras: a construção da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

Ao longo do ano, o Odara ajudou a construir, mobilizar e articular esse processo coletivo que reuniu cerca de 300 mil mulheres negras, de 40 países, em um movimento transnacional que reposiciona o Sul Global como sujeito político. A Marcha é a síntese de anos de organização, formação, escuta, alianças e trabalho tecido com mulheres negras do Brasil e do mundo.

FORMAR E ACOLHER

Se há algo que atravessa a história do Odara é a fé no futuro. Uma fé que se constrói cotidianamente a partir do investimento contínuo na formação política, no acolhimento e no afeto direcionados às infâncias, adolescências e juventudes negras. Em 2025, seguimos afirmando que cuidar, educar e formar são atos profundamente políticos, fundamentais para romper ciclos históricos de violência, exclusão e silenciamento.

Seguimos firmes na formação das Ayomides, das jovens da Escola de Ativismo e Formação Política para Mulheres Negras Beatriz Nascimento (EBN) e das juventudes do projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, fortalecendo trajetórias, vínculos e horizontes de futuro em um contexto marcado pela negação sistemática de direitos à população negra. Esses processos se expressaram em produções culturais, comunicacionais, artísticas e políticas que afirmam a vida, o território e a potência das juventudes negras.

2025 também foi um ano de encontros potentes e estratégicos. O Encontro das Mulheres Quilombolas reafirmou a centralidade dos territórios tradicionais, da ancestralidade, da luta pela terra, pelo Bem Viver e pela continuidade dos modos de vida quilombolas. Esses espaços fortaleceram a articulação política, a troca de saberes e o reconhecimento das mulheres quilombolas como protagonistas na construção da Marcha e de um projeto de futuro.

Essa força coletiva também se expressou nos encontros de juventudes negras, comunicadoras, educadoras e lideranças comunitárias, reafirmando que a organização política das mulheres negras é diversa, territorializada e enraizada na vida cotidiana.

DENUNCIAR PARA PROTEGER A VIDA

Ao mesmo tempo em que celebramos a vida e a organização coletiva, seguimos denunciando a estratégia de genocídio contra a população negra operada a partir das chamadas “operações policiais” na Bahia, estado que segue liderando os índices de letalidade policial no Brasil. Casos como o assassinato de Victor Cerqueira, em Caraíva (BA); a operação no Recôncavo Baiano que deixou 12 pessoas mortas; o disparo que atingiu a universitária Ana Luiza; e a morte de Maria de Jesus, idosa de 87 anos baleada dentro de casa, no Nordeste de Amaralina, em Salvador (BA), representam apenas uma pequena parte da violência cotidiana enfrentada pelos territórios negros.

Quando falamos de violência contra mulheres negras, falamos também de Tainara dos Santos, jovem quilombola vítima de feminicídio; de Bárbara Trindade, mulher trans negra vítima de tentativa de transfeminicídio; e de Alicia Valentina, de 11 anos, cuja morte revelou o silêncio cúmplice diante da violência que atravessa escolas e territórios do Nordeste. Essas histórias reafirmam porque seguimos incidindo, denunciando e exigindo justiça.

ESPERANÇAR: NOSSA ESTRATÉGIA DE RADICALIDADE

Diante desse cenário, uma certeza se reafirma: a coletividade é a nossa maior força. Em 2025, ela se expressou nas articulações rumo à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, no Março de Lutas, no Julho das Pretas, nas cartas políticas, nos encontros e em tantos outros espaços de formação e mobilização.

Esperançar, para Odara, é uma prática política radical e cotidiana, aprendida nas comunidades quilombolas, nos terreiros, nas vizinhanças e nas lutas coletivas. Esperançar é denunciar, formar, articular, construir,  cuidar, ocupar espaços e projetar futuro.

Por isso, seguimos em marcha olhando para 2026, um ano de eleições que exige organização, estratégia e coragem. Queremos um Brasil diferente, e isso passa por usar nossa articulação política para disputar narrativas, enfrentar o pior Congresso da história do país e eleger mulheres negras para cargos de poder.

Seguimos em marcha.
Pela vida. Pela reparação. E pelo Bem Viver.

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